De um lado Portugal, do outro os Estados Unidos. Foi este o tema da vigésima segunda noite do passado Junho no Hard Club. Frente a frente, dois países: de um lado os Lazer/Wulf e os Kylesa, prontos a debitar energia através da amálgama complexa dos primeiros e do stoner poderoso dos segundos; do outro, o público português, pronto a receber, assimilar e retribuir essa mesma energia, unindo-se à banda num espectáculo que teve pouco de real e muito de transcendente. E, tal como na partida de futebol que se seguiu, nem as bandas americanas nem o público português se sobrepuseram sobre o outro. Houve, isso sim, um equilíbrio onde ambos coexistiram, sempre imersos no ambiente musical que rodeava todos os presentes.

Curiosamente, este equilíbrio começou por se manifestar com uma banda que de equilibrado soa a pouco. Falamos, claro, dos georgianos Lazer/Wulf. O seu estilo, que engloba vários estilos e acaba, no fim, por não ser estilo nenhum, iniciou a noite de forma ruídosa, isto apesar da banda apenas conter três elementos na sua formação. Foi, por isso, um concerto musicalmente caótico, em que secções calmas rapidamente se intersectavam com secções pesadas, num experimentalismo que se revelou sempre interessante, deixando o público a salivar por mais. De destacar também a presença sempre bem movimentada da banda em palco, que ajudou a que também o público se movimentasse com o som experimental da banda.

 

Mas se o experimentalismo foi a nota dominante do espectáculo dos Lazer/Wulf, o concerto de Kylesa primou por ser bastante directo nas suas pretensões. Com um som de baixo bem destacado, o que era reforçado pela posição central que este instrumento assumia no palco, a banda emanava uma energia constantemente poderosa, mas sempre também muito arrastada. Isto era, obviamente, realçado pela dupla de bateristas característica da banda, que mostra bem a sua presença no contexto de um concerto. De resto, de destacar ainda as projecções que iluminavam as restantes paredes da sala e a presença em palco do incontornável theremin, um instrumento que, infelizmente, não podemos apreciar muitas vezes. Em termos de setlist, este foi um concerto que primou por ter percorrido a discografia praticamente toda da banda, em que apenas se destacou um pouco o trabalho “Static Tensions”, de 2009.

No geral, assistimos sem dúvida a um bom par de concertos na véspera da véspera de S. João. Estes tiveram como ponto negativo, apenas, o pouco público presente (a sala estava a meio gás), mas que nem por isso deixou de interagir com as bandas, o que só pode ajudar a que elas voltem rapidamente ao nosso país. E nós cá estaremos ansiosos à espera.

Fotografia: Carolina Neves
Texto: João Vinagre

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