O festival Under The Doom 2015, adequadamente promovido enquanto “edição especial” apresentava-se como um dos momentos altos no ano no que diz respeito a algumas das tendências mais emocionalmente perturbantes do género. Ainda que os eventos dos vários espectros (e não são assim tão poucos) de Doom se tenham vindo a multiplicar nos últimos anos, a verdade é que um festival centrado à volta de Funeral Doom, Doom/Death, Black/Doom e afins acaba por ser algo relativamente singular. Aliás, este ressuscitar do festival por parte da Notredame Productions segue a linha de anteriores eventos com a mesma denominação e também do saudoso LX Extreme Festival cujas últimas encarnações haviam sido em Benavente no sempre movimentado Side B.

Dia 1 – 27 de Fevereiro

O primeiro dia contava com um cartaz de peso ainda que com claras variações estilísticas e, confirmado à posteriori, qualitativas.

Assim, a longa noite de concertos iniciou-se com aquela que é destacadamente a proposta de Funeral Doom mais interessante que Portugal tem para oferecer: Bosque. Parecendo que não, já passaram nada mais nada menos que 10 anos desde que Dead Nature foi lançado. A evolução essa tem sido constante: se Passage já revelava uma proposta que transbordava fronteiras, Nowhere de 2013 constitui-se como uma obra de referência absolutamente global sobretudo pela abordagem vocal bastante própria. Foi precisamente isso que foi mostrado ao longo dos cerca de 30 minutos de apresentação. O tempo foi claramente escasso nomeadamente porque a música de Bosque vive da repetição dos riffs que vão saindo de uma parede de som que sendo austera e opressiva nunca deixa de atingir uma carga emocional elevadíssima sempre de forma lenta e progressiva. Foi, ainda assim, um momento de especial envolvência e que se viria a constituir como o maior ponto de interesse da primeira noite. De lamentar apenas a fugacidade.

O momento seguinte mostrou na perfeição os contrastes que o festival foi apresentando:  do mais funéreo ao mais melódico quase sempre com o Doom em pano de fundo. O último caso teve nos espanhóis Autumnal o exemplo cabal. Com uma carreira longa (fundados em 1998) mas com apenas dois álbuns, os madrilenos tocaram três quartos de hora (um pouco mais) centrados no lançamento de 2015, The End Of The Third Day. Não obstante o empenho e a competência, a actuação foi marcada pelos inúmeros clichés e repetições de alguns dos principais «posters» que singraram dentro desta corrente de Death/Doom nos anos 90.

Na mesma linha de continuidade em matéria de estilo e localização temporal mas com uma atitude bem menos indolente surgiram em palco os alemães Ophis.  Se os padrões de Death/Doom arrastado com riffs melódicos e vocais cavernosos se mantiveram, o resultado foi bem diferente. O mentor de todo o projecto, Philipp Kruppa, inseriu uma áurea de verdadeira desolação sem nunca entrar no terreno tão fácil mas tão depauperante da lamentação auto-comiserativa. Assim, as faixas foram exactamente como Abhorrence In Opulence se apresentou no ano passado: pura melancolia com imensas paisagens sonoras contemplativas mas com uma clara tendência para se ir misturando com uma perversidade cortante.

Foi então tempo dos headliners. Se esse estatuto era repartido com Saturnus, a verdade é que a casa cada vez mais bem composta estava lá em boa parte pelos alemães Lantlôs. Se é uma realidade que já desapareceu boa parte do hype que foi construindo o nicho que os viu crescer no final da década passada também há que dizer em abono da verdade que os três primeiros trabalhos da banda foram de central importância para elevar a qualidade daquilo a que se convencionou chamar (de uma forma um tanto ou quanto forçada) Blackgaze. Desde 2013 que a banda não conta com a colaboração de Neige (outra figura que dispensa apresentações neste «mundo») e foi por isso ainda mais surpreendente a direcção demarcadamente menos Black Metal de Melting Sun. Uma banda que nunca se rendeu à ortodoxia mais extrema do seu som e que acaba por fazê-lo na que se encontrava nos campos mais atmosféricos.

Ainda assim, e também por ser a banda que mais destoava no cartaz, a curiosidade era grande. Após o início com Intrauterin e Bloody Lips & Paper Skin do trabalho de 2011, Agape, que ainda demonstraram a vertente mais extrema dos alemães, o resto do concerto foi ocupado com temas do álbum mais recente. Por entre enganos geográficos e algum nervosismo a última meia hora acabou por ter um sabor a desilusão. O que parecia estar a ficar para o fim seria mais uma visita a Agape com “Bliss” e sobretudo ao enorme .neon com “Coma”. Infelizmente parece não ter havido tempo e como tal o concerto acabou sem mais depois do último movimento de Melting Sun, na toada Shoegaze/Post-Rock que domina o trabalho. Se no caso de Bosque a questão da duração era compreensível, aqui, na banda que discutivelmente mais pessoas atraiu ao RCA, este encurtamento é mais complicado de entender. Ainda para mais quando os últimos 15/20 minutos prometiam ser os mais interessantes.

Para o fim ficou marcado o reencontro com os dinamarqueses Saturnus depois da presença em Barroselas no ano de 2008. Donos de uma história com mais de 20 anos, a banda de Copenhaga foi trilhando uma carreira que nunca tendo atingido os picos de popularidade de outros nomes do género, sempre foi considerada uma referência de qualidade e longevidade.

