Dia 1 – 5 Junho

 

Pouco passava das cinco da tarde, e começavam já a estender-se as primeiras mantas amarelas pelos relvados do NOS Primavera Sound, num dia que se iniciou soalheiro, mas sem a promessa de grande duração. Junto aos dois palcos a funcionar no dia de arranque do festival, começaram a formar-se os primeiros ajuntamentos: no Palco NOS, onde os portugueses Os da Cidade, projecto de Miguel Araújo, António Zambujo, João Salcedo (também integrantes n’Os Azeitonas) e Ricardo Cruz, fizeram as honras de início dos concertos; e, no Palco Super Bock, que pouco depois receberia Rodrigo Amarante e, mais tarde, no início da noite, Sky Ferreira que bem cedo demoveu um pequeno grupo de jovens.

Depois de dois concertos esgotados em Lisboa, o membro dos Little Joy e «adormecidos» Los Hermanos (e ainda integrante na Orquestra Imperial) encerrava a sua semana em Portugal ali no Parque da Cidade (em regresso à cidade pela qual se diz cativado, depois de um concerto surpresa no Passos Manuel, em Fevereiro deste ano). Ao final da tarde, Amarante sobe ao palco acompanhado de banda (trio dividido entre baixo, guitarra, percussão e teclas), sorridente e bem-disposto, de postura meio tímida, perante uma plateia bem-composta. ‘Nada em Vão’ serve de alavanca de arranque, o tema inicial de “Cavalo”, primeiro trabalho de afirmação a solo lançado no ano passado, e percorrido ali na sua íntegra. Passando pela eléctrica ‘Hourglass’, o duo bilingue ‘Mon Nom’ e ‘The Ribbon’, com a qual se despede, o duo soturno, acompanhado de piano, ‘Cavalo’ e ‘Fall Asleep’ ou os hinos que parecem estar mais na ponta da língua de uns quantos, ‘Irene’ e ‘Tardei’, esta última que toca sozinho, de voz majestosa (à qual o sistema de som poderia fazer melhor jus), com o trio a auxiliar apenas no coro secundário. Em homenagem à Orquestra Imperial, ouviu-se ainda o tema ‘Pode Ser’ (do álbum “Fazendo as Pazes com o Swing”) que juntamente com o sambinha de Maná fizeram mover uns quantos pés. No final, ficou um sincero agradecimento «do coração» aos presentes.

Na ponte para uma outra geração da música brasileira, e já o frio da noite se fazia sentir, Caetano Veloso, um dos dois gigantes da noite (a par de Kendrick Lamar), subiu ao palco NOS após o concerto dos americanos Spoon, onde apresentou, sem surpresa, uma mão cheia de temas do mais recente “Abraçaço”, acompanhado de um cenário de quatro telas em cavaletes, com formas geométricas desenhadas, da autoria do cenógrafo Hélio Eichbauer, e da banda Cê, com a gravou os seus três últimos álbuns.

 ‘A Bossa Nova é Foda’ abriu o espectáculo, passando por ‘Parabéns’, dedicada a todos os aniversariantes da noite, pela melancólica ‘Estou Triste’, até algures ao momento do abraço em forma tentacular entre os músicos, numa fila em palco, em ilustração literal da faixa ‘Um Abraçaço’. Em ‘Homem’ Caetano cantou sobre os orgasmos múltiplos que inveja nas mulheres, passou por ‘Odeio’ e pelo não-tão-funk, mas rock escadeado de ‘Funk Melódico’. No meio do repertório mais recente, com o qual muitos pareciam não estar tão bem familiarizados, houve momentos altos num punhado de clássicos já bem  no coração de muitos: ‘Baby’, do álbum “Tropicália” (’67), chamou umas quantas vozes a repetir calorosamente em coro o verso terno «você precisa saber de mim, baby, baby (…)», atravessando outros temas passados como ‘Triste Bahia’, ‘Nine Out of Ten’, ‘O Leãozinho’ e, bem na ponta da língua de muitos fãs-veteranos (e não só), ‘A Luz de Tieta’ e ‘Você Não Entende Nada’, os grandes pontos altos de um espectáculo onde, mais do que um êxtase efusivo, apesar de alguma apatia em certos momentos, se manifestou um olhar atento de respeito.

