O Mexefest faz-se, maioritariamente, com três intuitos: descobrir, confirmar e celebrar. E isto por alguns dos espaços que são desconhecidos ao olho comum. Num total de doze salas e ainda dois autocarros especiais, o Vodafone Mexefest fez o seu público percorrer em especial a central Avenida da Liberdade e ainda a Rua das Portas de Santo Antão, que continha oito espaços para concertos.

Não fosse o Vodafone Mexefest, como seria imaginar uma dupla sueca de música electrónica na Igreja de São Luís dos Franceses? Ou um projecto francês renascido de Nouvelle Vague na bela Casa do Alentejo? Ou ainda uma voz emergente da música portuguesa no segundo andar da Sociedade de Geografia de Lisboa?

O Mexefest é isto – é quase transformar um festival não-urbano num peddy paper na baixa de Lisboa. É andar à boleia de shuttles para nos levar ao cimo da Avenida, é receber de bom grado bebidas de chocolate quente na travessia das salas e ainda ter de explicar aos turistas estrangeiros o que estava a acontecer ali, naquele momento, para tanta corrida e tons enrubescidos. É ter de olhar ao mapa e os horários a procurar as melhores alternativas e ainda ter de perguntar, por curiosidade, aos outros como foi aquele concerto que não conseguiu ver porque estava noutra sala, à mesma hora.

Apesar de todos estes pontos em comum, a verdade é que dificilmente mais de uma dúzia de pessoas poderá ter feito uma rota exactamente igual no festival. Valha-nos a variedade de escolha e a possibilidade de construir um alinhamento como cada um quer – um Vodafone Mexefest esgotado, sim, mas distinto para cada uma das pessoas que o tornou cheio.

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1º dia – 28 de Novembro

Um frio de Inverno fazia o perímetro da Sociedade de Geografia de Lisboa enquanto Ana Cláudia já mostrava as suas canções do EP de estreia De Outono. É provavelmente um dos novos nomes em clara ascensão na música em português, confirmando-se-lhe as credenciais ao vivo pela sua voz doce entrosada com a melancolia de forma auto-suficiente a permitir aquecer os corações gélidos e empalidecidos. E se o Outono já não fosse belo por si só, que dúvidas restariam agora?

Certo é que, embora no interior da Igreja de São Luís dos Franceses, foi de forma menos cerimoniosa que se assistiu a Elin Kastlander e Joakim Benon, dupla sueca que faz música como JJ. Elin fazia ecoar as nuances angelicais das cordas vocais aos cantos da ara a cada batida potenciada por um terceiro membro, enquanto Joakim parecia um pouco além da calma que se esperaria num concerto desta natureza – encarnou uma espécie de Lorde a ter uns mínimos ataques de deleite, parecendo deixar desconfortável a sua companheira. Valeu ainda pela grande interpretação da sua “All White Everything”, tema extraído do seu novo e glacial V. Um concerto no local certo e com bons pormenores.

Já era altura de escolhas difíceis. Na senda de optar por Sinkane, Deers ou Francis Dale, dirigimo-nos até à sala Manoel de Oliveira para um concerto excepcional de Capicua, com todas as cerejas possíveis do belo bolo que é Sereia Louca. Ana («Ana quê? / Ana só. / Ana só? / Sim, só Ana.») mostrou-se mais aguerrida que nunca nos seus temas, acompanhada como costume por M7 e ainda por outras duas convidadas, tal como o disco manda anotar – Gisela João em “Soldadinho” e Aline Frazão em “Lupa”. O plano visual ao fundo ia-se alterando conforme o tema interpretado, sempre desenhado à mão em tempo real, assim como outros intervenientes iriam aparecendo em palco – ora uma cigana performativa, ora um b-boy, ora uma pole dancer para aquecer ainda mais a sala e ainda uma bailarina que se encarregou de unir perfeitamente os mundos da música clássica e do hiphop bem ao estilo de Save The Last Dance, filme de Thomas Carter. Um concerto de peito cheio para quem se «diverte imense» nas viagens a “Vayorken” ou àquela “Casa no Campo”. Um enorme «OBRIGADO!» enchia a tela ao fundo nos aplausos finais para um sentimento recíproco. Estava dado o primeiro grande concerto, daqueles para se falar como um dos melhores do Mexefest de 2014.

