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Vodafone Paredes de Coura @ Praia Fluvial do Taboão, 20 a 23/8/2014

Quatro dias de felicidade no habitat natural da música

O Vodafone Paredes de Coura teve, em 2014, um ano recorde no que à afluência de visitantes diz respeito. Mais de cem mil pessoas passaram pela praia fluvial do Taboão entre 20 e 23 de Agosto, tendo, pela primeira vez, esgotado o último dia. O cartaz tinha nomes como Franz Ferdinand, James Blake, Beirut, Black Lips, Cut Copy, Chvrches, Mac Demarco e Janelle Monáe, e muitos mais. Estivemos lá e contamos como foi esta semana no Minho, nas margens do rio Coura. Mais do que uma reportagem dos concertos, fazemos o relato de como é a vida na vila durante o festival e como é viver uma semana de felicidade a norte.

No habitat natural da música, mergulha-se para o rio a treinar para os mergulhos do palco, há unicórnios a nadar, zebras no recinto e crocodilos no palco. Há um amor materializado pela música nas t-shirts, nos livros, nas guitarras e nos muitos quilómetros que se atravessam para um retiro num dos sítios mais bonitos de Portugal, ali mesmo junto à fronteira com Espanha. Uma fórmula de sucesso, que garante ao Festival Paredes de Coura um estatuto mítico e uma adesão anual favorável, onde o ambiente, mais do que a boa música apresentada nos cartazes, encabeça todos os motivos e mais alguns para uma visita.

À chegada, no final do dia 19, já vimos difícil a tarefa de encontrar espaço para as tendas, percorrendo às escuras o parque de campismo. Na vila, a rua principal fez-nos lembrar uma qualquer rua do Bairro Alto em noite de Santos, com decorações verdes penduradas sobre a calçada, muito movimento na rua, pessoas em todo o lado, e um palco ao fundo, que levou a música até à vila, nos dias antes do Paredes de Coura, para aqueles que quiseram não uma, mas duas semanas de festival.

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Dia 0 – Duas mulheres e um elefante numa teia de aranha

Uma das provas de que este seria um ano diferente no festival do Alto Minho foi a necessidade de transferir a recepção ao campista, tradicionalmente feita no palco secundário do recinto, para o palco Vodafone. Uma recepção com alinhamento de luxo, que incluía o furacão de Atlanta, Janelle Monaé. Mas, dado que apenas teríamos encontro marcado no recinto após a hora do jantar, foi dia de espreitar a animação na praia do Taboão, junto às margens do Coura onde a relva estava coberta de toalhas, a música tocava em plano de fundo, o sol brilhava e o tempo passava sem se dar conta.  E desde logo nos apercebemos que nos havíamos esquecido de um dos essenciais para circular em Paredes de Coura, à medida que o rio se enchia de barcos de borracha de todas as cores com pessoas alegremente remando lá dentro. A animação era muita, desde guitarras, a livros, cartas e, à falta de ocupação, era sempre divertido jogar uma espécie de beerpong, acertando com o gelo das cidras em copos de plástico.

Ouvimos durante a tarde o soundcheck dos Cage The Elephant, e a ‘Spiderhead’, do mais recente disco, era acompanhada por muitos dos campistas. Haveriam de, mais tarde, dar um dos melhores pontapés de saída para o festival, mas antes disso, veio a comandante da guerrilha cor-de-rosa, Capicua, que, em casa, no Norte, nos brindou com alguns dos temas do álbum “Sereia Louca“, sempre com M7 a seu lado e com um ilustrador em palco, a criar várias ilustrações para cada uma das canções. Um bonito barco trouxe-nos “Mulher do Cacilheiro”, mas ouvimos também “Mão Pesada”, “Sereia Louca” e ainda “Maria Capaz”, “Medo do Medo” e “Casa no Campo”, ainda do primeiro disco. “Vayorken” motivou uma correria ao palco e ditou o final do concerto.

Com uma bola de espelhos em palco e energia para dar e vender, chegaram os Cage The Elephant, banda norte-americana que já traz três álbuns de singles rock para pular e fazer a festa e que nunca havia, contudo, ter assentado pé em terras lusas. “Spiderhead” foi logo queimada ao início, bem melhor do que o “cheirinho” que havíamos tido durante a tarde. E se alguns não conheciam os Cage The Elephant, rapidamente ficaram rendidos às danças, às aproximações ao público e mesmo ao vocalista Matt Shultz que se mexe como um Mick Jagger dos 2010’s e que a dada altura se livra da camisa para se atirar livremente para o chão, para cima do público e para as costas dos companheiros de banda de forma um tanto ou quanto hiperactiva, à qual o público, ainda muito fresco, respondeu de forma positiva. Do primeiro álbum, uma máquina de singles, ouvimos “In One Ear”, “Ain’t No Rest For The Wicked” e “Back Against The Wall”. Ainda houve tempo para gritarmos “Aberdeen” a plenos pulmões e sermos apelidados da melhor multidão da tour europeia. Um regresso será certamente bem-vindo.