Pouco depois das 23h, havia já muitas fileiras entusiasmadas e expectantes por aquele a quem podemos atribuir o grande prémio da noite, Kendrick Lamar, que entraria no palco principal daí a mais de uma hora. Estreando-se em Portugal, um dos nomes mais sonantes na nova geração de rappers, de novos renovadores do hip-hop,  trouxe na bagagem o último trabalho, “good kid, m.A.A.d city”, já datado de 2012, e banda completa e bem apetrechada – das guitarras, às teclas, e bateria. Lamar subiu ao palco perante o entusiasmo delirante do público, já de mãos ao alto, arrancando com a dupla fervorosa ‘Money Trees’ e ‘Backseat Freestyle’, e o padrão repete-se ao longo de todo o espectáculo: rimas incisivas bem sabidas e repetidas por quase todos os que estavam ali presentes (no hino ‘Bitch, Don’t Kill My Vibe’, ‘Poetic Justice’, ‘Fuckin’ Problems’ e ‘M.A.A.d City’), mãos no ar a cada pedido, energia contagiada entre o palco e o público e até uma corrente de luzes (telemóveis, isqueiros, tudo o que de luminoso havia à mão) em ‘Sing About Me (I’m Dying of Thrist)’, que chamou para a recta final do concerto, sob a chuva miudinha que desde o final da tarde ameaçava aparecer, mas que nem por isso demoveu o êxtase, com ‘The Recipe’ e ‘Compton’, o nome da sua cidade-natal, cujas semelhanças revê no ambiente do público exclamando: «All I smell is weed in the motherfucking air». Apesar do espectáculo eficaz, repleto de energia profusa, ficou, no entanto, um sabor a pouco –  o espectáculo durou cerca de uma hora, e em certos momentos a voz de Kendrick aparecia tremida devido a alguns problemas com o som, deixando uma sensação de desejo por mais uns quantos temas em falta, e certamente de um futuro regresso.

O fecho da noite, já no início da madrugada, ficou a cargo dos Jagwar Ma e da sua pop electrónica eficaz, já com um público menos composto, devido à chuva miúda insistente. Os australianos trouxeram uma mão cheia de canções do seu álbum de estreia “Howlin’”, editado no ano passado, com destaque para as canções ‘Uncertainty’, ‘Come Save Me’, com a participação de Stella Mozgawa, de Warpaint, na bateria, ‘Exercise’, e ‘The Throw’ no final, que puseram a mexer os resistentes.

 

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Dia 2 – 6 Junho

 

O dia começou cinzento carregado, e já muita gente aguardava pela ameaça permanente de chuvas fortes, de impermeável aos ombros. Ameaça essa que, para alegria de todos, não passou disso mesmo. O segundo dia do NOS Primavera Sound arrancou com os quatro palcos a funcionar em simultâneo ao longo do festival (o All Tomorrow’s Parties e o Pitchfork, a juntar-se aos outros dois), o que obrigou a malta a fazer escolhas, nem sempre fáceis. Começámos o dia no ATP com os chilenos Föllakzoid (ao lado, uns minutos depois, no Palco Superbock seria a vez dos Midlake), que nos trouxeram o seu revivalismo próprio do rock psicadélico com uns tiques krautianos: a bateria minimal, guitarras hipnóticas e teclas a acompanhar, voz resplandecida que não compreendemos completamente, num punhado de canções que parecem uniformizar-se numa longa faixa infinda. Cerca de uma hora depois, com num ligeiro atraso inicial, entram os Television, grandes no panorama do punk nova-iorquino algures nos ’70, na formação original, à excepção de Richard Lloyd, guitarrista substituído por Jimmy Rip há uns anos. Ali, algumas centenas esperavam a prevista interpretação canções de “Marquee Moon” recebidas com êxtase, ‘Friction’, ‘Venus’, ‘See No Evil’ logo a arrancar, e, a culminar no clímax final, o hino ‘Marquee Moon’, tal como não poderia faltar. Apesar de um espectáculo honorável, faltou vigor, não passando disso mesmo, uma interpretação digna de um álbum histórico.

