O InDouro Fest surge no panorama de festivais portugueses como um proposta que precede a época alta de verão, reunindo um punhado de nomes dum tal circuito do “indie pop/rock alternativo” a norte do país no Mosteiro da Serra do Pilar e arredores, em Gaia.

A verdade é que o festival começou pelas piores razões largas horas antes de sequer abrirem as portas, com a notícia do cancelamento dos Clinic às custas da greve da TAP, um dos nomes mais marcantes em cartaz e que certamente fez chamar mais povo às bilheteiras do festival. Os problemas começaram aí… aí e na falta de informação precisamente ao nível das bilheteiras à porta do recinto. Afinal de contas não deveria ser assim tão pertinente informarem-se potenciais curiosos e restantes pessoas que adiaram a compra do bilhete para a porta, de que o nome maior do dia e por ventura do festival inteiro tinha cancelado a sua presença nessa mesma manhã. Nem toda a gente do mundo consulta a internet enquanto bebe uma caneca de café pela manhã e quem vos escreve nem morre de amores pelos Clinic, ainda assim, não teria ficado mal à decência que o cancelamento dos britânicos e consequentes alterações de horário tivessem sido informados à compra de ingressos/entrada do festival.

Adiante. Se bem que por adiante não queremos dizer que mudamos já de página, infelizmente. Há condicionantes que uma organização não pode alterar e isso aceitaremos, sempre. As greves, os cancelamentos (plural sim, os Toy cancelaram o concerto no dia seguinte por razões semelhantes) e a chuva incessante acontecem, a verdade é essa, o que nos aborrece de certa forma é a incerteza perante os eventos e a ausência de soluções. Experimentem dizer a alguém que pagou bilhete para ver uma das bandas da sua vida, somente aquela, e que essa foi exactamente uma das que acabou por não marcar presença. Digam-lhes que há muito mais para ver no cartaz (a questão é que não havia assim tanto) e que todas as bandas são excelentes e etc. etc.

Os reembolsos existem mas apresentam outro tipo de complicações compreensíveis, mas pelo menos apresentar condições nítidas e claras ao público no que a um reagendamento diz respeito, tanto a nível de datas como de condições espaciais e logísticas, é vital para não estragar uma relação com o comprador desde o momento zero. Mesmo esquecendo tudo isto e regressando ao momento de anúncio do próprio festival e do cartaz, quando é que uma “afluência de cerca de 15 mil pessoas” pode parecer um número aceitável e perfeitamente possível ao fazer coincidir um evento destes, com tudo a provar, com um fim de semana de arranque de Queima das Fitas do Porto? Esta questão ainda assim é de importância minor ao pé da escolha lamentavelmente duvidosa de artistas para cartaz.

Desde o momento inicial sentiu-se que os ovos foram praticamente postos na mesma cesta, 80% dos nomes em alinhamento parecem uma amalgamada monocromática em que fica difícil distinguir a banda anterior da seguinte. Somem a isso um senso de timing questionável no que se refere a bandas como os Yuck e os Toy, não deixam de ser artistas interessantes e responsáveis por álbuns de que gostamos bastante (esqueçam lá os Toy; homónimo de Yuck de 2011, estamos sim a olhar para ti), mas no fundo não podemos deixar de sentir que são bandas que passaram já o seu pico de carreira e popularidade e que arderam demasiado rápido. Voltando aos 80%; quando uma das bandas mais decentes no rol (The Lost Rivers) soa a uma versão barata de A Place To Bury Strangers, não é preciso dizer muito mais, é? Seguindo em frente, de vez.

Num primeiro dia sem Clinic, vimos a paisagem sobre o rio Douro e a cidade do Porto dar o melhor concerto do dia. Se a vista do Mosteiro da Serra do Pilar não é a mais bela de todas as vistas sobre a cidade Invicta, anda lá muito mas muito perto. No pódio podemos enfiar os Tristesse Contemporaine e The Limiñanas. A bizarrice do som da primeira e a psicadelia do rock da segunda banda francesa trouxe os melhores momentos musicais de Sábado no InDouro Fest. Nota negativa para os atrasos incompreensíveis neste primeiro dia de festival que acabaram por não nos permitir assistir ao concerto de White Haus, e que custam especialmente a engolir quando uma das bandas que teria certamente maior slot temporal no alinhamento desapareceu do cartaz.

Já puderam perceber que nutrimos um certo carinho pela rapaziada por trás de “Get Away” e “The Wall”, e mesmo após a saída de Daniel Blumberg para se dedicar a Hebronix, os Yuck foram lá se conservando (em serviços mínimos) para “Glow & Behold” de 2013. O atractivo aqui era realmente ter a oportunidade de ter pela primeira vez a oportunidade de ouvir alguns dos temas daquele álbum homónimo pela cidade do Porto, e nisso os britânicos foram capazes de cumprir de forma exemplar, atraindo por ventura das maiores massas de público ao recinto do InDouro mesmo perante uma das horas de chuva mais intensa. Bem mais tarde (pelo meio um bocejo em forma de concerto chamado Lola Colt, por exemplo), tivemos os senhores que há uma dúzia de anos mostraram “The Decline of British Sea Power” ao mundo, os British Sea Power trouxeram o seu indie rock ao Mosteiro da Serra do Pilar e de repente estávamos a sul de Londres, à saída de um pub com os joelhos a fraquejar e à chuva depois dum mísero empate a zeros no derby da M23 entre o Brighton e o Crystal Palace.

A música dos BSP faz-nos encarnar precisamente uma qualquer celebração após a nossa equipa ter acabado de descer de divisão, já bebemos demasiadas pints de cerveja manhosa, levamos as calças meias mijadas mas conseguimos estar felizes com isso, apesar de tudo. A abrir tivemos “Machineries of Joy” e “Remember Me”, pelo meio “Waving Flags” no que foi o momento mais alto e embriagado de todo o fim-de-semana. Praticamente a fechar o concerto, e com chave de ouro, houve direito a cover de “Silver Machine”, um autêntico hino dos lendários Hawkwind, enquanto observamos o vocalista Jan Scott Wilkinson fazer malabarismos com a guitarra e com a Super Bock em palco – perguntem-lhe já agora sobre a «super bock super star gets you more pissed than stella artois» e os penalties naqueles quartos-de-final do Euro 2004.

Vimos um festival às moscas durante um fim-de-semana inteiro, vimos os Yuck tocar em Portugal para o que não devia chegar a duas centenas de pessoas, e vimos acima de tudo esta primeira edição do InDouro ser salva e segura por fios pelo profissionalismo das bandas em cartaz e pelo pessoal do som/luz que fez um trabalho surpreendentemente positivo ao longo de todos os concertos que foram acontecendo contra a chuva e ventania sem fim. Se lá voltaremos numa eventual edição em 2016? Sem dúvida, a partir do momento em que usem os fracassos desta edição inicial como uma lição elementar à organização de eventos do género, e para isso estamos cá para desejar-lhes toda a sorte do mundo. No entanto primeiro é necessário que existam sequer condições para que essa outra chegue a acontecer.

Texto: Rui Andrade

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