De regresso esteve também o furacão Janelle Monáe, um nome que já não é estranho para muitos, como uma das cantoras do novo R&B, e que arrebatou todos os tops com “Metropolis” e “The ArchAndroid”. Desta vez, no Minho, surgiu como uma confirmação inesperada, que colocou uma multidão a dançar com os temas do mais recente “Electric Lady”.  A indumentária branca reflectia as luzes no palco e a espiral no fundo relembrava-nos da capa do novo álbum.  Um espectáculo bem coreografado, à medida dos grandes recintos como o Parque da Bela Vista, mas que em Coura, arrebatou a multidão. Contudo foi “Tightrope” e “Cold War”, esta última como um apelo à paz, singles e sucessos do álbum de 2010, que mais entusiasmaram os presentes, bem como uma versão de “I Feel Good”, uma homenagem a James Brown, o rei da soul, género que tanto pauta os temas da cantora norte-americana.

Uma enchente no palco principal logo ao primeiro dia que se dissipou ligeiramente, apesar da música dos Public Service Broadcasting, que convidava a dançar, bem como o DJ Set dos australianos Cut Copy, um acerto de última hora, que inaugurou o palco Vodafone FM com várias escolhas dos músicos, como Disclosure e Caribou, o cansaço de muitos, que haviam chegado apenas nesse dia, prevaleceu.

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Dia 1 – De Paredes ao Mississipi vai um rio e muito blues

No primeiro (segundo) dia de Paredes de Coura, o estilo de vida era o mesmo. Sol junto ao rio, toalha estendida na relva e mergulhos ocasionais. Aos ouvidos chegou-nos o burburinho de que Seasick Steve, que subiria mais tarde ao palco Vodafone, andaria junto ao rio, já depois de termos visto fãs com t-shirts e guitarras manufacturadas. Decidimos levantar-nos e confirmar os rumores e lá encontramos Steve, com um pequeno grupo de fãs à volta, que, descobrimos posteriormente que criaram mesmo uma marca, a Lucky Stripes Guitars, tinha o intuito de oferecer a Seasick uma guitarra feita a partir de uma caixa de vinhos de madeira, com a qual o músico norte-americano acabou mesmo por tocar no concerto secreto que deu num celeiro, uma iniciativa promovida pela organização do festival com um dos artistas dos vários dias. De jardineiras de ganga, t-shirt branca esburacada e boné verde de John Deere, Steve falou um pouco com os fãs, surpreendido por os encontrar, testou a guitarra e elogiou o cenário que via.

Mas, antes de ouvirmos os blues de Seasick, ouvimos o blues-rock em português de Fast Eddie Nelson, vindo directamente do Barreiro para o Palco Vodafone FM. Um concerto energético e que se fez anunciar soando por todo o acampamento. Ainda chegamos a tempo de ouvir uma versão de “Come Together”, dos The Beatles, ao jeito mais blues e de voz arranhada de Nelson, antes de rumarmos ao palco principal para reencontrar o homem do chapéu da John Deere.

E ele lá apareceu em palco, com um baterista que, pela barba, bem que poderia ter vindo de “La Grange” com os ZZ Top, e com uma garrafa de vinho. E o que se seguiu foi uma lição de Guitar 101, com um desfile de exemplares únicos e artesanais, autenticas obras de arte, todas com nome marcado, feitos a partir de coisas como tubos de escape (um deles oferecido por Jack White), latas de cerveja e luzes de natal. E Seasick Steve deu um dos concertos-revelação desta edição de Paredes de Coura, que inspirou vários a fazer crowdsurfing e que colocou sorrisos nos rostos de todos com a sua história de vida e com o seu sotaque americano de Oakland fortemente vincado. Isto porque se a carreira de Steve é recente, tendo lançado o primeiro álbum apenas após ter completado 70 anos, a experiência de vida que retrata nas suas músicas é muita. “Diddley Bo” foi tocada com uma guitarra de uma corda apenas, sendo que ouvimos também “Don’t Know Why She Love Me But She Do” e “You Can’t Teach an Old Dog New Tricks”. “Walkin’ Man”, tema mais romântico, foi o mote para tirar uma rapariga da primeira fila e puxá-la directamente para cima do palco. Em jeito de brincadeira, com a boa disposição que marcou todo o concerto, Steve disse desejar ter menos 50 anos e disse aos presentes que agarrassem uma rapariga, também, em vez de baterem palmas. “Dog House Boogie”, já depois do anoitecer, fechou o concerto de uma forma tão explosiva que levou Steve a agradecer de joelhos ao público português, visivelmente impressionado e mostrando, claramente, que a idade é só um número e que tem energia para dar um concerto de blues rock capaz de nos deixar rendidos e boquiabertos.

