Os dias de 7 e 8 de Fevereiro colocaram em Lisboa a primeira edição do Burning Light Fest, um tipo de evento que faz falta à capital. Entre bandas que partilharam o equilíbrio de peso e violência, o RCA Club foi palco de uma atmosfera muito própria e deu bom cenário aos nomes que tiveram a responsabilidade de preencher o primeiro dia do festival.

A luz que despontava pelas telhas da sala podia não ir ao encontro do ambiente caliginoso que se procurava, mas o pontapé de saída de Wells Valley e Redemptus soube escurecer o sítio. Dois trios nacionais a tratar dos seus discos de estreia – os primeiros com Matter As Regent e os segundos com We All Die The Same, trabalhos já editados em 2015 e que contribuíram para uma alvorada interessante, com bons registos e ideias aqui e acolá e que merecem visitar os palcos nos próximos meses.

A primeira pronúncia estrangeira coube a Old Skin, de Manchester, a consagrar em palco aquilo que inferem em Like Crows, editado em Dezembro de 2014, e nas suas expressões anteriores, :consume: MÆRE – disparos rápidos e violentos, encorpados e subversivos, a arrancar então a urgência do Burning Light Fest. Da imposição britânica para o frio germânico, os Implore pautaram a continuidade da ferocidade. O próprio trio assume-se como uma entidade de «HM-2 grindeath», algo que no mundo injusto dos rótulos lhes assenta de forma perfeita. A toada do «serrote» protagonizada por aquele potente pedal é inconfundível na interpretação de Black Knell e em toda a evacuação de riffs demoníacos por Daniel Nothoff. Um bom namoro entre as práticas de Trap Them e Nails que só poderia deixar vontade de ver mais.

A colmatar uma das ausências do dia, a dos vianenses Mother Abyss, estiveram os noruegueses Tombstones. A banda de Oslo, que já se conhecia a sua presença no dia seguinte do festival, preencheu a vaga com um alinhamento especial que visitou temas de Red Skies And Dead Eyes, editado em 2013 pela Soulseller Records, numa altura em que já se faz prever a obra que andam a forjar em estúdio no início deste ano – eis uma jam rastejada de doom sem preceitos que justificou uma dose dupla dos nórdicos neste fim-de-semana. Novamente a marcar as passadas mais rápidas, os Besta distribuíram a violência gratuita de John Carpenter, disco que assinaram no decorrer de 2014. O núcleo forte constituído por Lafayette, Gaza e Rick Chain são agora vocalizados por Paulo Rui, que já apregoava nos seus EAK. Uma constituição agora mais coesa, sadia e vigorosa do que nunca, como se tamanha descarga sonora tivesse deixado dúvidas.

 

A dar o toque mais «metaleiro» estiveram os vizinhos Adrift, a arrastarem as suas malhas desde Madrid. Jaime, Macon, Jorge e Dani conhecem bem as suas influências e sabem que de Neurosis não reza o embuste da estagnação, portanto é nessa linha que se jogam aos instrumentos. Ora com «riffalhões», ora com passagens caladas, a sua progressão mecânica empenha-se em avistar estradas menos rodadas, mas nem sempre tal é possível. Fazer o caminho certo entre as entradas que se dispõe, porém, é algo que conseguem e saem do eixo Norte-Sul lisboeta com boas indicações deixadas em Alvalade, bairro que acolhe o RCA Club.

Em digressão europeia conjunta, haviam de se seguir Hierophant e Mutilation Rites. Aos primeiros foi-lhes dada a chave para abrir as portas que guardavam a recta final deste primeiro dia. Embora Peste (2014) seja um disco um pouco aquém do que conseguiram no disco homónimo, de 2010, e em Great Mother: Holy Monster (2013), os italianos, em formato trio, fizeram o seu esforço máximo para nos fincar à cruz, mas o plano ressentiu-se: apesar da monstruosidade sonora, o concerto acabou por se gastar rápido e as malhas de Peste pareceram sair de palco com uma dívida por suplantar.

Para solver esta situação, os norte-americanos Mutilation Rites apressaram-se a diluir o «deathpunk» (sim, os próprios Hierophant assim se assumem) que restou no Black Metal que rasgam. Empyrean (2012) havia sido um discaço, mas o recente Harbinger (2014) não lhe fica muito atrás – o selo da Prosthetic Records cai-lhes bem, mas não amena a veemência deste trio. “Realms Of Dementia”, logo a segunda malha que jogaram, tanto nos lembra Watain em Sworn To The Dark como os compatriotas Wolves In The Throne Room em Two Hunters, mas numa amálgama eloquente que afugenta os dedos indicadores. Uma malha então que resume aquilo que foi o concerto – um quê de «poderiam-ser-aqueles-em-vez-de-estes», mas a agradar de igual forma.

 

Ainda nem há um ano tinham deixado o Hard Club boquiaberto na congregação da Church Of Ra e já os Oathbreaker nos visitavam de novo. Queixas? Nenhumas. Já Mælstrøm (2011) era fantástico e Eros|Anteros (2013) evidenciou a coisa – Lennart Bossu, igualmente guitarrista de Amenra, tal Kurt Ballou da Bélgica, é uma máquina de riffs. Sendo esta então a oportunidade de apresentar o segundo álbum a Lisboa, os belgas deram-nos o mesmo que haviam dado no Porto: uma viagem resumida aos temas com mais impacto do novo disco intercalados com as imensas “Origin” e “Glimpse Of The Unseen” do primeiro. Uma sucessão intensa de malhas para uma das meia-horas mais marcantes que esta sala há-de receber. No final, em classificação dramática, Caro ajoelha-se e vira-nos as costas, imitando-nos o gesto que patenteámos nos primeiros segundos do concerto.

Solve et Coagula, separação e unificação à letra, foi um disco que marcou aquilo que os The Secret são hoje. Ainda que Agnus Dei, de 2012, lhe tenha dado fiel seguimento mais soturno, foi com logo com a preambular “Cross Builder” que a reverberação fez tremer os madeiros do RCA Club. Um exórdio ascético a erguer a cruz que nós próprios pedimos àquela hora. O que se seguiu foi uma massa negra fundamentada na expurgação interior e carregada de rancor. Uma abominação espiritual edificada a partir do país que circunda a cidade do Vaticano – parece irónico, mas é genial, não é? – a dar uma certidão de culto ao oculto esculpida pelo simbolismo alquímico e controverso que estes carregam. Concertaço.

A surpresa deixada para o final da noite, em jeito de compensação pela ausência dos franceses Plebeian Grandstand, os barcelenses Black Bombaim fizeram-se para mostrar por que são uma das bandas nacionais com mais repercussão lá fora. Far Out, como o disco mais recente do trio denuncia, é uma massa movedora de areias e pisa as maiores dunas em jams com jogos perfeitos de sintonia. Missão cumprida, os Black Bombaim são mesmo bons, independentemente do contexto em que são inseridos.

 

O Burning Light Fest continuou em alta no dia seguinte com as maiores atenções a recaírem sobre nomes como Bölzer, The Black Heart Rebellion, Process Of Guilt, Mantar ou Cowards. «Para o ano há mais» já informou a promotora, a Goodlife HQ. Lisboa merece.

Fotografia e Texto: Nuno Bernardo

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