Onde há artista de saber profundo,
Que possa imaginar coisa mais bela,
Mais delicada e linda neste mundo?!

– Florbela Espanca (1894-1930)

Há cerca de um século atrás, assim nos descrevia Florbela Espanca a região do Alentejo. Os artistas podem ser agora outros mas o destino é o mesmo, com o mesmo fascínio. Um pouco por toda a região, tanto no Alto como no Baixo Alentejo, existem inúmeros eventos e festivais onde o Metal é celebrado como provavelmente nunca havia sido.

Desde há meia-dúzia de anos para cá vimos surgir eventos como o Santa Maria Summer Fest e o Évora Metal Fest como dois possíveis porta-estandarte deste fenómeno que faz das planícies do Alentejo um caminho a percorrer por vários fãs de Metal de todo o país ao mesmo tempo que coloca em estado de consciência os cidadãos destes destinos, mas com uma referência superior – o ainda não dado como extinto Metal GDL, que fez tremer Grândola durante vários anos.

Com uma pequena pesquisa no Google utilizando a expressão «Metal Alentejo», encontram-se vários concertos recentes realizados em Portalegre, Beja, Évora, Montemor-o-Novo, Elvas ou Santo André. Falamos também de festivais como o Portalegre Core, o Pax Julia Metal Fest, o MonteCore FestHellvas Metalfest ou Restless Fest. E tudo isto na mesma região onde existe aquele gigante a Sudoeste, onde ao longo da sua história desfilaram nomes como Sepultura, Marilyn Manson, Korn, Guano Apes ou Bizarra Locomotiva, entre muitos outros, antes de tomar a direcção que hoje conhecemos.

Fundamentámo-nos então com as palavras de João Grosso (Évora Metal Fest), Vítor Paixão e Vítor Domingos (Santa Maria Summer Fest) e Hugo Correia (Portalegre Core) para cimentar as bases da estruturação deste acontecimento de quase êxodo urbano das atenções do metal underground para as três capitais de distrito do Alentejo.

evora

«O surgimento da Suricata Eventos dá-se precisamente no momento em que eu estava a ouvir o Hellstone de Men Eater, para aí no Verão de 2010, e penso que está de certa forma ligado a este aparecimento de festivais por toda a região. Apenas pensei o quão brutal seria levar estes gajos à minha cidade.», remata João Grosso sobre o aparecimento da promotora que hoje dirige o Évora Metal Fest.

A necessidade de colocar banda X ou Y na sua cidade no momento em que estas correm o país na urgência de apresentar o seu novo trabalho é hoje em dia mais comum devido a reflexões como esta. O underground do metal nacional tem agora uma nova paragem numa cidade onde «existem bandas e público afecto ao metal». O mesmo não acontecia com os seus espectáculos, havendo então um interregno de vários anos de eventos do género, à excepção de concertos esporádicos de bandas da casa e de amigos em espaços como o Monte Alentejano, Alçude e Celeiros. João contou-nos também que se existia dinamismo era graças a Old Skull (Miguel Maia) como um concerto de Mata-Ratos na noite de Halloween na Mocidade, que «esteve mesmo ao barrote».

Voltando à Suricata Eventos, surgida nos finais de 2011 então pela ideia de João Grosso, que falou com um amigo para organizar concertos de pequena dimensão de mês a mês, ou quando desse, para dar mais actividade a Évora. Daí surgiu a ideia do Metal Fest, que teve a sua primeira edição em Abril de 2012, um evento apenas comparável na região ao Metal GDL de maiores dimensões e ainda o Santa Maria Summer Fest nos seus primeiros passos. Arriscou-se então com a aposta do EMF com menos de 1/10 de orçamento a partir de apoios e com a ajuda da Câmara Municipal na cedência do palco, do espaço e nas devidas licenças.

«Por coincidência foi precisamente nesse ano enquanto íamos anunciando os nossos nomes que o SMSF também apresentou um cartaz fortíssimo. Isso talvez tenha mostrado a todas as pessoas que a malta do Alentejo não quer só sopas e descanso», conta João. Deste princípio para o que seguiu, o GDL, o EMF e o SMSF foram então três referências para acreditar que não é impossível colocar a «tal» banda a tocar na sua terra num gig organizado pelos próprios, pois existe público local e até interessados de muito longe para passar um ou dois dias a ouvir «boa música em boa companhia».

«Daí hoje em dia temos a acrescentar o Hellvas Metal Fest, o MonteCore Fest e o Restless Fest ao leque de festivais alentejanos de música pesada, (…) que têm que dar os passos para crescer, tal como o EMF tem os seus para dar (…) e sabemos que disto não ganharemos vida, apenas prazer, orgulho e uma imensa satisfação própria que cresce a partir do nosso trabalho e sacrifício».