Pouco depois das 21h aguardava-nos uma das reuniões mais aguardadas deste ano (modestamente, mas que não deixou de demover a sua própria multidão, se trouxermos os Pixies à baila, o grande gigante do cartaz deste dia) e do cenário do shoegaze, os Slowdive. Ainda o grupo não pisava o palco, ouve-se um excerto de ‘Deep Blue Day’, de Brian Eno (canção que, ao ouvido desatento, bem que podia ter sido composta pelos próprios), algo que não tardou a acontecer, perante uma multidão extasiada pronta a receber a canção homónima da banda, ‘Slowdive’, seguida da poderosa ‘Avalyn’, ladeadas pela bateria que lhes confere a robustez necessária. Quase duas décadas após a entrada em hiato indefinido – e um projecto pelo meio, Mojave 3, a banda regressa com as mesmas canções, provando que aquilo que os distingue não se perdeu no tempo: a voz etérea de Rachel Goswell, a envolvência da guitarra esparsa e harmoniosa de Neil Halstead, em camadas de sons distorcidos, recortados, que se fundem numa poderosa névoa de som celestial – bem evidente na dupla magnífica ‘Catch the Breeze’/’Crazy For You’, seguidas de uma mão-cheia de pérolas do grandioso disco “Souvlaki” – ‘Machine Gun’, ‘Blue Skied an’ Clear’, ‘Souvlaki Space Station’ e ‘Alison’. A fechar ficou a versão translúcida e quase espacial de ‘Golden Hair’, original de Syd Barrett, e também uma sede por material novo, em breve, esperemos.

Com apenas poucos minutos de diferença, já o grupo de Black Francis se preparava para subir ao palco principal, voltámos ao ATP para presenciar o também aguardado regresso da verdadeira orquestra que são os canadianos Godspeed You! Black Emperor. Sem grandes palavras ou encarares para o público, projecções ao fundo a acompanhar, o grupo sobe ao palco e posiciona-se junto à artilharia por entre pedais, guitarras, bateria e violino, numa harmonia épica de perto de hora e meia, a partir do crescendo de ‘Hope Drone’ que caminha até ao ritmo tique-taque acelerado de ‘Mladic’, do álbum “Allelujah! Don’t Bend! Ascend”, depois de quase uma década de intervalo. Voltamos ao ritmo crescendo abrasivo de ‘Gathering Storm” que prepara o terreno para ‘Moya’, belíssima melancolia de cordas escutada ao início em silêncio quase sepulcral pela plateia que ali se encontrava, culminando em mais de meia hora de ‘Behemoth’ a fechar (entretanto já muitos se deslocavam para outras paragens: Trentemøller, o produtor dinamarquês no palco vizinho e Pixies já a recta final).

Depois do embalo de GY!BE, passámos ao assalto da electrónica de Darkside, projecto de Nicolas Jaar com Dave Harrington que mobilizou uma enchente até ao palco Pitchfork. Aos primeiros riffs de Harrington em ‘Freak, Go Home’ o público responde com grande entusiasmo, com Jaar a comandar os ritmos electrónicos intercalando ocasionalmente com a voz, por entre uma neblina de fumo, numa simbiose entre a guitarra precisa, meio-psicadélica, e um ambiente electrónico dançante, onde as canções de “Psychic” (2013) ganham um vigor e uma energia completamente diferentes do registo gravado (‘The Only Shine I’ve Seen’, ‘Heart’ ou ‘Metatron’). A prosseguir com o ambiente dançante já estabelecido viria em seguida o norueguês Todd Terje, sozinho, sem grandes artilharias técnicas, com o álbum de estreia na bagagem “It’s Album Time”, lançado neste ano. No meio, ainda houve tempo para uma passagem pelo punk ruidoso e efusivo de canções como ‘Squirrel Song’ e ‘Steady as She Goes’ de Shellac, de Steve Albini, (também membro dos Big Black e dos Rapeman), num regresso ao festival no Parque da Cidade do Porto.

 

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Dia 3 – 7 Junho

 

O último dia do NOS Primavera Sound, a contrariar os anteriores, foi quase um verdadeiro dia de Primavera, com um final tarde passado em ambiente soalheiro e descontraído, com muita gente sentada ou deitada na relva, ao som dos portugueses You Can’t Win, Charlie Brown, que trouxeram consigo algumas canções do segundo álbum “Diffraction/Refraction”, entre elas ‘Be My World’ e ‘Shout’. Pouco mais de uma hora depois, no palco vizinho, entrava Lee Ranaldo acompanhado pelos the Dust (onde integra também Steve Shelley na bateria, mais um camarada de Sonic Youth). «This is such a nice sight!», refere-se o guitarrista ao cenário do Parque da Cidade, antes de arrancar com umas quantas canções do seu último trabalho “Last Night On Earth”, lançado no ano passado. ‘Lecce, Leaving’, ‘Key/Hole’, ‘Last Night On Earth’ e ‘The Rising Tide’ foram alguns dos temas que ouvidos do recente disco a ressoar ao rock dos ‘90’s, com o trabalho de guitarra já habitualmente exímio, num concerto eficaz mas não necessariamente memorável.

