Por entre as muralhas do gótico Castelo de Leiria, desde um sol que morre em penumbras nos finais de tarde intimistas na Igreja da Pena, passando por um céu ora estrelado, ora envolto num suave nevoeiro, mas quase sempre adornado pela pálida lua no Palco Alma, até chegar ao calor humano e arbóreo do electrizante Palco Corpo, já passaram uma mão cheia de edições de pura singularidade em termos de espectáculo visual e sonoro. A edição de 2014 mostrou uma vez mais, como já sabia quem aprendeu a respeitar e confiar na equipa por detrás do Entremuralhas, que este evento é capaz de proporcionar experiências únicas e mágicas, mas sobretudo, é como uma gigante reunião de família na qual, apesar do ecletismo musical e diferenças etárias patentes no público presente (já lá voltaremos mais adiante), todos partilham algo em comum e não há aquele parente chato que não nos compreende nem faz por isso. Aqui, todos somos um mar negro por fora mas iluminado por dentro.

Ambient #20

Naquela que foi a maior edição de sempre, com quinze bandas distribuídas por três dias e outros tantos palcos, sete das quais em estreia em território luso, a organização propôs uma fórmula nunca antes experimentada: um dia de abertura exclusivamente no Palco Corpo, e dois dias seguindo a fórmula de seis bandas, duas por palco, iniciada o ano passado. Com um leque mais vasto de nomes e tendo em contas as enormíssimas exigências de qualidade impostas por tão limitado mas culto musicalmente grupo de pessoas, este foi o ano em que mais vozes, não muitas é certo, se ergueram a manifestar algum desagrado, sobretudo perante as escolhas de Andrew King, Holograms e Aesthetic Perfection. Sou forçado a concordar que Andrew King é algo que, por mais raro que seja nos tempos modernos, não agrada assim a tanta gente; Holograms estão um bocadinho aquém da fasquia imposta nos anos anteriores, soando um pouco a post-punk que facilmente ouviríamos noutro festival; e Aesthetic Perfection não foi a explosão de som que o Palco Corpo nos habituou desde sempre. Não obstante, estes “elos mais fracos” deram bons concertos e agradaram na mesma a uma boa fatia do público.

Por falar em público, pareceu-me este ano ver maior diversidade em tudo, a começar pela faixa etária: desde o “festivaleiro mais novo de sempre” até às já habituais crianças de todas as idades, os omnipresentes jovens e adultos, o que mais me surpreendeu foi ver mais idosos do que nos anos anteriores, vestidos a rigor, mostrando que a alma gótica não tem idade, apenas corpos que a vestem. A quantidade de t-shirts de bandas diferentes foi também impressionante: sem me esforçar muito, contei cerca de trinta, muitas delas repetidas, cerca de 1/3 de bandas que vieram ao Entremuralhas noutros anos, como Spiritual Front, Merciful Nuns ou Nitzer Ebb, mas também de ondas sonoras tão distintas como o Rock and Roll dos Motörhead, o metal gótico dos Cradle of Filth, o Black dos Corpus Christii, o Heavy dos Iron Maiden, o Doom dos Desire, o Death dos Opeth, o Industrial dos Rammstein, bandas nacionais menos conhecidas como Noidz e Onirik, clássicos góticos como Bauhaus e Siouxsie and the Banshees, e outros grandes nomes da música como David Bowie, Faith and the Muse e Ramones. Mas diversidade e criatividade, essa sim, foi manifestada sobretudo nas belas e cuidadas indumentárias que quase todos apresentaram, como poderão constatar na galeria de fotos abaixo.

Ambient #16

E antes de vos deixar com a análise do principal atractivo do festival, os concertos, apenas uma menção aos atractivos secundários. Não, não falo das sandes de porco (maldita seja a fila para satisfazer o pecado da gula!) nem das meninas e meninos bonitos no festival; refiro-me antes às já habituais exposições de arte, sempre com belos trabalhos, este ano com exemplos de poesia associada à pintura, desenho, fotografia, escultura e joalharia, das quais gostei especialmente da exposição intitulada A Morte Não Escolhe Núpcias II. No último dia, antes do primeiro concerto, houve também um desfile divertido, provocador e sensual de haute coutoure intitulado The Rococo Queen, presenciado por cerca de 150 pessoas e que aliou o desfile clássico à dança de forma sublime por três espaços distintos (que grande corropio entre os fotógrafos!) durante os seus vinte minutos de duração, numa bela escolha de banda sonora francesa a cargo do Carlos Matos. Por fim, as projecções de filmes na Torre de Menagem, nunca com mais do que quatro ou cinco curiosos por lá, mas sempre impressionante de ver.

Os The Legendary Pink Dots foram a Alma desta edição, os Hocico o Corpo e o Andrew King foi o padre que nunca tivemos nas igrejas desse mundo fora. Mas para saberem como foi ou reviverem tudo ao pormenor, nada melhor do que a análise detalhada a cada concerto que podem encontrar de seguida:

Dia 28: Ermo, Uni_Form, Iceage

Dia 29: Andrew King, Női Kabát, Oniric, Parzival, Holograms, Aesthetic Perfection

Dia 30: Allerseelen, She Past Away, Darkwood, The Legendary Pink Dots, O. Children, Hocico

 

Ambiente

 

Desfile The Rococo Queen

 
Texto por: David Matos
Fotografia por: Marina Silva

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