Noiserv #16

Fruto de imprevistos e do tempo considerável na fila para levantar a acreditação, quando a equipa da Ruído Sonoro entrou no recinto do Fusing neste primeiro dia, já Noiserv ia na terceira música no Palco Experience, “Today Is The Same As Yesterday, But Yesterday Is Not Today”, tendo antes tocado “Mr. Carousel” e “The Sad Story Of A Little Town”. A plateia era composta por menos de 100 pessoas, número que, apesar de ter aumentado com o decorrer do concerto, nunca foi suficiente para o que a mestria do multi-instrumentista David Santos merecia, criando loops com diversos instrumentos e voz com uma naturalidade surreal. Antes do “Palco do Tempo”, momento alto do concerto num público algo apático e parcialmente desinteressado, Noiserv afirmou “estar um briol”; de facto, o forte vento que se fazia sentir começava a incomodar, algo que aliado ao frio que se acentuou com o decorrer da noite acabou por ser o principal aspecto negativo do dia. O concerto foi mágico, com ajuda do cenário que se impunha: serenidade ao pôr-do-sol, boas luzes no palco e algumas pessoas a dançar suavemente embaladas por “I Was Trying To Sleep When Everyone Woke Up” e pela irónica “Bontempi”. O músico despediu-se com “Don’t Say Hi If You Don’t Have Time For A Nice Goodbye”, não sem antes referir que, quando questionado sobre o facto de no ano anterior ter tocado no palco principal e este ano no secundário, ter respondido “a vista deste palco é melhor”.

For Pete Sake #10

Seguiram-se os For Pete Sake, a quem coube estrear o Palco Fusing nesta 2ª edição do festival. Com cerca de duas centenas de pessoas no início do concerto, a banda deu um espectáculo de alegria e energia positiva contagiante, que se reflectiu na atitude do público, desta vez dançando sem preconceito. Com um bom jogo de vozes entre os irmãos Sacchetti, Pedro e Concha, aliados a um instrumental decente e com pedaços muito interessantes, se bem que por vezes perdendo-se nalgum experimentalismo, o conjunto lisboeta teve os pontos altos no segundo tema, “House”, e no quinto, “Got Soul”, este último o principal impulsionador da carreira da banda, se bem que me pareceu dos temas menos interessantes musicalmente da setlist. Concha Sacchetti foi de resto o grande foco de toda a atenção, não só pela bela voz mas pela efusividade e simpatia manifestadas em palco. Uma banda com uma carreira promissora, que justificou a honra de estrear o grande palco.

First Breath After Coma #06

Enquanto o palco principal vibrava, no secundário começaram a ouvir-se, a partir das 21:30, os primeiros acordes do concerto dos leirienses First Breath After Coma. A banda aproveitou o espectáculo sobretudo para promover o seu trabalho de estreia, “The Misadventures Of Anthony Knivet”, do qual tocou temas como “Knivet”, “Punch The Air” e o single de abertura do álbum “Shoes For The Man With No Feet”. Cerca de uma centena de pessoas assistiam no início ao post-rock calmo e sonhador da banda, número que aumentou significativamente após o final do concerto de For Pete Sake. A iluminação do palco esteve de acordo com a presença da banda: tímida, algo escondida, sem grande pompa. Mas se a atitude por si só não prendeu o público, ainda que com algum bom humor ao referirem que já sonhavam tocar no Fusing desde o ano passado, a grande atmosfera dos temas sim, como a cover dos M83 “Wait” e sobretudo “Escape”, com que se despediram em grande estilo e mostrando uma banda jovem muito ambiciosa e promissora. Uma excelente adição ao cartaz do Fusing!

Capicua #03

E se até aqui tivemos apenas bandas nacionais mas com o inglês na boca, com o sotaque fortemente portuense de Capicua as coisas mudaram. Actuando no palco principal cerca de vinte minutos depois das dez, foi protagonista de um dos momentos altos do festival, com uma das maiores enchentes de público na Figueira da Foz. “Isto é um concerto rap”, disse Ana Matos Fernandes; acompanhada pela M7 na voz e pelo DJ D-One, Capicua parecia estar sozinha em palco, tal era a energia que transmitia e ofuscava os demais. Apresentando o seu novo disco Sereia Louca, do qual tocou, entre outros, o tema título, “Lenga” e “Mão Pesada” (esta última dedicada a todas as mulheres na plateia), a actuação ficou marcada pela típica crítica social omnipresente no rap (“eles têm medo de que não tenhamos medo”). Tocando também temas mais antigos como “Maria Rapaz” e “A Última”, os pontos chave do concerto foram “Vayorken” e com os temas de rap puro, a capella, como “Jugular”. Um nome no rap que parece ter vindo para ficar.