Depois disto, foi difícil mergulhar na eterna rebeldia de Thurston Moore cujo instrumental, só de si, gritava Sonic Youth a plenos pulmões, ainda assim, uma passagem obrigatória, dada a formação de luxo em palco, com Steve Shelley (também dos Sonic Youth), Debbie Googe ( dos My Bloody Valentine) e James Sedwards (dos Nought). Ouvimos alguns temas de “The Best Day”, álbum a ser lançado em breve, antes de rumarmos para um dos concertos mais esperados pela sua imprevisibilidade: o do canadiano Mac DeMarco. De boné branco da Viceroy ao contrário e uma t-shirt de Elton John, subiu ao palco com a banda que tratou desde logo apresentar. “Salad Days” e “The Stars Keep On Calling My Name” iniciaram um concerto que marcou pela diferença, mais não seja ela postura um tanto ou quanto despreocupada e até desmazelada de Mac DeMarco que teve tempo de pedir cigarros aos fãs, beber whisky e até passar batom vermelho pelos lábios. Uma postura descontraída, e de brincadeira, na palhaçada, que lhe fica bem e entretém os presentes e nos deixa a pensar no que se seguirá. Sem dúvida um concerto diferente e memorável. Ainda assim, musicalmente, não falhou mostrando-nos o porquê dos seus álbuns “2” e “Salad Days” serem tão aclamados. Ouvimos “Treat Her Better”, “Cooking Up Something Good”, “Brother” e “Let My Baby Stay”. “Jammin’”, para os fãs de reggae e Bob Marley, foi a desculpa para trazer a primeira fã ao palco, que por lá ficou até ao final do concerto. Sim, dizemos a primeira porque o palco foi ficando cheio, como se existisse um cordão entre o público e o palco, por onde os fãs iam subindo e recheando o palco. “Chamber of Reflection”, cujo vídeo foi lançado recentemente, ficou para o fim, sendo “Still Together” a despedida para tirar fotografias com os fãs em palco, beber mais um pouco e atirar-se de cabeça, num mergulho para o público, sendo levado em braços, juntamente com outro fã, com quem ia travando conhecimento. Um final para um concerto inédito, que marcou o regresso do canadiano ao nosso país.

Antes dos Franz Ferdinand houve tempo para repor os níveis de adrenalina com Thee Oh Sees, cujo garage rock puxou muito pelas filas da frente do palco Vodafone FM, mas falhou em contagiar os que se encontravam mais cá para trás e os CHVRCHES, o trio escocês de synth-pop que fez a sua estreia em Portugal para apresentar o seu primeiro e único álbum “The Bones of What You Believe”. Apesar da doce presença de Lauren Mayberry, o palco dava a impressão de estar demasiado vazio e os apenas nove temas, dos 14 do álbum, pareceram insuficientes, dado o horário e posição que lhes havia sido atribuídos. Ainda assim, músicas como “We Sink”, “Recover”, “Science/Visions” e “The Mother We Share”, este último a ganhar contornos quase angelicais na voz, soaram frescos como a noite e abriram o apetite para o momento rock n’ roll que se seguiria.

O dia ia longo, mas, independentemente do dia ter sido de blues e de Mac DeMarco ter dado um concerto inesquecível,  a noite foi claramente dos Franz Ferdinand, a primeira confirmação do festival. Os também escoceses, que já não são propriamente meninos nestas coisas e que sabem como nos dar uma descarga enérgica, apresentaram um concerto de 21 músicas, em formato de “Best of” e que já incluiu alguns dos temas do mais recente registo. Não somos fãs do registo best of só por si, mas este, e perdoem-nos a expressão, soube que nem ginjas. «Words», «Thoughts» e «Action» decoravam as caixas dos amplificadores dispostos em palco. A antecipação pelo regresso era muita e logo ao início de “No You Girls”, uma das poucas de “Tonight: Franz Ferdinand”, a par de “Ulysses” e “Can’t Stop Feeling”, a entrar no alinhamento, foi levantada uma nuvem de poeira, dos milhares que em conjunto dançavam, pulavam e cantavam. Uma fórmula de sucesso com músicas que já entraram para a história como “The Dark of the Matinée”, “Do You Want To”, “The Fallen”, “Auf Achse”, “Michael” ou “Take Me Out”, a canção mais entoada pelo campismo fora.

