Sa-lo-me.
Envolto num véu de misticismo e exotismo, e também de nequícia, este nome remete-nos para uma personagem bíblica Salomé. Esta ficou conhecida por, após executar uma dança exótica em honra do seu tio e padrasto Herodes Antipas, receber como recompensa a cabeça de João Baptista numa bandeja. “Salome / Dance for me / Bring him / To his knees“. Este não é um álbum completamente conceptual, porém, este título serve como metáfora e epígrafe da atmosfera que envolve este álbum.

Nascidos das cinzas dos Red Sparowes, estes findados em 2010, Greg Burns, Dave Clifford e Emma Ruth Rundle decidiram seguir um novo caminho – denominado Marriages. Em 2012 surgiu o EP de estreia, intitulado “Kitsune”. Este é um álbum etéreo: as vocais de Emma desvanecem dentro da sinfonia de distorções da sua própria guitarra e do baixo, tornando-se mais uma textura desta amálgama sonora que cria uma atmosfera consistente e densa. Aqui denota-se uma influência acrescida de sonoridades típicas de shoegaze. Passados três anos e com um novo baterista Andrew Clinco, chega-nos finalmente “Salome“, o primeiro longa-duração  dos americanos, lançado pela Sargent House. Esta é também a casa, de edição ou promoção, de outras grandes bandas e artistas como Boris, Deafheaven, Chelsea Wolfe, Earth, Wovenhand e Russian Circles.

Salome” é um álbum mais conciso, pensado e preciso. Apesar desta acrescida precisão, não é possível atribuir um género musical especifico à sua sonoridade, uma vez que conjugam e combinam uma grande variedade de géneros: desde rock, post-rock, shoegaze e algumas sonoridades pop especialmente ligadas ao timbre de Emma Ruth Rundle (“Binge” e “Love, Texas”). Aqui denota-se a evolução de Emma enquanto vocalista, esta que está muito ligada à carreira a solo que iniciou em 2014, especialmente com “Some Heavy Ocean“. Assim, em “Salome“, a voz torna-se um ponto fulcral e central, deixando de ser apenas mais uma textura distorcida e desvanecida no instrumental.

Para além de não ser completamente conceptual, não é um álbum tão imediato quanto aparenta à primeira audição: é um álbum de camadas, a cada audição fica-se mais perto do seu núcleo. E então, já depois de chegar a esse mesmo núcleo, mergulha-se num «qualquer oceano pesado», não por nos depararmos com sonoridades pesadas, mas por nos depararmos com uma atmosfera surpreendentemente pesada e densa. Acima de tudo, ao explorar as letras, apercebemo-nos da existência de dualidades que balançam nesta epigrafe: por um lado, o diabo, o pecado, a morte, o inferno, Salomé; por outro lado, temos deus, a vida, a luz, Abel.

O primeiro capitulo que percorremos é “The Liar” que começa com grande destaque para a percussão e com acordes repetitivos, que no refrão se tornam acordes dissonantes e bem agudos. Este é um tema repleto de misticismo na sua letra  “You know this was never meant for me / His lying tongue lay me down with the Devil’s seed  / Every night that he come ‘round / Every night you know the Devil / The Devil is out so“. Mergulhamos logo de seguida em “Skin” onde as vocais já encontram alguma distorção, e o instrumental é mais denso. Este é um tema  de combustão lenta e progressiva, chegando a ser hipnótico. Para este transe hipnótico contribuem as letras, escritas e vocalizadas num ritmo entre-cortado e metafórico.

Terceiro capitulo.  Em “Santa Sangre” encontramos sonoridades mais viradas para o dream pop, de uma «leveza insustentável», quer na percussão, quer nas vocais,  o que contrasta de forma violenta e irónica com a letra: “I’ll come back when you’ve bled out“. Submergimos em “Southern Eye” e “Binge” onde nos deparamos com uma maior, ainda que ligeira, aproximação a “Kitsune“, numa sinfonia de distorções discretas e letras sombrias: “Oh death / Oh death / My good sweet friend“.

Sexto capitulo. “Salome” cede o seu nome a este álbum, enquanto que, ao mesmo tempo, é a descendente directa de “Kitsune” formando uma ponte entre o passado e o presente. Encontramos o apogeu do misticismo e da distorção. Um vulto feminino dança dentro de cada nota deste tema, uma miragem de uma assassina sádica que dança ao som do exotismo do pecado.

Capitulo final. Passamos para “Less Than”, “Love, Texas” e “Contender” onde novamente nos deparamos com sonoridades mais leves, com mais influências pop, ligadas como já disse anteriormente ao timbre da Emma. Esta dualidades de sonoridades, umas mais frescas, concisas e com o seu quê de pop, outras mais viradas para a distorção e mais densas, conferem uma grande coesão a “Salome“. Para além disto, no início do álbum a temática e a bruma encontram-se mais adensadas, decrescendo ao longo do álbum, especialmente no que toca à dimensão lírica. É um álbum a ouvir, descobrir e redescobrir.

Autora: Sara Dias
Sa-lo-me. Envolto num véu de misticismo e exotismo, e também de nequícia, este nome remete-nos para uma personagem bíblica Salomé. Esta ficou conhecida por, após executar uma dança exótica em honra do seu tio e padrasto Herodes Antipas, receber como recompensa a cabeça de João Baptista numa bandeja. "Salome / Dance for me / Bring him / To his knees". Este não é um álbum completamente conceptual, porém, este título serve como metáfora e epígrafe da atmosfera que envolve este álbum. Nascidos das cinzas dos Red Sparowes, estes findados em 2010, Greg Burns, Dave Clifford e Emma Ruth Rundle decidiram…
Para além de não ser completamente conceptual, não é um álbum tão imediato quanto aparenta à primeira audição: é um álbum de camadas, a cada audição fica-se mais perto do seu núcleo.

Álbum. Sargent House. 7 Abril 2015

Classificação

8.1

Para além de não ser completamente conceptual, não é um álbum tão imediato quanto aparenta à primeira audição: é um álbum de camadas, a cada audição fica-se mais perto do seu núcleo.

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