A viagem de volta ao coração do Vodafone Mexefest, o Coliseu dos Recreios, faz-se com a agitação dos Turbo Balkan Beats no interior de um dos Vodafone Bus disponíveis com música ao vivo. A festa sobre rodas faz-se sem problemas, com todas as notas positivas, para atingir o concerto de tUnE-yArDs. O projecto de Merrill Garbus mereceu um Coliseu perto de lotado, com pouco espaço sequer para a conseguir ver ao centro de palco, mas não se tratou de uma celebração consensual. Quem se atreveu a afirmar que Nikki Nack é mesmo um grande disco deverá ter encontrado nesta sala um concerto para gravar na memória, mas quem não é fã do seu trabalho em estúdio dificilmente sairá agradado pelo frenesim e pelo caos vocal que certos temas da norte-americana proporcionam. A percussão e os elementos cénicos deram boa vida a um espectáculo muito badalado que, quer-se queira quer não, teve o seu ponto alto na orelhuda “Water Fountain” – para quem não extraía muito de tUnE-yArDs, é só isto que fica.

Para reclamar o prémio de revelação do festival, os King Gizzard & The Lizard Wizard vieram da Austrália para provar a Portugal a sua genuinidade. Seria tarefa árdua tentar impedir de ser contagiado por um septeto que se parece conseguir divertir em palco do que os próprios fãs à sua frente. Uma autêntica locomotiva de riffs frenéticos e bateria no plural, elevados por uns rasgos loucos de harmónica, a devolver à Garagem EPAL, a intitulada de Sala Super Bock Super Rock, o mote certo para perder várias calorias nas filas da frente e deixar-se levar pela espontaneidade de uma banda jovem com uma crença enorme de convencer cada um dos presentes. Conseguiram-no, mais do que uma vez.

Ao tocar no assunto da espontaneidade, este tem de ser levado até ao Coliseu para conseguir transformar em palavras aquilo que se testemunhou de Annie Clark como St. Vincent. Depois de Marry MeActor Strange Mercy, o seu novo e homónimo St. Vincent tem feito já agitar os tops de final de ano, reclamando até prémios de melhor disco de 2014. Annie Clark deixou aliar à força da sua guitarra a irreverência dos sintetizadores e o trabalho de produção, transformando-se também ela numa personagem completamente diferente da doce, sorridente e carinhosa Annie que se conhecia e rezava a história. Agora vemos uma diva indomável de uma teatralidade com precisão norte-coreana, encarnando uma contadora de histórias que pouco ou nada interessam ao seu contexto. O contraste é pautado pelos cabelos agora brancos, pintados, e pelos laivos lunáticos que Annie protagoniza ao descer, de forma vistosa, da sua mini-escadaria ao centro de palco, terminando o desfile de pernas para o ar tal como agora a vemos. Uma Clark virada do avesso, mas sem perder a noção de espectáculo. Apesar da falta de espontaneidade e genuinidade do acto, Annie nasceu para pisar os palcos e para mostrar como canções como “Cruel”, “Digital Witness”, “Prince Johnny”, “Birth In Reverse”, “Cheerleader”, “Surgeon” e a final e apoteótica “Your Lips Are Red”, bem rebuscada na sua discografia, podem ter uma força visual invulgar.

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2º dia – 29 de Novembro

Lisboa é bela e ganha uma magia acrescida nesta altura do ano em que se rende ao espírito natalício e a todas as luzes que este traz à baixa da capital. Quase apontando para a direcção do Mexefest, as principais ruas que fazem o trajecto da Praça do Comércio até ao Rossio iluminaram o caminho à música num sábado já algo agitado nas habituais correrias desta altura do ano. Ainda que nem todos estivessem a caminho do evento, já uma boa parte enchia a Igreja de São Luís dos Franceses para assistir ao ponto de partida deste segundo dia, pelas 19 horas – o Coro Africano residente desta Igreja fazia os curiosos espreitar o interior do edifício, convencendo até uma boa parte a lá permanecer antes dos horários começarem a oferecer múltiplas alternativas.