O que se assistiu na longa actuação foi uma autêntica lição do género onde quase todos os trabalhos principais foram visitados embora tenha havido especial predominância de Saturn In Ascension já datado de 2012 mas que ainda se continua a constituir como o último trabalho da banda. Os clássicos “I Love Thee” e “Christ Goodbye” não faltaram e a inclusão de temas de semelhante calibre sublinharam quanto baste a diferença que ainda hoje há entre mestres e seguidores. Foi preciso resistência para aguentar toda uma actuação com poucas variações de andamento mas dificilmente a noite poderia ter terminado de forma mais adequada a toda a experiência do evento.

Dia 2 – 28 de Fevereiro

Se o primeiro dia foi marcado por algumas flutuações no nível dos concertos, já o segundo e último do festival teve a sorte de manter tudo mais ou menos alinhado pela mesma bitola qualitativa pese embora o cartaz até fosse mais variado estilisticamente.

Como tinha acontecido no dia anterior, foi o Funeral Doom «made in» Portugal que abriu as hostilidades e a segunda aposta revelou-se igualmente acertada. Agonia, projecto que conta com os membros que também constituem a entidade O Cerco, foi invadido a sala com a atmosfera abrasiva que o trio ia criando. Com alguns laivos de Black Metal a fazerem-se notar aqui e ali no trabalho vocal, o concerto foi sobretudo dominado por um sentimento iminente de cataclismo mas que ia chegando lento e sem concessões ou acelerações para o alívio final. Claramente que ficaram notas para o futuro…

Seguia-se aquela que era a segunda banda portuguesa do dia e simultaneamente a última do festival: Dolentia. Como Bosque, parece que foi ontem que se iniciou o percurso daquela que é a esta altura uma das principais bandas de Black Metal em actividade no país. No entanto, também já é uma história com mais de 10 anos. Com o novo álbum – Iniciação Eversiva – a rebentar foi tempo também para visitar Sob A Égide Das Sombras, o LP de estreia lançado em 2012. A banda está mais coesa que nunca: os riffs têm um misticismo muito próprio, a bateria é tal qual tambor de guerra que anuncia o sangue e há uma voz que tem tanto de distante como de presente. Os minutos passaram rápido envolvidos pelo apelo do e ao passado, criando ao mesmo tempo a memória de um ritual memorável.

Vindos da Bélgica e depois do concerto cancelado no ano passado, Marche Funèbre retomaram a parada de Death/Doom que foi a constante mais evidente do festival. Se é verdade que nada trazem de realmente novo, a entrega, dedicação e a dinâmica vocal foram mantendo a actuação interessante. Os riffs também têm um papel fundamental neste aspecto visto que o último álbum, já datado de 2013, mostrou uma evolução notável. A dever o nome a uma das obras mais reconhecíveis de Chopin, o quinteto de Antuérpia debitou uma abordagem que não envergonhou o período oitocentista romântico no qual boa parte das letras são inspiradas.

Já a entrar na rota final, os veteranos Mourning Beloveth foram os senhores que se seguiram. Com uma carreira já bastante preenchida e com contínuas demonstrações de “vitalidade”. Mais uma vez e tal como aconteceu com Saturnus, nota-se a diferença entre aquilo que é uma banda genérica e uma banda que tenta estabelecer novas fronteiras para o género em que se movimenta. Além da forma única como as guitarras se vão revezando entre o monolitismo e a melodia, também a voz limpa foi dando um dinamismo diferente aos temas. Ao contrário do que muitas vezes acontece o contraste entre gutural e voz limpa não soou forçado ou só estar lá por imposição contrastante mas antes um tributo a vertentes bem mais épicas do género e que a banda é clara e naturalmente devedora. As faixas de Fearless – “Ethics On The Precipice” e “Nothing Has A Centre” – pareceram fluir particularmente bem ao vivo e para que tudo tivesse sido perfeito bastaria ter sido possível ouvir “The Sickness” que acabou cortada novamente por limitações de tempo. Ainda assim foi um dos momentos altos da segunda noite.

A fechar o cardápio, os italianos Forgotten Tomb. “Apanhados” na leva de Depressive Black Metal cujo hype apanhou tantas bandas que iam surgindo um pouco por todos os quartos pintados de negro do mundo, bem bandas cuja proposta era bem mais venenosa e consciente. Obviamente que FT se enquadra nesta última categoria, não só porque temporalmente estão algo deslocados desse ressurgimento (a banda começou em 1999) mas também porque o som sempre foi tendo muitas influências que não colavam exactamente no cliché DSBM. No entanto, não há dúvida que no mínimo os três primeiros trabalhos (com especial destaque para Springtime Depression, claro) e de certa forma o quarto são autênticos faróis de um género nem sempre capaz de fugir ao piroso. No entanto, os anos foram passando e se muito de bom se pode dizer dos primeiros anos há que reconhecer que os dois últimos trabalhos (não contando aquele que sairá este ano, obviamente) são manifestamente desinspirados.

Assim, foi com um misto de expectativa e algum receio que o retorno de FT se antevia. O primeiro tema, “Reject Existence”, manteve a dúvida visto que apesar de ser um dos melhores temas da banda de 2007 para a frente também já é de uma fase menos conseguida. No entanto, quando “Todestrieb” começou a soar tudo isto desapareceu e a par de “Daylight Obsession” foram claramente os pontos altos do concerto. As duas faixas são, não por acaso, de Springtime Depression. Os medleys de trabalhos anteriores também acabaram por mostrar porque é que os italianos ainda são uma banda de referência no que toca a misturar Black com Doom. Acabou por ser um concerto melhor do que a última passagem pelo Side B e a forma correcta de fechar um festival que, com esta qualidade no cartaz, se deseja anual.

Texto: Filipe Adão

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