Já não é possível falar do Amplifest como um evento isolado, como se se tratasse duma espécie rara de festival que resultasse uma vez na vida. Consumada, e diga-se desde já com sucesso, esta 4ª edição do festival portuense, o facto de já se fazer menção a uma edição de 2015 é um sinal claro à continuidade, crescimento e afirmação duma promotora que assume há largos anos um lugar incontornável no que à arte e cultura diz respeito em Portugal.

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4 de Outubro

Dois dos nomes que constituíram o 1º dia do Amplifest (referimo-nos em particular a Pharmakon e Swans), foram precisamente os primeiros a surgir como cabecilhas dum cartaz que desde cedo se fez adivinhar e rotular como o de uma edição de luxo, e ao qual coube aos Yob de Mike Scheidt dar o pontapé de saída. Com Clearing the Path to Ascend ainda bem recente na bagagem, e com uma setlist a incidir naturalmente no registo lançado em início do mês passado, os norte-americanos foram acima de tudo iguais a si próprios e fizeram desfilar riff atrás de riff ainda com o sol dum meio de tarde de Sábado a fazer-se entrar pelas janelas da Sala 1 do Hard Club. Não há como negar o carisma dum vocalista como Mike Scheidt, nem volta a dar no que à competência da banda se possa considerar, o que parece menos bem nestes Yob tem inevitavelmente ter que  ver com estruturas que pecam consecutivamente por excesso no que à complexidade diz respeito. As faixas mostram efectivamente uma tendência para se perderem nelas mesmas de forma recorrente, e tal deve-se em grande parte a uma noção de término que pode facilmente ser catalogada de duvidável. É claro que tudo isto não passa naturalmente duma opinião pessoal de quem redige, olhassem para quem da sala fosse saindo aquando do final do concerto e viriam com certeza sorrisos nos lábios duma extensa maioria.

Não hão-de haver nomes maiores que o de Peter Brötzmann no universo da música Jazz contemporânea. E quem fala em Jazz pode muito bem falar em tanto outro género, já que a música de Brötzmann não parece ver razão para fronteiras. Se tão somente não bastasse o facto de estarmos perante uma autêntica lenda viva (tem actualmente 73 anos), o facto do mesmo ainda ser capaz de uma entrega tal, ao ponto da quase fusão ao instrumento, é no mínimo intrigante, para não dizer assustadora. Se à equação adicionarmos o nome de Steve Noble, um monstro que no que à percussão diz respeito há-de haver poucos,  temos um concerto que acaba por ser o exemplo perfeito do ecletismo e variedade que o festival representa.

É inevitável que se compare o que são Marissa Nadler e Chelsea Wolfe, ainda para mais sendo que a segunda pisou este mesmo palco do Hard Club na edição do ano passado. Ambas dividem entre si uma aura misteriosa, como se saídas do meio do nevoeiro que tanta vez cobre esta mesma Invicta, e connosco partilham uma tristeza e solidão do tamanho do mundo. Se o talento e a magia na voz de Marissa são factos inegáveis, a verdade é que o palco pareceu o tempo todo um gigante capaz de engoli-la a ela e à violoncelista com que se fez acompanhar a norte-americana. July, um dos discos do ano por estes lados diga-se de passagem, pedia um outro formato, outro espaço, uma outra intimidade para verdadeiramente se transpor e transcender-se ao vivo.

Do Arkansas chegou-nos a banda que deu este ano à luz um dos mais belos discos que o género é bem capaz de ter visto nascer na última década. Os Pallbearer vieram estrear-se em Portugal para apresentar precisamente Foundations Of Burden, disco do qual já tivemos oportunidade de falar aqui em maior pormenor.  O que se seguiu roçou a masterclass em Doom clássico: música de peito aberto, uma máquina do tempo que não se deixa cair em antiguidade. Os Pallbearer parecem ser a banda que o género precisava, uma lufada de ar fresco e um verdadeiro pontapé à estagnação que, por incrível que pareça, foi precisamente beber aos primórdios de todas as convenções mais do que a qualquer outro sítio.

Falar de Swans é recuar aos anos 80. É pensar na quantidade de bandas e artistas presentes neste cartaz que cresceram muito provavelmente a ouvi-los, e no quão diferente haveriam de soar se Michael Gira e companhia não tivessem um dia decidido lançar Filth. Passados quase 25 anos continuam a manter e merecer o estatuto de outrora, e os lançamentos quase sucessivos de The Seer e To Be Kind, parecem ser indicadores duns Swans em absoluto topo de forma. Como resumir um concerto de quase duas horas e meia dos norte-americanos? Ondas, um oceano inteiro delas. Fomos arrasados sucessivamente por vagas de som gigantes, abertos a meio pelas guitarras de Cristoph Hann e Norman Westberg, sacudidos pelo baixo de Chris Pravdica, as fundações dum mundo interior destroçadas pela percussão  de Thor Harris e Phil Phuleo, mas acima de tudo tivemos o coração vidrado no génio e na loucura de Michael Gira. A presença de faixas novas na setlist, como de resto tem vindo a ser habitual nas tours que vão sucedendo o lançamento dos últimos discos, mostra que a banda não faz qualquer intenção de abrandar num futuro próximo. Ficamos com a ideia de ter assistido a algo muito especial, de que este concerto será para sempre recordado por cada vez que se entre nesta sala. Uma ovação daquele tamanho talvez tenha sido pouco. Magistral.