Também para prazer à curiosidade, o Starbucks da Estação Ferroviária do Rossio|Refer viu-se cheio tanto de clientes como de festivaleiros, se é que esta palavra faz sentido no Vodafone Mexefest, para assistir às canções de Pedro Lucas. Um vai-vêm de presenças que ia vendo um pouco de tudo lá ia sempre garantindo que a música de cada sala fosse ouvida e discutida pelo caminho, não sendo este português uma excepção nas opções a tomar. Na Casa do Alentejo ia-se receber, porém, uma espécie de reencarnação de Nouvelle Vague contagiada pelo mundo do triphop: os Bristol de Marc Collin permitiram o francês ser palavreado nesta bela sala do também conhecido Palácio Alverca. Aqui escutámos e observámos rendições interessantes e muito próprias de temas de Massive Attack (“Safe From Harm”), Goldfrapp (“Paper Bag”), Lamb (“Gabriel”), Morcheeba (“Moog Island”) e ainda a sempre muy arrepiante “Roads” de Portishead. Pelo meio existiu também “Mad About You”, de Hooverphonic, que contou com Jay-Jay Johanson como convidado especial, um par de horas antes de ser a sua vez de actuar naquele palco.

Enquanto estas versões ecoavam e relembravam quão diversificado e belo é o catálogo deste género, já se dava uma cadência de concertos que permitiam corridas pelas ruas: ora Modernos, ora Adult Jazz, ora Salto, ora Curtis Harding. No entanto houve quem preferisse gastar os seus esforços e energias no suadouro que se tornou o Salão Nobre do Ateneu Comercial de Lisboa com o intitulado «rockuduro» dos Throes + The Shine: um equilíbrio de forças entre a alegria e a violência, onde o kuduro oferece a voz a um powertrio de rock que bebe muitas das suas influências às maiores referências do hardcore punk. Não sendo possível agradar a gregos e troianos, esta é uma daquelas bandas capazes de construir pontes onde eles parecem ser impossíveis de edificar.

A desmarcar-se deste poder de acção e agitação esteve o concerto de Sharon Van Etten no Coliseu, que terá oferecido logo as primeiras gotas ao canto do olho nos instantes iniciais de “Afraid Of Nothing”. Seguiram-se “Taking Chances” e “Tarifa” para completar um trio de abertura a representar o seu novo e já aclamado Are We There. Sharon, bastante receptiva aos elogios e frases que se soltavam nas falas do público, dedilhava os encantos das suas canções para cada um como se de um concerto privado se tratasse, mostrando-se sempre comprometida com a sua sinceridade. Mais duas faixas do seu novo disco a fechar, “Your Love Is Killing Me” e “Every Time The Sun Comes Up”, ajudaram a secar as lágrimas e partir para outra, mas deixando um pedaço de cada um dos presentes ali no Coliseu para Sharon Van Etten cuidar.

Era hora de separar largos grupos de amigos. Seguia-se então uma hora e meia de concertos em que a escolha poderia cair para qualquer um: os Cloud Nothings para ferver o Ginásio do Ateneu Comercial de Lisboa, Jay-Jay Johanson para encantar a Casa do Alentejo, os Sensible Soccers para fazer abanar as ancas na Sala Super Bock Super Rock Garagem EPAL, Perfume Genius na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge, Palma Violets na Estação Vodafone.FM junto à Estação Ferroviária do Rossio|Refer e ainda um par de ofertas alternativas, caso isto não fosse suficiente: MGDRV no Salão Nobre do Ateneu e Meu Kamba Soundsystem no Palácio Foz.

A nossa solução para reacender a chama e se aquecer numa noite que já se sentia muito fria passou pelo calor do trio Cloud Nothings e pela festa à moda britânica dos Palma Violets – e, mesmo sem métodos de comparação, a escolha pareceu muito acertada. Os primeiros mostraram-se agradados, entre sorrisos espontâneos entre guitarrista, baixista e baterista, pela recepção que tiveram. Se Attack On Memory já era um discaço que merece ser dissecado ao vivo, o que dizer de um Here And Nowhere Else capaz de tomar os ouvidos aos primeiros acordes? Estes dois álbuns fizeram todo o alinhamento apresentado a Lisboa, com uma certa inclinação no primeiro mencionado. “Stay Useless” foi logo um alvoroço, antes de “Psychic Trauma” e “Fall In” prepararem as gargantas de quem conhece bem estes refrães. Um pouco mais tarde iria-se partir para “Pattern Walks”, tema que tem no seu miolo uma certa transição de ruídos capaz de traduzir uma viagem intergaláctica, antes das célebres “Separation” e “No Future / No Past” começarem a desenhar a recta final. Como não poderia deixar de ser, e para enorme espalhafato da maioria, “I’m Not Part Of Me” foi um dos momentos do festival, sucedida pela também conhecida “Wasted Days”. Vistas as coisas num modo geral, os Cloud Nothings fazem o complicado parecer simples – os riffs de Dylan Baldi não vêm fronteiras entre o noise, o punk e a irreverência indie de Sonic Youth, o baixo de TJ Duke mostrou-se muito mais do que um bom parceiro de aventuras da guitarra e o baterista Jayson Gerycz foi um polvo incansável, tentacular e metrónomo de toda a potência assistida. Concerto do festival?