Uma visita à carreira da banda, que continua sempre tão enérgica ao vivo como da última vez que os havíamos visto. O novo álbum, que simbolizou um regresso ao que os Franz sabem fazer e bem, depois de um “Tonight” bom, mas aquém do que estamos habituados, resultou bem ao vivo, com “Right Action”, “Evil Eye”, “Stand On The Horizon” e “Bullet” a terem uma recepção praticamente tão calorosa quanto as anteriores. “Outsiders”, tema que encerra o segundo álbum da banda, “You Could Have It So Much Better”, reuniu os quatro músicos em frente da bateria, uma forma de interagir como público através de pausas para ouvir os gritos e palmas. O encore seguiu-se então com “Jacqueline”, “Darts of Pleasure” e “Goodbye Lovers & Friends”. «Calhava bem, mas isto ainda não é o adeus» referiu Alex Kapranos, lançando-se para uma explosiva “This Fire”, com direito a um guitarrista Nick McCarthy trepador de grades, prolongada até à exaustão por uma multidão fiel de fãs que não queria deixar os Franz Ferdinand sair do palco. Um bom concerto, talvez dos melhores, de uma das bandas mais coesas do britpop dos 2000. A música prosseguiu pela noite fora no palco Vodafone. FM, mas muitos ouvidos, como os nossos, confessemos, estavam já cheios.

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Dia 2 – Luzes, música, lábios negros e apatia

O dia dois começa (adivinham?) junto ao rio e ao palco jazz na relva, onde os Torto nos brindavam com os belíssimos instrumentais que exultam o experimentalismo e combinam com o sol quente que vai torrando a pele de todos os que ali param. Os barcelenses Killimanjaro trouxeram ao palco Vodafone as suas malhas muito inspiradas no rock clássico dos Black Sabbath ou dos Zeppelin, retiradas do seu único álbum até à data, “Hook”. Ainda assim, o público não teve especial reacção a este ímpeto de fazer levantar poeira. Infelizmente, a apatia neste dia a modos que continuou até à chegada dos cabeça-de-cartaz e, posto isto, são dois os underdogs que temos a nomear.

Primeiro, os Buke & Gase, um dos nossos dez motivos, que, injustamente sofreram com as tentadoras horas de calor e começaram o concerto, em que apresentaram o mais recente “General Dome”, o segundo disco do duo de Brooklyn, com uma multidão consideravelmente pequena. Ainda assim, Arone Dyer e Aron Sanchez, que viveram Paredes de Coura ao ponto de acampar na praia fluvial do Taboão, conseguiram contagiá-la sem sequer se terem de levantar das cadeiras, dando aquele que foi certamente um dos melhores concertos do dia. As pessoas foram-se sucessivamente aproximando e os graves acentuados, conseguidos através do híbrido baixo/guitarra de Sanchez, que também tinha o bombo a seu cargo, eram um estímulo cuja resposta se traduzia nos nossos pés, que batiam fortemente no chão. “Houdini Crush” e “Hiccup” deram início e seguimento a uma sucessão de faixas que encaixavam na perfeição. Existe, entre Aron e Arone, um jogo, quer nas trocas de olhares e sorrisos que adivinham e combinam os passos a seguir, quer no ping pong entre os graves de um e os agudos do ukelele de seis cordas da outra, que nas percussões estava a cargo da pandeireta. A simpatia da vocalista Arone Dyer conquistou, assim como a enérgica performance. Durante o curto concerto ouvimos ainda a faixa que dá o nome ao mais recente álbum, bem como “Split Like A Lip, No Blood On The Beard”. Uma performance digna de estatuto de revelação, certamente e que nos deixa, por essa mesma razão, a aguardar um regresso.

O segundo underdog da noite foi Conor Oberst, que, apesar dos anos de história na cena indie com os Bright Eyes soou a desadequado no contexto do dia e até incompreendido por muitos, dando lugar a um escoamento da já pequena plateia para outros cantos do recinto. O músico, acompanhado pelos Dawes, que haviam iniciado o dia no palco secundário, esbanjou simpatia e ainda conseguiu estabelecer alguma ligação e empatia no público ao dedicar “Old Soul Song (For the New World Order)” às suas duas amigas portuguesas que têm um bar em Nova Iorque.

Mas, horas antes, naquele mesmo palco, havia estado uma outra banda portuguesa. Os Linda Martini já referiram muitas vezes que se sentem «em casa» em Coura e não é mentira que tiveram uma casa cheia para os receber. Ainda assim, a apatia vista nos Killimanjaro prosseguiu, mesmo após desferirem malhas como “Estuque” e “Nós os Outros”,  ainda que Hélio Morais, que orgulhosamente vestia uma t-shirt a dizer «I <3 Vayorken», tivesse picado uma fã que lhe pedia uma baqueta com um cartaz onde se lia «Dá-me o teu melhor pau». Ainda assim os quatro não deixaram de ser acarinhados pela multidão parada, tendo  temas como “Volta”, “Panteão”, “Febril (Tanto Mar)” e claro “Ratos”, do mais recente “Turbo Lento”, tido direito a manifestações subtis por parte de alguns fãs.  Para o fim ficaram “Juventude Sónica” e “Cem Metros Sereia”, esta última com direito a stage dive do baterista e ainda uma inesperada e muito aplaudida “Lição de Voo nº1”. Fica a nota de um público parado, num concerto onde o crowdsurfing, tão praticado em vários concertos, é bem-vindo e apreciado.

