A idade real de Mark Lanegan será sempre difícil de entranhar, não porque agora o norte-americano nos pareça velho, mas sim porque nunca nos pareceu verdadeiramente novo no passado. Há algo na cara de Lanegan que nos convence de que passou por mais e pior do que toda uma plateia junta, mais e piores drogas possivelmente, mas são essas mesmas rugas as marcas da estrada que o homem que subiu ao palco do Hard Club nesta passada sexta-feira anda a trilhar há três décadas.

Foi na recta final da tour de promoção de Phantom Radio, disco lançado em Outubro de 2014 sob o formato Mark Lanegan Band (e como tinha já acontecido com o magnífico Blues Funeral há coisa de dois anos), que um dos barítonos mais facilmente reconhecíveis do universo da música rock marcou presença dupla por salas portuguesas. Foi então sem grande surpresa que vimos o alinhamento da noite orbitar em volta dos dois discos acima citados, tendo sido mesmo “The Gravedigger’s Song” o primeiro momento de intensidade marcada do concerto.

A virtude ainda assim esteve mesmo a meio, quando Lanegan e cia nos fizeram esquecer que “Hit the City” era cantada a meias com PJ Harvey e acaba até por passar perfeitamente bem sem ela, diga-se. Melhor só mesmo o que tinha vindo imediatamente antes; a interpretação arrepiante de “Deepest Shade” dos The Twillight Singers que encontramos em Imitations, como se cantada do topo duma cadeira de bar enquanto fazia rodar uma única pedra de gelo numa piscina de Bourbon.

Vai haver sempre aquele tipo que encontramos sentado a um canto do balcão quando vamos pedir um fino. Uma presença vincada na penumbra da iluminação manhosa e que nos puxa o olhar, mas cuja ansiedade social ou pouca vontade para a conversa não lhe deixa tirar os olhos do copo que tem à frente. Em Lanegan parece-nos ver uma boa parte disso. Afinal falamos dum homem que já esteve perante plateias de dezenas de milhar nos seus tempos de QOTSA e que ainda assim conserva uma timidez e desconforto aparentes pelo palco.

Tivemos direito a encore, e por entre agradecimentos roucos Mark Lanegan e banda puseram um ponto final à actuação com “Methamphetamine Blues”, e que melhor verso na sua discografia inteira podia servir de despedida do que “I don’t want to leave this heaven so soon”?

Fotografia: Carolina Neves
Texto: Rui P. Andrade

[A primeira parte esteve a cargo de Faye Dunaways e Duke Garwood]

Leave a Reply

Your email address will not be published.