ALLERSEELEN

Krautfolk, Pop Militarista Áustria Palco Igreja da Pena

Um vocalista contemplando o céu e a bela arquitectura do castelo, um ritmo constante marcado pela percussão e a solenidade e seriedade da banda, quebrada em sorrisos no final das músicas, transformaram este final de tarde a Igreja da Pena numa viagem militarista ao som do rasgado alemão dos austríacos Allerseelen. Com um tema aqui e ali mais dançável, outros que ficavam mais no ouvido como Feuersalamender, não se podia pedir mais nem menos a uma banda que pratica este tipo de som há já largos anos. É algo que apenas faz sentido no ambiente intimista do espaço, acabando por se tornar num periodo de relaxamento e sintonização dos ouvidos, desligando da conversa e ligando-os para a música. Pouco mais há a dizer sobre este concerto, que durou uma hora e revelou uma banda madura e simpática, bem acolhida por um público composto, que foi abanando a cabeça de forma lenta e quase mecânica, provocados pelo ribombar dos tambores a ecoar nas paredes.

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SHE PAST AWAY

New Wave, Darkwave Turquia Palco Igreja da Pena

Foi a maior enchente de sempre da Igreja da Pena (pelo menos, desde o século XIX, penso). Os turcos She Past Away eram o nome mais esperado neste palco e foram guardados para o fim, como chave de ouro para a despedida da igreja. Quando subiram a palco às 19:11, foi audível a excitação do público, que durante todo o concerto dançou como nunca se viu naquela igreja (um pouco à semelhança de Die Selektion o ano passado, mas ainda com mais gente e movimento). A banda pareceu surpreendida com a recepção, e o público surpreendido tema após tema com o darkwave à moda antiga de temas como Sanrı, Ritüel e Kasvetli Kutlama. A voz grave de Volkan Caner pecou talvez por estar um pouco baixa, mas o mais marcante foram mesmo os ritmos dançantes de um projecto que promete crescer imenso. Houve tempo para duas músicas de encore, exigido pelos presentes que já tinham manifestado desagrado quando a banda anunciou que iria tocar a última música. Foram cinquenta minutos de aquecimento para o Palco Corpo, mas antes, antes temos Alma.

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DARKWOOD

Neofolk Alemanha Palco Alma

Não poderia haver Entremuralhas sem neofolk puro. Se os Darkwood não são um nome tão sonante como Of The Wand & The Moon, Rome ou Sol Invictus, a sua experiência está no mesmo patamar ou mesmo acima de alguns destes nomes. Numa longa setlist com dezasseis músicas, foram seis os temas cantados em inglês até que o pouco comunicativo vocalista anunciou “and now some german“, partindo para um dos maiores êxitos da banda, Lied am Feuer, sendo mais cinco as músicas na sua língua materna cantadas nas restantes nove. Foi uma hora de bom neofolk, tocado na perfeição, com bons detalhes instrumentais e uma voz grave e calma a criar um ambiente pacífico e sonhador típicos deste género musical; é fácil de imaginar um adulto, experiente na vida, a cantar e tocar numa guitarra acústica em tempos idos, à volta de uma fogueira num castelo algures num recanto perdido do mundo, outrora o seu centro, agora esquecido; faltou só a fogueira.

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THE LEGENDARY PINK DOTS

Folk Psicadélico, Electro-Trip Poética Holanda/Inglaterra Palco Alma

Como não há duas sem três (nem, pelos vistos, reportagens sem expressões clichés), eis que surge um concerto que me deixou triplamente perplexo. Primeiro, por antecipação; era uma banda que nunca esperaria ver no Entremuralhas; apesar de pouco conhecer deles, o estatuto dos The Legendary Pink Dots atinge proporções de lenda. Segundo, porque não esperava que uma banda já avançada na idade tivesse a energia para fazer aquilo que fez em palco, sobretudo o vocalista. Numa performance sempre em movimentos lentos e hipnóticos, foram inúmeros os momentos de magia, como anunciava o tema A Star Is Born no seu final, “this is highly magic“. Entre a brilhante Rainbows Too?, com uma prestação vocal fora de série e um excelente solo de guitarra, passando por uma Casting the Runes contagiante, o vocalista Ka-Spel foi intenso e imprevisível, perguntando calmamente “who will throw the first stone?” e logo de seguida gritando e apontando aleatoriamente para o público “You? You?“, tal demónio se soltou. Ash & Sand trouxe um momento de comédia à conversa com um anjo, a balada Poppy Day terminou em grande, havendo tempo ainda para um encore com o tema mais rock Blacklist. Terceiro, perplexo também por este ser o concerto que menos público teve desde sempre no Palco Alma. Como é possível pagar bilhete para perder aquele que foi dos melhores concertos de sempre neste palco, uma viagem psicadélica e teatral entre os mundos do rock e electrónica, com letras que por si só valiam a pena estar lá?

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O. CHILDREN

Post-Punk, Indie Rock Inglaterra Palco Corpo

Descendo uma última vez ao Palco Corpo, foi a vez da estreia mais aguardada do festival actuar, começando exactamente à meia noite em ponto. Tobi O’Kandi não só é enorme na voz, mas também o é em tamanho, uma figura que impõe respeito em palco e cuja envoltura física contrasta com a forma delicada e simpática com que proferia entre as músicas frases como “you are great people” e “it’s all love“. Muito acarinhados e sempre com ouvintes atentos e a dançar na plateia, foram percorridos acordes de Malo a abrir, Ezekiel’s Son, mas foi com o single Dead Disco Dancer que as coisas verdadeiramente aqueceram, seguindo-se um tema novo Maybe I. O final foi muito bom, com Ruins e Holy Wood, dois dos grandes clássicos da banda, tocados de seguida. O público não deixaria a banda ir embora sem encore, que aconteceu com Ace Breasts, primeiro tema composto pela banda. Um líder carismático e música de qualidade superior são a receita que os O. Children seguem para um concerto de topo.

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HOCICO

Electro Industrial, Aggrotech México Palco Corpo

O final seria de terror. Com a cucaracha a adornar o palco dos dois lados, foi com o aggrotech agressivo dos Hocico que o Entremuralhas 2014 se despediu em grande. Se o início com Tales From the Third World parecia já de si pesado, o segundo tema T.O.S. of Reality levou o som ao extremo, para loucura de um mar de gente que dançava como se não houvesse amanhã. Forgotten Tears, Dead Trust e Untold Blasphemies destacaram-se, mas não houve um único momento de menor euforia no concerto. Viram-se sinais do diabo, ouviu-se a sua voz no corpo do mexicano Erk Aicrag e foi de forma diabólica que também as projecções de fundo se desenrolavam, com imagens explícitas, de horror e animações, por vezes a ritmos alucinantes. Um verdadeiro espectáculo de som e luz que fez explodir o castelo em mil pedaços de essência gótica; cabe agora à Fade In, como todos os anos faz, arranjar peças diferentes para formar o mesmo puzzle que todos os anos se repete em Leiria, sempre diferente no conteúdo, sempre igual no espírito.

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Dia 28: Ermo, Uni_Form, Iceage

Dia 29: Andrew King, Női Kabát, Oniric, Parzival, Holograms, Aesthetic Perfection

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