No palco Vodafone.FM, os  Yuck , mesmo sem Daniel Bloomberg, motivaram uma enchente e fizeram-nos regressar ao rock alternativo dos anos 90,  com as suas músicas dançáveis a puxar para o pop. Celebrámos “The Middle Sea” e ainda ouvimos músicas como “Get Away” ou “Georgia”. Contudo, apenas em Perfect Pussy é que os demónios foram exorcizados e, dado o pouco entusiasmo e energia registados, entrámos numa nova realidade e demos por nós no meio do maior moshpit de Coura’14 e de sucessivas wall of death. O concerto, a apresentar o álbum de estreia “Say Yes to Love”, foi como um murro no estômago, com Meredith Graves, na frente de palco, assertiva, a comandar os movimentos de um público sedento de uma violenta brutalidade. A «bomba» rebentou em menos de 30 minutos, deixando a todos os presentes, no final do concerto, ofegantes e meio que atordoados. No final, a sensação de que foi um dos concertos mais enérgicos e o  abanão que era necessário para «acordar».

Dos primeiros cabeça de cartaz do dia, os Black Lips, banda norte-americana que faz questão de não sair da garagem, esperávamos festa rija, já que é o que se promete ao vivo. A banda, que lançou o primeiro álbum há mais de dez anos, mostrou-se relativamente controlada, e empenhada,  tendo sido a folia muito feita pelos fãs. Ao longe, a visão do cenário passava muito por rolos de papel higiénico a voar pelos ares e muitos balões coloridos. Com o garage rock da banda, voltou o crowdsurfing enquanto ouvíamos temas como “O Katrina”, “Family Tree” ou até “Boys in the Wood”, do mais recente álbum “Underneath the Rainbow”. “Bad Kids”, tema que dava música a muitas das imagens captadas no campismo durante o dia e que passavam nos ecrãs junto ao palco, foi, sabiamente, guardada para um final em grande. Ainda assim, os Black Lips falharam em cativar uma grande plateia, sendo muitos os que passeavam pelo recinto ou se concentravam junto da zona da restauração.

Os australianos Cut Copy, mesmo vindo do outro lado do mundo, não são estranhos do público português e têm já uma carreira muito sólida no campo da música electrónica. Depois de se terem divertido a tomar as rédeas da inauguração do palco secundário, chegou a vez de brilharem por conta própria no principal. Ainda assim, o dia frio de concertos pouco coesos entre si, afastou muitos que não quiseram dar oportunidade à electrónica do quarteto de Melbourne, mesmo com Dan Whitford a puxar pelos dotes de dançarino dos presentes. Ainda assim, muitos ficaram para as músicas de fusão que quer têm o carácter frio da electrónica europeia e o entusiasmo dos 80s, como o clima tropical de outros destinos mais quentes. “Free Your Mind”, escrito no ecrã de fundo do palco, foi o cartão de visita nesta cerimónia, mas, apesar da boa resposta da audiência, foram os êxitos de “In Ghost Colours”, como “Hearts On Fire” e “Lights and Music”, servida à sobremesa, que entusiasmaram o público e deram à banda de Whitford a resposta merecida. Algo que faltou num dia um tanto ou quanto adormecido e a meio-gás.

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Dia 3 – Um mundo na palma da mão

Em Paredes de Coura, um dos essenciais é um grelhador. Em todo o lado, nas margens do rio, vemos cozinhas improvisadas e belos bifes grelhados no pão. Infelizmente, nós, pouco experientes nestas coisas e com medo de que a comida se estragasse na viagem, desconhecíamos o facto de, em Coura, cada tenda ter direito a um «frigorífico», já que o frio que se fazia sentir à noite reflectia-se no garrafão de água, agora fresca, que tínhamos todas as noites na tenda. Por isso, ao terceiro (quarto) dia de Paredes de Coura, decidimos largar o delicioso manjar que são as conservas de atum em óleo vegetal e rumar mais uma vez até à vila, em jeito de despedida e para perceber também como se vive nesta durante o festival. Encontrámos inúmeros cafés e esplanadas cheios. Pessoas a beber café e a ler o jornal, outras sentadas junto a um rapaz que, tocava uma bela versão da “Postcards From Italy”, que, neste momento, já traz uma certa nostalgia.

