O Jameson Urban Routes realizou-se em 2014 durante 6 dias e celebrou-se no Musicbox a ascensão de vários artistas do panorama internacional e nacional. A sala de Lisboa recebeu nomes como Future Islands, Tim Hecker, Moonface, Fujiya & Miyagi, Glass Animals, Shabazz Palaces, Strand Of Oaks, entre muitos outros. Estivemos presentes em dois dos dias desta edição, para contar a história – a 25 de Outubro e a 1 de Novembro.

25 Outubro

À entrada, o aviso estava dado: «O volume do concerto de Tim Hecker poderá ser superior a 120db». Vem sozinho, qual profeta no seu altar, na quase escuridão total, com apenas um pequeno holofote a projectar a iluminação necessária na mesa. Não olha para o público, já encoberto por uma espessa nuvem de fumo. Traz na bagagem, para além do já extenso reportório, o recém-editado e aclamado Virgins (2013, Kranky Records). Nos primeiros instantes, somos instantaneamente abalroados por uma corrente encorpada de ruído, que quase atinge o ponto do desconforto mas sem, de facto, o alcançar. Talvez pela forma como o músico canadiano magistralmente orquestra o caos e a serenidade no mesmo vórtice sonoro. É a forma mais física de descrever os efeitos da música de Tim Hecker: estranhos e contraditórios, mas em perfeita sintonia. Visceral, tensa e catártica ao mesmo tempo, entra-nos pelas correntes nervosas do corpo, e no final, é como que se evapora numa numa esparsa camada de ruído celestial.

“In the Fog” (a tríade já oriunda de Ravedeath, 1972, e os longos minutos em que perdemos a noção de tempo ou de transição, representa esta oscilação entre tensão e relaxamento na perfeição, as camadas de ruído, distorção, perfeitamente emparelhadas com os pedações de órgão dissonante e efeitos electrónicos. Uma paisagem sonora simultaneamente caótica e desoladora, que recupera a serenidade em momentos chave e se transfigura em algo incrivelmente belo. Um espectáculo curto, mas abrasivo e intenso. No final, já iluminado, despediu-se com uma breve vénia e nós, com os ouvidos ainda a latejar e completamente absortos.

Ainda nesta noite, a contexto das Jameson Urban Routes, o Musicbox recebeu ainda o projecto português Medeiros/Lucas a abrir a noite e Moonface, já no final, o projecto de Spencer Krug que, numa nota completamente diferente, depois da apoteose de ruído anterior, nos presenteou com um punhado de baladas tocadas ao piano.

Fotografia e Texto: Telma Correia

 

1 Novembro

Em 2011, o duo encarnado por Ishmael Butler e Tendai Maraire editava o seu, talvez, ponta de lança – Black Up, o casamento oportuno, ainda então, entre o rap e a música electrónica. Mas muito mais. A música dos Shabazz Palaces tem que se lhe diga – tribal, orgânica, meio psicadélica quando lhe apetece, e quase sempre a chamar o pé a bater, entre o groove quente do funk e a mecânica electrónica.

Três anos depois, regressam ao palco que os estreou por cá, o Musicbox, na noite de encerramento das Jameson Urban Routes com o novo Lese Majesty. Meia hora após a hora prevista (meia-noite e meia, portanto) depois da actuação pouco composta do guineense, , o duo sobre ao palco bem ornamento e quase embaralhado com o cenário – óculos escuros, capas e panos colorido, e a percussão em destaque central no palco. Embora focado, como seria de esperar, no último registo, houve direito a uma passagem pelo restante repertório num espectáculo que, aos nossos ouvidos, deveria ter sido mais curto na duração. Poucas as interrupções ou transições suaves para limpar a escuta, tema após tema, e alguns momentos que propiciavam a evasão auditiva dos presentes.

“Youlogy” ou “Free Press and Curl”  do bom-velho Black Up, duplamente poderosas ao vivo aludem ao perfeito casamento que nos traz o rap dançável.”Cake”, já do novo Lese Majesty, segue a mesma linha, uma repetição robótica de «I’m having my cake and I’m eating cake» sob um sintetizador qual nave espacial e uma pulsação metálica a acompanhar, a par de “They Come In Gold”, embora mais moderada, o single e a deixa para o final do espectáculo de um duo que tem tudo para continuar a renovar-se e bombear sangue novo no campeonato do hip-hop. Ou do que quer que lhes queiramos chamar.

Fotografia e Texto: Telma Correira

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