A Sociedade Filarmónica Estrela Moitense voltou a ser o palco do Moita Metal Fest que, já na sua 12ª edição, trouxe-nos novamente um cartaz de luxo com os mais distintos nomes da cena pesada nacional e ainda uma das mais importantes bandas do Thrash britânico. Dito isto, as cartas estavam lançadas, cabia ao público manter o jogo.

1º dia – 27 de Março

Sexta-feira, 21h, e a casa começava a encher-se. A abrir as hostes estiveram os Jackie D, um novo projecto que reúne elementos dos Grankapo, Custom Circus e Barafunda Total. O nome, como refere a banda, simboliza uma personagem que pode ser qualquer um de nós, e é através dela que pretendem expressar os seus pensamentos e vivências sob a forma de um rock rasgado e pujante. ‘Rat Race’, single do seu álbum de estreia “Symphonies from the City” foi um dos muitos temas que marcaram a actuação. Um imprevisto de última hora com Terror Empire trouxe-nos Switchtense ao palco uma hora mais cedo. Foi com dois novos temas, ‘It’s All or Nothing’ e ‘Super Fucking Mainstream’, que os anfitriões da festa nos saudaram. A sucessão de moshes começava assim, e com ela os primeiros circle pits, com ‘Face Off’ a ser o protagonista de um dos maiores da noite. Não faltaram também as grandes malhas como ‘Into the Words of Chaos’, ‘Infected Blood’ e ‘Unbreakable’, que levaram os mais entusiastas a um pico de êxtase.

Foi de sangue quente que recebemos então, depois de uma viagem atribulada desde Coimbra, os Terror Empire. Já em 2013 a banda tinha estado presente no MMF e desta feita mostraram-se mais maduros e com maior presença em palco, apresentando-nos o ainda recente “The Empire Strikes Black“. Malhas como ‘The Servant’, ‘Skinned Alive’ e ‘Good Friends Make The Best Enemies’ compensaram sem dúvida o tempo de espera. É com a casa cheia que os Ibéria são recebidos. A sua história já remonta aos anos 80, quando o Hard Rock vivia os seus anos de ouro e arrastava multidões consigo. Foi essa a tradição que os Ibéria sempre carregaram, deixando assim a sua marca no espólio nacional. Mostraram que o rock n’ roll ainda lhes corre a ferver nas veias, e de forma espontânea e divertida foram debitando tema atrás de tema, com a sua legião de fãs a cantar em uníssono os hinos que de ‘Hollywood’ a ‘Angel’ foram conquistando também a faixa etária mais jovem.

A colmatar este primeiro dia estiveram os setubalenses More Than a Thousand. ‘Feed the Caskets’ deu o mote de entrada e logo uma mancha negra se debruçou em direcção ao palco. A set não teve novidades para quem assistiu aos últimos concertos de MTAT – de “Make Friends and Enemies” e “Lost at Home” iam-se intercalando os singles mais conhecidos como ‘First Bite’, ‘Roadsick’, ‘Heist’, e ‘Fight Your Demons’. Momentos como a participação de Fábio Batista dos Hills Have Eyes na aclamada ‘We Wrote This Song About You’ e o solo de Vasco Ramos na guitarra com ‘Midnight Calls’ e ‘In Loving Memory’, tornaram-se um cartão-de-visita e fazem sem dúvida o delírio dos fãs. Entre os inúmeros circle pits e o constante stagediving, foi ao som de ‘No Bad Blood’ que se queimaram os últimos cartuchos da noite.

 

2º dia – 28 de Março

No segundo dia tivemos o sol a sorrir-nos, nesta tarde que cheirava a Primavera. O dia solarengo atraiu muita gente desde cedo e, contrariando as expectativas, passámos as portas pouco depois das 15h para descobrir uma sala já bastante composta, com um público nada inibido e que se chegava à frente para ver os jovens lisboetas Borderlands. Apresentaram-nos o seu EP “Awaken Dreamers” e falaram-nos também sobre o seu primeiro álbum que está para sair nos próximos meses. Apesar de jovens, mostraram ter grandes ambições e um bom material debaixo da manga. Uma feliz surpresa para este início de tarde, que se iria tornar numa verdadeira maratona de resistência, com concertos até às 2h da manhã. Os Analepsy entraram de seguida com o seu Brutal Death Metal a causar os primeiros rasgos de efusividade pela sala. Apesar do pouco tempo na estrada, já marcam presença em palcos um pouco por todo o país e estilhaçam tudo por onde passam. É já em Maio que vamos poder ouvir “Dehumanization by Supremacy“, o primeiro EP da banda alfacinha.

Foi com ‘Soul Retrieval’ que os Destroyers Of All se apresentaram ao público. Logo de seguida ‘Into The Fire’, que dá nome ao seu EP de estreia, despertou o fogo interior das almas e foi sempre num crescendo de tensão que o público os foi recebendo. Adiantaram-nos ainda que o próximo álbum já está a ser gravado e ‘Death Healer’ vai ser um dos muitos temas. Numa síntese perfeita entre o Thrash ao Death e a um ritmo alucinante, foi numa feroz wall of death que terminou a sua actuação. A completar este line-up inicial de destaque aos novos projectos nacionais tivemos Colosso, uma banda de Progressive Death Metal que começou como um trabalho a solo de Max Tomé mas que pouco depois do lançamento do primeiro álbum “Abrasive Peace” se metamorfoseou para o formato de banda. Desde então têm vindo a levantar pó por onde passam, não deixando o chão da SFEM indiferente à cáustica sucessão de circle pits que, impulsionados por ‘Circles Of Defeat’, só iriam terminar com ‘The Epiphany’.