No meio disso tudo, descobrimos que há um CCB em Coura – sigla para «Café Com Broa», lamentamos desde já a desfeita – com boas refeições e petiscos a preços acessíveis e descobrimos vários eventos paralelos ao festival Paredes de Coura, como uma festa, com os Gin Party Soundsystem, grupo que satiriza os chamados «DJs com pen», que ganharam um concurso até para subir ao palco Clubbing do Alive, que lotou o pequeno bar Xapa’s, um dos primeiros da rua principal, fazendo subir a temperatura no interior do bar para quase 40ºC e com direito a muita bebida, crowdsurfing no interior e até comboios que saiam para o exterior do bar, rondavam a esplanada, e voltavam a entrar. Uma desculpa para ouvir os chamados guilty pleasures musicais ou mesmo aquelas músicas azeiteiras que uma geração de “Nows”, de “Bomba Brasil” e “Summer Jams”, sabe na ponta da língua. Deambulando pelos caminhos da vila descobrimos ainda vários stencils com os “Ratos” de Linda Martini bem como graffitis, estes já não tão bonitos, que marcavam a efeméride Paredes de Coura 2014.

Mal o sol começou a dar mostras de que se querer esconder, rumámos novamente ao recinto. O início do terceiro dia, o único esgotado desta edição, fez-se com melodias electrónicas em português. Se de um lado tínhamos a voz doce e ritmos pop de Sequin, do outro tínhamos a ligeireza e descontracção de Sensible Soccers. Começámos, dada a nossa lista de motivos para se deslocar até à praia fluvial do Tabuão, pelo palco Vodafone.FM, onde Ana Miró já tomava conta dos sintetizadores e nos dava música para refrescar ao final da tarde. E podemos dizer que a ronda de festivais lhe fez muito bem pois Sequin é agora um projecto mais forte e capaz de mover bastantes até à outra ponta do recinto, diferente da primeira vez que nos cruzámos com Ana, na primeira parte do concerto de Warpaint, na Aula Magna. Deixamo-nos apaixonar pelas recentemente adquiridas acolhedoras linhas de baixo, pelo menos no formato ao vivo, e acolhemos os temas de “Penelope” como “Heart To feed”, “Flamingo”, uma “Naive” que se cola à nossa garganta e aos nossos pés e uma “Beijing” para a despedida do curto concerto, com Ana Miró a agradecer ao público que ultrapassou as suas expectativas e a prometer um regresso. No outro lado do recinto, ainda fomos a tempo de apanhar a contagiante “Sofrendo por Você”, com um invasor de palco em calções apenas, dançando alegremente e arrancando risos ao público.

Contudo, a dança não foi potenciada ao máximo, já que o início de tarde é mais propício a beber um fino e sentar na relva a aproveitar os últimos raios de sol, do que a dar tudo na pista. Kurt Vile & The Violators  com a sua mistura de folk e lo-fi, desta feita potenciada pela banda que o acompanha nos palcos surgiu então como a resposta a estas vontades, num regresso a Paredes de Coura três anos depois, com a maioria das pessoas alegremente sentadas a absorver  as músicas de “Wakin’ On A Pretty Daze”. E foi a primeira música do seu último registo mesmo que começamos por ouvir, deixando-nos levar por uma longa “Wakin’ On A Pretty Day”. E as músicas seguiam-se, com pouca interacção entre banda e público e com o sol ainda a brilhar e a reflectir-se nos copos de cerveja nas mãos de muitos. Toda uma combinação que acabou por chutar um potencial concerto de um artista já com vários álbuns a apresentar, para um concerto de final de tarde, com a música a ter um papel secundário e muitas outras actividades a sobreporem-se às belas melodias. Ouvimos “A Girl Called Alex” em acústico e ainda “KV Crimes”, música mais extensa e com uma aura mais psicadélica. De “Smoke Ring From My Halo” escutámos “Puppet to the Man”, “Jesus Fever” e ainda “On Tour”.

Um público que contrastou em grande escala com aquele que recebeu os norte-americanos The Growlers que se revelou, passando a expressão, animalesco. Não só pelos fãs vestidos de animais de mergulhavam do palco, como pelos elementos da banda, alguns deitados em palco. Um surf rock psicadélico que nos levou do norte de Portugal para a Califórnia dos anos 60. Ouvimos temas como “Somedays”, “Naked Kids” e “One Million Lovers” e “Graveyard’s Full”. Um bom aperitivo para o resto na noite no palco principal com Beirut e James Blake, dois dos nomes mais esperados. Apesar da animação e da festa em palco, o regresso, a acontecer, teria de ser num palco mais pequeno.