Os concertos de Hexis e Pharmakon tiveram mais em comum do que a duração e seguimento cronológico. Ambos representaram à sua maneira uma qualquer encarnação do termo intensidade na cerca de meia hora de duração que partilharam. Tanto o Hardcore fulminante dos dinamarqueses como o Noise visceral de Margaret Chardiet foram ferramentas de atordoamento eficazes e que se mostraram como escolhas acertadas para a sucessão, logicamente difícil, ao set de Swans.

Ben Frost é um daqueles artistas que, depois de visto ao vivo e por melhor que se saia perante o formato mais controlado que permite um estúdio, inevitavelmente nos faz sentir que é em  palco que se encontra no seu habitat de eleição. Se formos a arrastar a analogia ecológica mais longe, numa relação predador/presa, o australiano representaria claramente o 1º dos dois. Isso só pode ser confirmado pela maneira como se faz movimentar em palco, como ataca o equipamento e faz bater o pé descalço no chão quando parece querer anunciar o final do mundo pela sua mão. Acompanhado na metade final do concerto pela percussão de Thor Harris dos Swans, músico que tinha vindo já a colaborar com Ben no próprio A U R O R A, é este efectivamente o elemento sobre o qual Frost faz girar todo o seu registo actual. A U R O R A pode muito bem representar o expoente máximo do imaginário da música de dança. A derradeira morte de uma rave.

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5 de Outubro

Sem qualquer tipo de rodeios, o segundo dia de Amplifest era manifestamente menos rico no que a nomes grandes pudesse dizer respeito, tendo feito repartir nitidamente atenções sobre dois pontos do cartaz. Os nomes de Wovenhand e Cult Of Luna, por razões lógicas e históricas, surgiam catalogados como os dois grandes focos de interesse neste final de edição de 2014, num dia que ao mesmo tempo prometia revelar e ou/confirmar o estatuto de bandas como os Conan e os próprios Wolvserpent.

Tinham muitos ainda não dado por fechada a hora de almoço quando estavam já em palco os Black Shape Of Nexus. É verdade que o sexteto alemão trouxe no bolso um Sludge arrastado, bem construído e complexo q.b.  (de certa forma a adição de um teclado ajuda a preencher espaços), mas não deixam de se ir enquadrar num género em que parece cada vez mais já se ter ouvido tudo. Falharam portanto em manter-se interessantes por mais de meia música de cada vez. Caso diferente foi o dos Conan. Tanto pela materialização do volume usado como pela intensidade de cada riff e cada acorde, foi impossível deixar passar esta locomotiva ao lado. A presença de dois homens nos vocais, que apesar de apresentarem registos tão distintos são capazes de conjuga-los na perfeição, acrescenta e de que maneira ao peso e dinâmica deste já titânico trio de britânicos.

Com o cancelamento do concerto dos Urfaust por motivos de ordem familiar (ainda assim e ao que parece são já a primeira confirmação para o Amplifest 2015), VRDRBR actuou com músicos de Sektor 304 e Black Shape Of Nexus, num gesto bonito de comprometimento e respeito, de forma a produzirem um ritual que consistiu acima de tudo de improviso e da interacção real entre os três participantes.

Antes de mais não podemos simplesmente esconder o amor e a preferência pela fase primordial da carreira dos Wovenhand, em detrimento desta vertente mais recente, bem menos despida e com mais guitarras, da banda de David Eugene Edwards. A verdade é que o homem é exactamente o mesmo, e vê-lo agir em palco como se estivesse a ser manipulado por uma qualquer força sobre-humana, contorcendo e  deixando-se agredir pelos seus próprios demónios, terá de representar sempre um convite para que entremos no seu fantástico e negro mundo.

Haverão poucas bandas com um estatuto tão grande quanto os Cult Of Luna no universo do género. Com a passagem dos suecos pelo Porto ainda relativamente fresca , corria na altura o mês de Janeiro de 2013, a notícia da presença dos mesmos no cartaz deste Amplifest acabou por ser uma surpresa (das boas, claro). Avisaram os próprios que seria o último concerto da banda em algum tempo, não estando sequer integrado sobre um qualquer contexto de digressão nem nada que se pareça. A verdade é que desde cedo pareceram acusar isso mesmo, uma certa falta de ritmo subsequente à ausência do balanço que cria naturalmente uma tour. Com uma setlist em muito idêntica à aqui tocada há pouco mais de um ano, nem por aí se trouxeram algo novo à mesa de quem lá tinha estado, para não falar da aparente ameaça de encore que ficou por concretizar. Se podemos acusar os Cult Of Luna de terem dado um concerto medíocre? Talvez seja ir demasiado longe e é impossível acusá-los de tal coisa. Mas não podemos deixar de sentir aquele gostinho amargo quando sabemos tão bem que podem fazer muito mais.

Consumado o sucesso desta edição de 2014, podemos perguntar-nos aonde irá um festival que ano após ano tem vindo a elevar a sua própria fasquia. Depois lembramo-nos que perguntas dessas pouco interessam, quando temos a certeza que depois de findado o fim-de-semana, deixamos o herdeiro deste Amplifest em boas mãos.

Texto: Rui Andrade
Fotografias cedidas por: Cláudia Andrade (Arte-Factos)

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