Sensible Soccers #21

Seguiu-se a vez do Palco Experience ter finalmente uma quantidade de público digna do espaço, quando às 23 horas os Sensible Soccers abriram as hostilidades. Se a indumentária da banda e a quantidade de tabaco consumida em palco não deixaram a melhor das impressões, a verdade é que as músicas, essas sim, levaram os presentes numa viagem instrumental, experimental, dançável e mística. Foi um concerto com tanto estilo no som que, apesar de ser noite cerrada, havia quem usasse óculos de sol na plateia! Com um toque sublime de guitarra a uma sonoridade maioritariamente electrónica, destacam-se faixas como “AFG”, “Ulrike” e a épica “Sob Evariste Dibo”. Pena é que com esta grande sonoridade a banda não aposte em montar um espectáculo mais visual do mesmo nível, ganhavam eles e o público. Ainda assim, terceiro concerto no palco secundário, terceiro momento de magia, cada um a seu estilo, mas revelando bom gosto na escolha do cartaz.

You Can´t Win Charlie Brown #42

Se até aqui os concertos tinham começado sempre à hora prevista, mais minuto menos minuto, algo que se verificou também nos outros dois dias do Fusing, a verdade é que o concerto dos You Can’t Win Charlie Brown e todos os que se seguiram nesta noite atrasaram em média meia hora. A tarefa que se impunha, conquistar o público depois de Capicua, era gigante. Valeu aos lisboetas um espectáculo bem montado, com um excelente jogo de luzes, vozes afinadas, excelente pormenores técnicos e uma sonoridade rica em detalhes, que transportaram quem assistia a um mundo psicadélico de indie, electrónica e folk. De salientar não só este ser o segundo concerto de Noiserv no festival, que subia assim aos dois palcos, mas também este ser o terceiro do dia do baterista Tomás Sousa, que ainda iria dar um quarto mais tarde em Lisboa! Apesar de momentos mágicos como em “After December” e na cover surpresa do tema “Heroin” dos míticos The Velvet Underground, o público nunca foi muito efusivo e acabou mesmo por dispersar na parte final do concerto. Os que ficavam, esses, pareciam hipnotizados pela banda, abanando a cabeça a um ritmo constante.

Slow Magic #28

Os Sensible Soccers já tinham ameaçado, mas foi com o primeiro (e último) espectáculo internacional do dia que a electrónica assaltou por completo o Palco Experience. O enigmático norte-americano Slow Magic, na sua inconfundível máscara que representa um animal imaginário, deu o concerto mais intenso da noite naquele palco, um momento de pura festa e dança entre os presentes. O incansável artista “violava” dois timbalões em palco, chegando mesmo a levar um deles para o meio do público e tocar aí mesmo, gerando excelentes reacções e fazendo os telemóveis com câmara de filmar sair do bolso. “Youths” foi o melhor momento na setlist, num festa tribal que os presentes não esquecerão tão depressa.

Primitive Reason #17

Já a noite ia longa quando os cabeça de cartaz do primeiro dia trouxeram o único toque de ska, reggae e hardcore de todo o festival. Falamos claro está dos únicos e aclamados Primitive Reason, que trouxeram energia e loucura em dose industrial. Grande ambiente em palco e no público, com uma presença invejável do vocalista. Foi uma autêntica mixórdia sonora e temporal, com a banda a tocar temas antigos, como o grande êxito “Shadow Man” ou “Hipócrita”, intercalados com temas do novo álbum Power To The People, dos quais se destacam “Set Your Ash Down” e “Seeds Among The Rain”. Se a popularidade da banda já viu melhores dias, a forma como são recebidos ao vivo parece continuar em altas, fechando assim o palco principal com doses bem distribuídas de alegria, peso, dança e boa disposição.

White Haus #33

Seria no Palco Experience que a noite viria a fechar com o DJ Trikk. Mas antes foi a vez dos White Haus darem um concerto algo estranho e atrapalhado em palco, apesar da boa sonoridade de punk e eletrónica, algures entre Kraftwerk e David Bowie. O projeto a solo de João Vieira dos X-Wife parece resultar bem em estúdio, mas tal como o próprio chegou a admitir, não foi pensado para ser tocado ao vivo, e as coisas parecem não resultar tão bem. O resto da banda pareceu desligada do músico e a voz distorcida nem sempre encaixa bem no som, apesar de momentos deliciosos em músicas como “How I Feel” e “No Mistakes”. Fica o registo de um concerto que soube a pouco, mas de um projecto interessante musicalmente.

 

 

Dia 15 (Capitão Fausto, Cícero, peixe : avião, Norton, +)

Dia 16 (Paus, The Legendary Tigerman, Dead Combo, Fachada, +)

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