A pergunta não se responde com muita facilidade pois os Palma Violets, logo de seguida, não quiseram deixar as contas simples de resolver. Estes mesmo são mais do que uma versão aprimorada e nova dos The Libertines, ainda que as comparações surjam à baila. A parceria e entrosamento musical de Samuel Fryer e Chilli Jesson lembra muito aquilo que Pete Doherty e Carl Barât revelaram a seu tempo, mas estes Palma Violets fazem-no com uma ousadia invejável e com uma parede de som, a roçar bastantes os mais altos níveis do Mexefest, que os deixam despidos de rótulos. E o fenómeno de popularidade que se tornaram ainda antes do seu único álbum, 180 (2013), ser editado não parece ser por acaso – a nomeação de «Best Live Band» que receberam nos NME Awards não cai dos céus, nem nasce das árvores. A energia que transmitem nas simples mas orelhudas canções de indie rock tornam-nas ainda mais gloriosas, ora seja em “Tom The Drum”, ora em “Step Up For The Cool Cats” ou ainda em “Johnny Bagga’ Donuts”. Não esquecer também a inclusão de temas novos que farão parte do novo disco da banda, a ser lançado em 2015. Para lembrar fica aquele cenário fantástico da varanda da Estação do Rossio, com o Castelo de São Jorge ao fundo, onde os Palma Violets nos deixaram um concerto memorável com direito a uma “Best Of Friends” que deverá ter ecoado pelas ruas da baixa pombalina como nenhuma outra música terá feito antes.

Para terminar o nosso Vodafone Mexefest, apontámos em direcção ao Coliseu para Wild Beasts. Depois de um concerto a meio-gás (talvez muito por culpa das horas e da falta de público próprio) no Palco Vodafone do Rock In Rio Lisboa deste ano, os autores do excelente Present Tense beneficiaram de uma boa oportunidade para se redimirem e conquistarem a capital. Ainda que o alinhamento terá sido o mesmo e mais uma boa extensão de músicas do que foi o seu concerto no Parque da Bela Vista, os Wild Beasts provaram-se que, com a ambiência e audiência certa, poderão dar um concerto de registo brilhante, de uma fina capacidade de reproduzir todas aquelas camadas ao pormenor. Lançado o trunfo “Mecca” a abrir, os britânicos aproveitaram depois para apresentar algumas faixas dos anteriores Two Dancers Smother, mesmo interpretando, quase integralmente, Present Tense. De Two Dancers não faltaram “Hooting & Howling”, “All The King’s Men” ou “This Is Our Lot”, sabendo fazer a ligação perfeita entre as faixas do passado e do presente. O mesmo aconteceu com as seleccionadas de Smother, de onde sai a final “Lion’s Share” e as iniciais “Bed Of Nails” e “Albatross”. Intercaladas com estas estiveram todos os momentos ricos do novo disco, incluindo as lustrosas “A Simple Beautiful Truth”, “Sweet Spot”, “Nature Boy” ou “Palace”. A marcar o início de encore e a tornar cada vez mais seu todo o público do Coliseu, “Wanderlust” pauta a vitória dos Wild Beasts. Afinal, estes tipos são mesmo bons.

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Substituindo todas as variáveis da cábula que levámos para o festival, fazemos as contas, isto é, simplificamos as coisas. O Vodafone Mexefest é um evento que se desmarca cada vez mais, pela positiva, colocando boas ofertas nos mais improváveis espaços de Lisboa. Saímos então a saber que os Cloud Nothings e os Palma Violets deram todos os seus melhores argumentos, que St. Vincent tem uma delicadeza estudada invulgar, que Sharon Van Etten tem uma leveza única, que Capicua agarra bem com as duas mãos os elogios que lhe são dados, que King Gizzard & The Lizard Wizard terão dado histórias intermináveis para descrever e ainda que Wild Beasts fecharam com chave de ouro um evento de ouro.

Texto: Nuno Bernardo
Fotografia: André Ferreira & Jorge Boiça (Vodafone Portugal)

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