No dia em que se se celebra um dos mais pacíficos golpes de estado de iniciativa militar o RCA tornou-se mais uma vez o centro das atenções de quem percebe que há coisas muito mais importantes a acontecer do que poluir a cidade com cravos.

A entrada de Vaee Solis foi suficiente com qualquer tipo de espírito celebratório. Aliás, “Feral Isolation” com Pedro Roque na voz é bem capaz de ter sido responsável por uma acentuada fuga de oxigénio da excelente sala lisboeta. Como já tinha acontecido em anteriores aparições ao vivo, a intensidade aumenta em palco face ao já de si abrasivo “Adversarial Light” lançado em Março. Há no som do colectivo português uma junção de escolas que têm em comum a tendência para serem dissonantes e perturbadoras o que neste caso resulta num sufoco lento e pesaroso sem qualquer momento de alívio.

Depois do momento mais negro da noite o palco pintou-se às cores para Lâmina. Há duas formas essenciais de interpretar o colectivo liderado pelo vocalista/guitarrista Vasco Duarte: 1) um tributo a uma série de bandas que nos anos 70 percorreram o caminho daquilo que viria a constituir o grosso do cânone Stoner/Doom e, como tal, assumindo frontalmente a falta de pingo de originalidade; 2) algo que resultou de um “focus group” sobre qual das variantes do Rock vai encher os Primaveras, Paredes, Alives e afins durante o próximo par de anos. É realmente uma fotografia tão polida que a cover de “Black Sabbath” se parece ter alongado durante muito mais tempo do que na realidade foi.

 

Seguindo…

A estreia de Acid King em Portugal acontece com alguns anos de atraso. Se é impensável tê-los visto ainda nos anos 90, já uma passagem há dez anos teria sido certamente um momento para recordar. Ainda assim, é inegável que vem em bom momento já “Middle of Nowhere, Center of Everywhere“, não sendo uma obra-prima, é um álbum que consegue atingir momentos de grandeza que fizeram do trio californiano uma das grandes referências mundiais no que ao Stoner/Doom diz respeito.

Naturalmente que o último trabalho foi o centro da actuação. Assim não foi de estranhar que “Red River”, uma das faixas mais fortes, tenha iniciado a viagem. De resto o álbum foi tocado quase na integra o que sendo uma experiência curiosa deixou um pequeno amargo de boca. “Zoroaster“, o trabalho de estreia, foi ignorado e mesmo o melhor trabalho da banda – “Busse Woods“, claro – só foi revisitado uma vez.

Disto se ressentiu um pouco a actuação. Se a viagem foi envolvente o quanto baste, a verdade é que a intensidade foi oscilando demasiadas vezes. Ainda assim quando o excelente riff inicial de “Electric Machine” ecoou percebeu-se o porquê de se estar na presença de uma grande banda. Pena que só no encore se tenha sentido o mesmo com “Sunshine and Sorrow” que foi a forma perfeita de terminar a primeira incursão de Acid King em palcos portugueses.

Fotografia: Telma Correia
Texto: Filipe Adão

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