São passos como se apoiar uns aos outros (nem que seja numa publicitação via Facebook), aconselhar/criticar construtivamente os mesmos ou indo aos festivais que torna o crescimento possível. Conseguir aos poucos e de ano para ano melhorar as condições e aumentar o orçamento pode estar relacionado, essencialmente, à boa hospitalidade e à confiança depositada nos promotores que fazem para que as «pessoas gostem de estar naquele dia no nosso espaço e no nosso festival».

Antes de tudo isto, João diz, em nome dos intervenientes da cidade, que «deve haver uma reeducação da malta em ir aos concertos, curtir a noite». Quantos mais, melhor. Maior será a curiosidade em dar uns acordes ou formar uma nova banda na cidade.

portalegre-rs

O caso de Portalegre, um pouco mais a norte, é diferente. Hugo Correia, responsável pela entidade PortalegreCore, lembra que o Metal é um tipo de música que passa de gerações em gerações, sendo que inicialmente foi interiorizado na região através do passa-a-palavra de amigos ou com um CD ou um LP esquecido na prateleira de pais ou de familiares, desvalorizando então a hipótese do Metal ter chegado finalmente em força ao Alentejo pelo poder de comunicação das novas tecnologias, como a Internet.

Já para ver concertos era e é diferente. Para ver concertos ainda é necessário deslocar-se a «Portugal», como quem diz Lisboa, local único onde muitas bandas de fora acabam por actuar. «É uma pena que no interior não se façam mais coisas deste mesmo estilo, um simples concerto, um festival com bandas mais conceituadas e que tragam também para o interior toda esta densidade populacional que se relaciona com este estilo de música», lamenta Hugo.

Infelizmente ainda hoje a divulgação não existe em Portalegre. Não há cartazes de concertos do género em Portalegre. A solução? A Internet ou, mais uma vez, o simples mas funcional passa-a-palavra de quem detém a informação. No entanto existem bandas locais de Metal, como é o caso de Anderskor, Jezebel ou Overcome The Sky, mas o reconhecimento musical parece ser pouco ou nenhum.

Com isto, conta-nos Hugo, surge uma necessidade da população estar em festivais de música pesada como os que têm surgido na região. Maomé cansa-se de ir à montanha, porque não a montanha a ir ao encontro de Maomé? Um dito que acaba por ter fundamento nestes casos. «Não desfazendo nenhum outro estilo nem músico, (…) creio que a população está um pouco cansada das tradições, dos bailaricos e da música pimba», afirmando também que «nem todos gostamos dos DJs a passarem música comercial de uma pen».

Existem claro, benefícios para Portalegre e para as outras localidades. Levar mais gente ao interior do país pode ser uma realidade, agradando não só ao público comum como também ao mais alternativo. É um meio de desenvolvimento da economia local, seja ao pernoitar-se ou simplesmente fazendo consumos e gastos locais. Em Portalegre talvez exista mais cuidado em conseguir atrair entusiastas de outras paragens, dado que a cidade tem uma «população envelhecida e muito ligada às tradições e música popular».

É com alguns maus olhos que Hugo Correia, mesmo com o Festival PortalegreCore para dinamizar o sítio, vê o futuro da música no interior do país. «Mais depressa vemos um baile de verão com duas mil pessoas do que um espectáculo de Metal com 500». É a realidade em que se insere.

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À frente da actividade de Évora e Portalegre, já Beja se fazia agitar com o Santa Maria Summer Fest (festeja em 2015 a sua 6ª edição) e o Pax Julia Metal Fest (a caminho da 5ª). Foi muito por influência e esforço de Vítor Paixão e Vítor Domingos, pai e filho, que o SMSF é o que é hoje e continua a carregar a bandeira dos eventos de Metal pelas planícies do Alentejo fora. Começando por ser um festival gratuito (!!!), mantém-se com preços sem igual no nosso país para o cartaz que apresenta, sempre com novos trunfos a cada ano.

Nem sempre assim foi, é claro. Vítor Paixão recorda os anos 80 e como o Metal se difundiu entre amigos nessa altura, contando hoje em dia com uma ajuda preciosa do poder da Internet para lhe fazer chegar a palavra. Várias vezes acabou também por fazer aquelas viagens já faladas a Lisboa e em particular ao demolido pavilhão do Dramático de Cascais para ver nomes como Iron Maiden, WASP, Motörhead, Helloween ou Sepultura ou até Metallica, já em 1993 e no antigo Estádio de Alvalade, naquele foi o seu primeiro concerto em Portugal. Eram tempos em que já era um bem precioso conseguir fazer chegar a música destas bandas às suas mãos, quanto mais poder ver estes dois ou três concertos que haviam por ano junto ao Tejo. «Autênticas romarias», recorda Vítor, pai.