Os lisboetas Albert Fish entraram de rompante com o seu Punk Rock arrojado que contagiou pelos seus riffs frenéticos e vulcânicos. O ‘Autista’ despoletou o habitual alvoroço pelo público impávido que não parecia ainda mostrar sinais de cansaço. Com a banda a celebrar 20 anos de estrada, o público tratou de lhes cantar os parabéns, mas, não havendo bolo, deu-se continuação à festa com ‘Turning Point’. Directamente da Madeira e para oscilar a malta do continente vieram os Karnak Seti. E como o bom Melodic Death Metal não se faz só a norte da Europa, logo no seu álbum de estreia “Scars Of Your Decay” estes madeirenses confirmaram a sua qualidade. ‘Among The Sleepless’, retirado do segundo álbum “In Harmonic Entropy“, veio afirmar a fulminante garra destes rapazes.

Final da tarde pela vila da Moita, o sol já se punha e muitos aproveitavam a pequena pausa para jantar. Estávamos agora exactamente a meio dos concertos do segundo dia do festival e foi de terras algarvias que nos chegaram os Crossed Fire. “Life’s A Gamble“, o seu primeiro álbum de estúdio, vinha ainda fresquinho na bagagem e o Groove Metal já presente no EP “It’s All About Chaos“ fundiu-se com um Stoner bem feroz para resultar numa ‘Got The Medicine’ que deixou muitos pingos de suor a escorrer pelos rostos. A banda seguinte já dispensa grandes apresentações. We Are Killing Ourselves, mais conhecidos por WAKO, entraram em palco com a arrebatadora ‘Abyss’, seguida por ‘Eternal Spiral’, ambas do tão aclamado “Deconstructive Essence”. ‘Ship Of Fools’ ecoou de seguida e causou um valente tornado pela sala, arrastando dezenas para o mosh pit. Sem muita margem para duvidas, o seu excelente trabalho tem vindo a dar frutos e resultou possivelmente num dos melhores concertos da noite, quiçá desta edição do MMF.

Os Miss Lava chegaram de seguida para aligeirar o ambiente com o seu Stoner/Hard Rock. Depois dos bem-sucedidos “Blues for the Dangerous Miles” e “Red Supergiant”, a chama continua bem viva e pudemos ouvir malhas novas que farão parte do próximo álbum. À parte das surpresas tivemos as já bem conhecidas ‘Don’t Tell a Soul’ e ‘Ride’, nessa frenética sucessão de batidas que nos traziam o seu já habitual groove tão característico. E neste compasso rítmico onde não havia espaço para abrandamentos, foram os Grog os protagonistas dos fervorosos circle pits que fizeram estremecer toda a sala. Já bem conhecidos pela sua força torrencial, descarregaram o seu mais puro Grindcore que pode não agradar a todos, mas com certeza não deixa ninguém indiferente face à pujança em palco destes lisboetas. Quase a cruzar a recta final, os tão esperados Onslaught sobem a palco para nos brindarem com uma das actuações mais esperadas do festival. Escusado será dizer que o público se manteve imparável durante todo o concerto, onde não faltaram as melhores malhas como ‘66’Fucking’6’, ‘Killing Piece’, entre tantas outras. Num fluxo desabrido de mosh, o povo continuou a abanar o pescoço até ao abrupto término, que nos deixou a ansiar por um pouco mais.

O frio lá fora contrastava com o calor que se respirava dentro das paredes da SFEM. Numa das edições que mais público arrastou de norte a sul do país, encontrámo-nos a assistir aos soberanos da noite numa espécie de estufa interior. A Bizarra Locomotiva oleava assim os carris para mais um concerto impetuoso, depois de no dia anterior ter aberto para Moonspell no lançamento do novo álbum no Coliseu dos Recreios. Repetentes do MMF, já estão familiarizados com o que a casa gasta e, sem cerimónias, um intrépido Rui Sidónio agarrava o microfone com toda a sua garra para nos presentear com mais uma das suas únicas performances. Um verdadeiro monstro de palco, nada o detém e nem o palco o segura, lançando-se num voo curto em direcção às centenas de braços que lhe amparavam a queda. “Mortuário” é o título do novo álbum lançado no passado mês de Fevereiro e que marcou a história da música por ser a primeira ópera industrial a nível mundial, o que se espelhou num espectáculo brutal e memorável, mais uma vez ao nível do que já nos habituámos a experienciar nas edições anteriores.

 

Findado mais um fim-de-semana memorável na Moita, os agradecimentos ficam como sempre aos grandes Switchtense e a todos os restantes responsáveis que, directa ou indirectamente, fazem acontecer este festival há 11 anos consecutivos. Para além dos concertos, este é já um ponto de convívio obrigatório onde se reencontram velhos amigos e se fazem novos, num ambiente único e inesquecível. De destacar também, pelo 4º ano consecutivo, a excelente iniciativa de solidariedade para a recolha de roupa e bens alimentares a reverter a favor de Instituições do concelho e, «last but not least», a grande novidade deste ano que esteve no campismo gratuito no Pavilhão Municipal Desportivo, situado a poucos metros do festival, que ofereceu excelentes condições àqueles que por lá quiseram pernoitar.

Resta dizer «MOITA C*RALHO!».

Fotografia: Diogo Oliveira
Texto: Rute Pascoal

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