Voltamos então ao palco secundário. Ainda espreitámos o concerto de The Dodos para testemunhar a folk que nasce quando se junta o experimentalismo de Logan Kroeber e o country blues de Meric Long. Com quatro álbuns na bagagem e uma paragem por Coura para apresentar o quinto “Carrier”, os Dodos sofreram com a hora e o dia em que estavam inseridos, um pouco tal como Conor Oberst. Ainda ouvimos “Confidence” e partilhámos um pouco do entusiasmo das filas mais à frente. Já o ex-vocalista de The Walkmen, Hamilton Leithauser, não esconde a mestria enquanto figura central em cima do palco e fez questão de referir o seu amor por Lisboa, que deu nome, inclusivamente, a um dos álbuns da sua antiga banda.  Contudo estamos no Minho, a banda é outra e os amores também, ainda que a voz seja muito familiar. Do recentemente lançado “Black Hours” ouvimos o tema “Alexandra”, que já conhecíamos de ouvir pela rádio, e “11 O’Clock Friday Night”. Um registo mais parado, mas que ainda atraiu bastantes festivaleiros movidos pela curiosidade de ver a nova aposta do antigo vocalista de uma banda já bem conhecida do público português e também uma certa forma de matar saudades do grupo, que entrou em hiato no ano passado.

Mais tarde, no mesmo palco, vimos aquele que foi garantidamente um dos concertos que marcou pela a diferença e senão um dos melhores concertos do festival. Batidas africanas, ritmos meio psicadélicos e pesados, didgeridoos e máscaras de Veneza, uma grande combinação de elementos que mesmo assim não chega para definir os Goat. São suecos, «de uma pequena e remota aldeia na densa e escura Suécia» – Korpolombolo – como se definem no seu blog oficial, mas acreditaríamos em qualquer outra nacionalidade que nos tentassem «vender». Lançaram “World Music” em 2012 e desde aí fizeram as delícias de muitos em todo o mundo pela sua música quase impossível de rotular, por muito que tentem. Nós tentámos e apenas podemos dizer que é música transcendental, um bruxedo que nos faz mexer os braços e as pernas como se fossemos meras marionetas. Com um palco Vodafone.FM a rebentar pelas costuras, o grupo veio apresentar o novo álbum, prestes a ser lançado “Commune” e cativou muitos com o impacto visual das danças quase tribais, muita luz, cor e músicas como “Talk to god”, a primeira que ouvimos. Do novo álbum ouvimos ainda “Hide from the Sun”, a primeira a ser divulgada. E não faltaram, claro “Goatman”, “Det som aldrig förändras / Diarabi” e “Let it Bleed” e “Run to your Mama”, estas últimas que movimentaram ainda mais o público, como se tal fosse possível. Nem a falha no fundo do Mac que projectava os fundos do concerto foi capaz de romper tal estado de transe. Foi também no final desta última que nos vimos obrigados a sair de um dos melhores concertos de todo o festival para o próximo concerto.

E se andámos um pouco perdidos na geografia no que diz respeito aos Goat, não podemos dizer o mesmo do colectivo de Zack Condon, Beirut. Do Líbano às Balcãs ainda vai um bocadinho mas foi lá que nos sintonizámos para um dos mais bonitos concertos desta edição, com o público a aderir em massa às músicas que o norte-americano dedilha no ukelele. Sabemos que são uma das bandas queridas do público português, mais não seja, pelo burburinho chegado em torno da confirmação do seu regresso, mas muito em parte se deve à rendição que Zack Condon faz da música “Leãozinho” de Caetano Veloso, uma bela canção de embalar que marcou diferentes gerações, de carácter intemporal, e que foi pedida em plenos pulmões pelos fãs durante o concerto. “Vagabond”, do último álbum lançado, deu início a um espectáculo onde a orquestra de Santa Fé gerou ondas e uma certa agitação marítima na plateia do Paredes de Coura, que balançava da esquerda para a direita, ao som das notas das músicas que já conhecemos e dessa forma percorremos os vários álbuns de Beirut, ao longo de mais de uma hora e meia, período em que muitos fechavam os olhos e outros tantos colocavam os braços no ar. De “The Rip Tide” ouvimos também “East Harlem”, “Santa Fé” e “A Candle’s Fire”. Mas foram já as incontornáveis “Elephant Gun” e Scenic World”, assim como “Postcards From Italy”, entusiasticamente aplaudida logo a partir do momento que Zack Condon pegou no ukelele , que foram cantadas a plenos pulmões, de coração apertado e voz embargada pelo entusiasmo. “The Akara”, uma fanfarra mais acelerada, destoou do registo mais calmo até então, bem como “Cherbourg”, “A Sunday Smile” e “Nantes”.