Vítor Domingos, filho, herdou os gostos do pai. No entanto existiu um factor de multiplicação – a banda sonora de alguns jogos, como as das sagas Tony Hawk’s Pro Skater e Matt Hoffman Pro BMX, que por vezes incitavam a fazer um reset à consola só para ouvir aquela música de abertura do jogo várias vezes – assim era com o ás de espadas dos Motörhead. O gosto pelo género foi aumentando sempre de gostos alargados através de concertos em Beja – Skyclad, Plaza, Bunnyranch, Mão Morta, Da Weasel e Decayed – e também por conhecimento de bandas locais, como Ho-Chi-Minh, Deeds Of Sanity, Sordid Sight ou All Emotions Day. E tal como o pai, também tem gosto especial em fazer uma viagem de propósito para ver aquela ou a outra banda. É quase uma «oferenda dos deuses», diz, quando tem a oportunidade de fazer uma destas viagens. «Optamos por festivais, pois podemos ver mais bandas numa só viagem». As romarias continuam e até se tenta levar uma carrinha cheia a partir da cidade quando uma desses festivais escolhidos se aproxima.

A divulgação de eventos e de bandas de música pesada em Beja também é inexistente. Nem na rádio, nem na imprensa impressa. É pelo esforço das organizações dos eventos e de associações como a Associação Juvenil CulturMais que tenta fazer com que a divulgação seja uma realidade nos limites urbanos. A principal dificuldade tem sido em exportar as bandas para outros locais. «Vemos as nossas bandas a tocarem por cá imensas vezes, mas raramente as vemos a tocar fora da cidade. Isso é algo que queremos combater com a nossa associação, e queremos mais tarde vir a utilizar o SMSF como um veículo para isso acontecer, através de intercâmbio de bandas com outros festivais, por exemplo», revela Vítor Domingos.

Enquanto que o filho acredita que se trata de uma época de ouro para os festivais de Metal na região e que se deve tentar manter a chama acesa, o pai tem mais algo a dizer. Diz-nos que o Santa Maria Summer Fest «surgiu como uma necessidade de preencher uma lacuna, um vazio inexistente na agenda cultural da cidade», aproveitando o facto de ser Presidente da Junta de Freguesia em 2010 para possibilitar aos jovens da cidade e aos de fora um festival com o qual se pudessem identificar, não deixando de parte outros géneros para outras porções da população. Teme, no entanto, que possam ser demasiados festivais no Alentejo e que poderá ser necessário reinventar ou reformular as ideias para manter ou até fazer crescer os eventos. E para o seu próprio caso conta que «o que acontecer, acontecerá apenas uma vez», ganhando ou perdendo nas apostas anuais, visto que para a realização do SMSF existe ainda um investimento financeiro pessoal avultado.

O impacto cultural deste festival em Beja parece ainda levantar suspeitas. Vítor Paixão fala em «hipócritas», público local que diz achar caro um festival com 30 ou mais bandas, mas que acaba por gastar muito mais noutro tipo de eventos. Mais uma vez, dedos apontados aos «DJs de pen» ao custo de 50 euros por noite, sofrendo-se naturalmente na qualidade de apoio de muitos dos integrantes da população. «Querem ganhar dinheiro mas não querem apoiar», havendo excepções no meio de população maioritariamente conotada ao Cante Alentejano, à música popular e tradicional e até à música pimba. Mas se isto acontece, é porque o impacto é imenso – o Metal ganhou novos fãs locais com o SMSF e o gosto tem vindo a aumentar; a cidade mexe e o comércio e o turismo locais acabam por ganhar com isso, com público de fora a visitar museus, o castelo, entre outros pontos de referência de Beja.

A opinião de pai e filho diverge um pouco quando questionados sobre o futuro destes festivais no interior do país. O filho mostra-se optimista e diz que «a estrutura está criada, agora falta desenvolvê-la e aproveitá-la da melhor forma». Esforços serão feitos, mas Vítor Paixão crê que «já existe uma grande oferta, inevitavelmente alguns festivais irão desaparecer nos próximos anos», não como um desejo, mas como uma situação inevitável.

O público da cidade pode ser escasso para três festivais de música pesada – o SMSF, o Pax Julia Metal Fest e ainda um novo de grind – pelo que o fado destes e de tantos outros eventos pelo Alentejo fora possam depender mais de peregrinos, de entusiastas ou de quem toma o gosto de atravessar as planícies para encontrar concertos instigados pelo peso do interior – não do país, mas do interior de cada um que faz isto acontecer.

Autor: Nuno Bernardo

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SMSF’13 © Nuno Bernardo

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