A vigésima edição do Black Balloon apresentava-se como uma curiosa mescla de tropicalidade, psicadelismo e electrónica e rock a fazer a ponte entre tudo, embora em bom da verdade quase tudo já estivesse bem misturado e pronto a servir.

A primeira banda a subir ao palco, os barreirenses Pista. O facto de serem um trio morfologicamente igual a tantos outros no universo em que se movimentam acaba por ser a única semelhança encontrada comparativamente aos pergaminhos habituais. As duas guitarras removem o conforto das linhas de baixo mas nem assim o som se torna menos quente. De facto, o uso frequente dos tremolos em simultâneo a riffs que bem podiam vir de uma paradisíaca praia da América do Sul redundou em vários momentos bem dançáveis invariavelmente acompanhados por um baterista que ia “roubando” a uma série de escolas um arsenal mais do que suficiente para manter toda a actuação coesa e vibrante.

O que veio a seguir ainda provoca pequenos espasmos nas luzes foscas de azul do Lux. Que Jibóia (Óscar Silva) com o mais recente Badlav tinha saltado para um nível que começa a infantilizar certas comparações feitas aquando dos primeiros lançamentos, já era mais do que sabido. Basta ter como exemplo “Treta Yuga” que tanto provoca o movimento involuntário de qualquer membro como se transmuta numa viagem ácida por desertos de ondas sonoras. A colaboração indispensável de Ana Miró (Sequin) ajudou ao longo caminho que durante aproximadamente uma hora foi passando de camadas ondulantes de distorção para momentos quase angelicais, sempre tendo como ponto comum uma predisposição por incursões transcontinentais que iam balançando o corpo e derrubando a cabeça.

Por fim estava reservado um momento com contornos bem particulares. A promessa feita por Riding Pânico era tocar o essencial Autobahn dos alemães Kraftwerk. Peça absolutamente primordial no que a quase tudo o que é electrónica diz respeito, apresentava-se igualmente como um interessante momento de transcrição entre duas linguagens que não obstante várias aproximações continuam a ser bem diferentes. Assim, foi com agrado que a muito reconhecível entrada de Autobahn não só deu corpo à homenagem como soou natural e bem incorporado no som habitual de Riding Pânico. Não houve exactamente um acto de justaposição mas antes uma adaptação do maquinal som alemão para paisagens cinzentas tão caras ao Post-Rock. Como se sabe as «autobahns» alemãs são famosas pela abordagem liberal à questão dos limites de velocidade e foi precisamente dessa forma que se passaram os primeiros vinte minutos da actuação, numa viagem por um passado que dificilmente alguma vez deixará de ter um pé no presente.

O resto da actuação foi dominado por Homem-Elefante, o último longa-duração datado de 2013 e que fez jus ao trabalho de estúdio: Post-Rock musculado com algumas incursões por terrenos mais inóspitos já pisados por Isis ou Cult Of Luna. Não sendo exactamente uma revolução os Riding Pânico são ainda uma das únicas bandas portuguesas que estão acima da barreira do tolerável num género tão mastigado nas últimas duas décadas. Ainda assim foi com prazer que o fim da actuação foi um quase «reprise» da primeira parte do concerto, qual catarse que lançou o resto da festa que haveria de seguir no andar de cima.

Fotografia: Rute Pascoal
Texto: Filipe Adão

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