A 12 de Fevereiro deste 2014, Scott Kelly visitou Lisboa para as suas canções de Forgiven Ghost In Me, despedindo-se do público da Galeria ZDB com uma rendição de “Tecumseh Valley” de Townes Van Zandt. Quase oito meses depois, Marissa Nadler estreia-se em Portugal e apresenta-nos July, um dos mais belos discos do ano, deixando para os minutos finais algumas faixas de outros registos e ainda uma versão.

“Tecumseh Valley” foi novamente entoada naquele aquário, num arranjo menos dramático que o feito por Scott. O contexto não seria o mesmo, mas como se pode receber os versos iniciais, «The name she gave was Caroline / Daughter of a miner / Her ways were free / It seemed to me / That sunshine walked beside her», sem um sorriso nos lábios? É tétrico, dadas as palavras escritas, mas quem esteve nos dois concertos não pode deixar de os ligar. Antes disso, um encore com “The Sun Always Remind Me Of You”, tema do seu álbum homónimo, purgou-nos o espírito. Uma espécie de purificação pós-ruína, aquele acto de auto-destruição de Marissa Nadler assistido pela violoncelista e pianista Janel Leppin. Esta catarse pessoal ultrapassou até as palavras – Marissa, até ao dispensar uma das suas guitarras para “I’ve Got Your Name”, agarrou-se ao vestido e sentiu-se, lá longe, o dedilhar de mãos vazias.

Esse dedilhar alçava os primeiros segundos de cada tema, logo após ajeitar o transpositor no braço da guitarra, e a voz juntar-se-lhe-ia sempre pouco depois. «Aquele silêncio embaraçoso enquanto eu afino as coisas», dizia baixinho a Norte-Americana, entre sorrisos e um avermelhar de bochechas,  nas pausas que surgiam com alguma timidez assim que abria os olhos. Foi com eles cerrados que nos enfrentou narrações ricas, carregadas de bagagem e sabedoria, onde perto nos deixava de sentir as gotas de uma alma que chove. Encarnava novamente os acontecimentos que a própria vive, como nos explicou em entrevista, num outro corpo, na terceira pessoa, igualmente feminino e delicado. Marissa deixava-se invadir, fazendo-o por si e para si, e ao mesmo tempo chegava aos próximos, silenciando as cores, ouriçando os poros e empalidecendo a pele.

Desamparados os sentidos e sem qualquer certeza temporal e espacial, não sabemos quanto tempo passou e em que cidade estamos. Podem ser 22 horas novamente e a disputa de Marissa continua. Se calhar está-nos apenas a assombrar e pode-nos até confidenciar de que estamos em Lisboa. É possível, mas a certeza já não é a mesma.

Texto: Nuno Bernardo
Fotografias: Luís Martins (Galeria ZDB)

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