O Barreiro Rocks edificou-se na Margem Sul do Tejo para mais uma edição que prometeu abanar as paredes do Pavilhão do Grupo Desportivo dos Ferróviarios. De norte a sul do país vieram nomes bastante distintos do panorama underground e independente nacional, bem como algumas novidades internacionais. A vaga de frio não pareceu prender muitos em casa e o calor humano foi aumentando neste que foi o primeiro dia de festival, o único onde estivemos presentes.

Os barreirenses POW! cortaram com o frio numa entrada efusiva que se podia ouvir nas imediações. Este ano marcou o seu regresso aos palcos e numa total entrega foram descarregando um punhado de temas que marcavam pela sua electricidade. «Alto, curto e directo, sem espinhas», como nos foi indicado antes e confirmado em palco.

Depois de uma breve pausa, o público viu-se multiplicado e pronto para receber os Pista. Numa hipnotizante cadência de riffs fomos completamente sugados numa sucessão frenética de melodias dançantes às quais nos era proibido ficar impassíveis. Os rótulos de «pedalcore», «bike-rock» ou «afro-punk» fazia mais sentido quando o grupo era apenas o duo constituído por Cláudio Fernandes e Bruno Afonso, mas os Pista afastam-se um pouco das correntes das bicicletas como sua imagem com a integração de um segundo guitarrista, Ernesto Silva. A ginga continua, agora com o dobro das guitarras, preenchendo espaços a espaços com o suor da sua magia. Dançar? Sim.

 

Seguiram-se os Asimov, que tiveram uma apresentação peculiar, com direito a performance do já célebre mestre de cerimónias Crooner Vieira, que levantou gargalhadas pelo público com as suas interpretações dos temas “Sex Bomb” e “Delilah”. Quando o duo do Cacém deteve então o palco, invadiram o espaço com o seu rock psicadélico, fazendo quase estremecer as paredes que nos envolviam. É uma massa pesada, carregada e cheia de ideias e bons apontamentos, numa jam sempre com registos de fuzz riffs enfurecidos a la Tony Iommi. Carlos Ferreira e João Arsénio continuam então a revelar uma pequena grande equipa cada vez mais entrosada.

O frio carregava forte lá fora, mas os Cangarra aqueceram com um concerto no recinto exterior ao Pavilhão. Quase em modo non-stop, sempre a «esgalhar» ao máximo, não havia frio que os abrandasse. Cláudio, que acabara de actuar com os Pista, juntava agora a sua versatilidade punk n’ jazz da sua Fender às baquetas do incontrolável e incansável Ricardo Martins. Ganhou-se um pouco de calor, fez-se esquecer as pontas dos dedos geladas e ainda se descobriu dois empenhados skaters a dar um acompanhamento cheio de boa disposição no lado oposto deste pequeno recinto. Missão cumprida.

 

Voltando ao interior, os já muito comentados Killimanjaro viajaram de Barcelos até ao Barreiro para mostrar o que se faz para lá do Douro, de um local já muito ligado à criatividade musical e às novas correntes nacionais. Podem ser jovens, mas a sua paixão e entrega à música transpira em cada nota e resulta num concerto que nos leva numa viagem no tempo, onde o stoner se decompõe em riffs efusivos de perder a cabeça. Apresentaram-nos o seu álbum de estreia, Hook, editado este ano, que transpira rock n’ roll sob carris de uma locomotiva perigosa e imparável.

Depois de abrir um dos dias do Vodafone Paredes de Coura e de ter actuado no Reverence Festival Valada neste 2014, o trio mostra-se igualmente empenhado em conquistar as fileiras dos pequenos espaços da mesma forma que o faz em espaços maiores – as linhas de baixo de Luís Masquete estão realmente fortes, as batidas de Joni Dores continuam a acelerar da maneira que se quer e José Gomes é aquele monstro da guitarra que todos os jovens gostariam de ser. Tema atrás de tema, acabaram até para voltar para um encore com o tema “Howling”, um dos melhores do seu álbum.

 

Confirmadas as suspeitas que fomos à procura no Barreiro, os Killimanjaro revelaram-se vencedores. Havia de se seguir o caos e destruição de Besta novamente no recinto exterior, agora com Paulo (ex-EAK) na voz, novo protagonista na dança de vocalistas que esta banda tem protagonizado. Depois de Besta, a israelita Tamar Aphek, quando os relógios já marcavam acima das três da madrugada, mostrou os seus dotes enquanto música a solo depois de ter sido guitarrista e vocalista de Carusella ou Shoshana. Uma forma de terminar a primeira noite do Barreiro Rocks da forma que mais se desejava: a querer, de imediato, prosseguir para o segundo dia e continuar a festa que se faz à beira-rio nesta cidade.

O Barreiro Rocks, numa só noite, mostrou o seu potencial e o espírito festivo de quem faz e organiza com os seus para os seus, agradando de igual forma novos visitantes e curiosos. O evento prosseguiu sempre com as doses necessárias de rock, folia e entrega com nomes como Bad News Boys (ex-King Khan & BBQ), The Experimental Tropic Blues Band, 10 000 Russos, Cave Story, The Act-Ups, Los Saguaros, Modernos, Alek Rein, entre outros. Tão perto da capital mas com uma atmosfera tão diferente do que lá se vive, o rock vive e é no Barreiro.

Texto: Nuno Bernardo & Rute Pascoal
Fotografia: Nuno Bernardo & Rute Pascoal

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