Passados três anos, Tim Hecker regressou a Portugal para desta feita apresentar Virgins, o sucessor de Ravedeath, 1972 lançado em meados de Outubro do ano passado. Estivemos no Hard Club, no Porto, para a primeira das sessões Post-Amplifest, uma maneira de amenizar a ressaca do que já lá foi e ver uma mão cheia de nomes que podiam muito bem ter lá estado de forma efectiva.

É no mínimo curioso recuar na discografia do artista de Montreal. Já dos tempos como Jetone num universo bem mais techno, aos segmentos mais abrasivos de Radio Amor e às colaborações com Daniel Lopatin e Aidan Baker dos Nadja, fica-nos a ideia de que estamos perante uma sucessão de estudos e ensaios à técnica. O despir da música de Tim Hecker que se tem vindo a arrastar desde o sublime Dropped Pianos até à data corrente, é prova nítida da maturação dum artista que se expõe agora de uma forma que antes tendia a ver-se a espaços. No meio do fumo e com dois focos de luz mínimos a pingar sobre ele, o canadiano fez congelar o tempo desde o primeiro momento em que pisou o palco, enquanto verdadeiros monumentos de som foram  sendo erguidos e destruídos em sucessão deliberada. Ficamos com a sensação de ver um bocadinho de Paul Scholes e Pirlo em Tim Hecker, o mesmo sentido espaciotemporal, a mente dum arquitecto encaixada no coração dum romântico, tudo isto em contextos obviamente diferentes, claro. Hecker terá obrigatoriamente de ser tido em conta como um dos mais interessantes e importantes compositores dos nossos tempos, como alguém que faz John Cage viver de novo e vai vincar o seu espaço no mesmo altar que Arvo Pärt. Um mágico.

Na primeira parte do concerto estiveram os Atillla, projecto que foi escolhido pelo público por votação aquando do próprio Amplifest. O duo, movendo-se num universo bastante próximo ao industrial, em faixas carregadas às costas por densas pistas de sintetizador e complementadas por percussão que se fazia claramente roçar ao jazz, foi construindo uma atmosfera e balanço bastante interessantes durante os minutos em que esteve em palco. A acompanhar o set de Atillla, estiveram em tela amplas projecções que se mostravam como verdadeiros mapas visuais à música do projecto. Num género que em Portugal não se pode dizer que abunde quantidade, é óptimo ver que projectos destes ainda nascem e se fazem afirmar.

Texto: Rui Andrade
Fotografia: Carolina Neves

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