Atendendo aos pedidos, o compositor com o mundo na palma da mão, desde o Leste europeu ao México, não esquecendo a soalheira Santa Fé de onde é originário, parou no Brasil para sussurrar um pouco de “Leãozinho”. Ainda assim, a tentativa é sempre apreciada e muito aplaudida, especialmente quando falamos de Beirut, que tem vindo, ao longo dos anos, a ganhar uma devoção sem igual. Devoção essa que moveu os presentes para “The Penalty”, que deixou uma fã junto a nós de lágrimas nos olhos, tendo antes passado ainda pela inconfundível “Gulag Orchestra”. Zack Condon e a sua banda agradeceram muito e acenaram. Uma despedida que custou e uma espera a acumular até ao próximo regresso.

O segundo cabeça de cartaz da noite, que motivou uma migração a norte,  foi uma das grandes revelações dos últimos anos a partir do momento em que chegou aos ouvidos do grande público. Em Coura, materializou outro dos slogans do festival – «Traz amor». À nossa volta, casais aninhados no embalo das melodias doces de James Blake, mais não seja, pelo frio que se fazia sentir naquela que foi uma das noites mais geladas do festival. A aura introspectiva e intimista de Blake, de apenas 25 anos, não incluiu a todos na sua bolha, sendo que mais para trás muitos festivaleiros estavam dispersos e alheios à electrónica, pautada com elementos R&B e dubstep, que nos estava ali a ser servida de bandeja. Ainda assim, o espectáculo funcionou surpreendentemente bem em festival, com as árvores e o anfiteatro natural de Coura, a conjugarem-se na perfeição com a média luz em cima de palco. «Este cenário é lindo, acho que vos consigo ver a todos», disse James Blake mesmo antes de começar o concerto. A apresentar o mais recente “Overgrown”, ouvimos o tema que dá o nome ao álbum e dançámos com “Digital Lion”, “Voyeur” e “Life Round Here”, uma sequência que fez largar mãos e mexer os pés.  Do álbum homónimo, ao início, ouvimos desde logo “I Never Learnt to Share” e as “Lindisfarne” I e II que colam na perfeição.

Outra das qualidades de James Blake que apreciámos, e que, para muitos, foi o cartão de visita ao trabalho do produtor britânico é a sua capacidade de interpretar e dar novas roupagens a músicas de outros, dando versões muitas vezes até mais cativantes do que o original. Ouvimos “Limit to Your love”, ainda com Feist bem presente, “A Case of You”, uma bela homenagem a Joni Mitchell que, no cenário de Coura, com luzes reflectidas nas árvores, nos deu arrepios, apertos no coração e vontade de fechar os olhos e ouvir apenas a voz de Blake, e também “Hope She’ll Be Happier”, que conhecemos na voz de Bill Withers. “Retrograde”, uma das grandes faixas do mais recente registo de Blake, disferida como um golpe depois da versão de Withers, teve direito a uma participação acidental do público nos loops que introduzem o tema, o que levou a um “entusiasmo em repeat” que deu um efeito caricato que ainda despertou algumas gargalhadas. Para o fim ficaram “The Wilhelm Scream” e “Measurements”, esta segunda com Blake, divertido, a pedir ao público que não participasse nos seus loops desta vez, coisa que apenas foi possível à quarta tentativa.

Mas a noite não ficou por aqui já que, após o concerto, James Blake foi juntar-se aos companheiros Dan Foat, Airhead e Mr. Assister, para uma actuação do projecto 1-800 Dinosaur, que começou como um entretenimento num conjunto de “after-parties” após a digressão de James Blake, com direito a uma adesão em massa dos festivaleiros, que dançavam ao som das melodias, agora mais mexidas, para evitar o frio que se fazia sentir.

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E assim terminou mais uma edição do festival minhoto. Deixámos Coura já com as datas para o ano seguinte prontas a assentar na agenda e rendidos à maravilhosa paisagem verde, às águas frias e translúcidas do rio e à simpatia dos locais sempre prontos a ajudar. Mas não fomos os únicos já que Seasick Steve, inclusivamente passeou-se pelo campismo e desfrutou dos ares junto ao rio, apelidando Paredes de Coura como um dos festivais mais bonitos onde havia tocado, o mesmo com Buke & Gase, que pernoitaram no festival, no acampamento Sleep ‘em All, os Beirut, que aproveitaram para um mergulho no rio, e James Blake, que elogiou o fantástico anfiteatro natural, e mesmo dos portugueses que não falámos, já que, tanto os Linda Martini como a Capicua, mesmo Fast Eddie Nelson, Killimanjaro, Sequin ou Sensible Soccers conhecem bem e testemunharam certamente por variadas vezes esta pérola a norte. Até para o ano!

Texto e fotografia: Rita Bernardo

 

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