No entretanto, já uma multidão bem composta se agrupava para um dos nomes mais esperados do dia, Neutral Milk Hotel, “o” nome no seio do colectivo Elephant 6 e um marco algures nos ‘90’s com o celebrado “In The Aeroplane Over The Sea” que parece transpor-se intemporalmente. Não houve permissão para fotografias ou transmissão nos ecrãs laterais do palco, e à entrada em palco Jeff Mangum, barba e cabelo a cobrirem-lhe a face, ainda ordena que se guardem as câmaras e telemóveis. Distracções tecnológicas excluídas do cenário, Jeff entra sozinho, guitarra a acompanhar, voz bem-sonante, com ‘Two Headed Boy’ (lá mais para o fim tivemos direito à segunda parte), até à entrada do restante grupo – trazem consigo os sopros, acordeão, concertina e o ocasional vibrar de um serrote que ressoa tal qual um temerim. Segue-se o trio enérgico lo-fi ‘Holland, 1945’ / ‘Gardenhead, Leave Me Alone’ / ‘Everything Is’ e muitos ombros e cabeças a mexer, até a um glorioso canto geral no hino completo ‘The King of Carrot Flowers’ e em ‘In the Aeroplane Over the Sea’. Sozinho novamente, Mangum lança ‘Oh, Comely’ (atrás de nós, um fã exclama exaltado «Oh, shit!»), seguida de uma dançante ‘Song Against Sex’, e, já no final, de um espectáculo que certamente deixou muitos satisfeitos, ‘Engine’, entre o sossego da guitarra acompanhada do hipnotizante assobio do (mais ou menos) temerim.

A espera generalizada continuou até à hora dos já bem queridos e conhecidos do público português, The National. “Troube Will Find Me”, o último trabalho do grupo, detém naturalmente o destaque no alinhamento – ‘Don’t Swallow The Cap’ e ‘I Should Live In Salt’, acompanhadas de projecções e jogos de luz azulada a condizer, seguidas de ‘Hard To Find’ e ‘I Need My Girl’. Em jeito de surpresa, Annie Clark (ou St. Vincent), que daí a poucas iria actuar no palco vizinho, sobe ao palco e canta com a banda em ‘Sorrow’, antecipando o cântico comum que ficou na cabeça em ‘Conversation 16’ e ‘Squalor Victoria’, perante um público visivelmente caloroso e emocionado. Ainda antes do final (já com o mindset focado em Slint), fomos espreitar Charles Bradley e a ressurreição do soul e do groove dos anos 70, ao ATP, que, de voz rouca e meio a fraquejar (sem perder o ímpeto e o vigor, no entanto) cantava em plenos pulmões «I, all my life I’ve been searching for love», de ‘Lovin’ You’.

No capítulo das reuniões aguardadas, cabem também os Slint, que dois álbuns de estúdio depois (um glorioso “Spiderland”) e algumas aparições esporádicas, voltaram a reunir-se no ano passado. ‘Breadcrumb Trail’ e a guitarra ensimesmada e o seu cheirinho a math-rock faz as honras de abertura, com as letras declamadas em quase sussurro de Brian McMahan a serem repetidas por uns quantos membros da audiência, seguindo-se ‘Nosferatu Man’, ‘Washer’ e um outro punhado de canções (‘Good Morning, Captain’ já a fechar) de um “Spiderland” desde os primórdios envolvido numa névoa de obscuridade, mas cuja latitude no cerne do rock e nos ouvidos de muitos atingiu uma grandeza sem que, talvez, o próprio grupo disso se apercebesse.

Depois da introspecção de Slint, fechámos a noite com dois dos concertos inesperadamente mais contagiantes do dia. O rock sujo, rápido e juvenil de Ty Segall demoveu uma multidão extasiada, depois de um começo algo atribulado (e uns acordes meio desajeitados de ‘Stairway to Heaven’, até que alguém grita: «play the rest!»). Canções como ‘Wave Goodbye’, ‘Finger’, ‘Tall Man Skinny Lady’ ou ‘The Hill’ foram celebradas com tudo aquilo a que havia direito: moshpit, crowsurfing e corpos em movimento frenético. Pelas duas da madrugada a energia geral aparentava mais do que no ponto de ebulição e a vibe transferiu-se para o palco Pitchfork onde já actuavam os Cloud Nothings, também eles a disparar umas quantas malhas do seu último “Here And Nowhere Else”, editado este ano, sob seu próprio tumulto, qual punk adolescente, acelerado, personificado no final perfeito ‘Wasted Days’.

 

Texto: Telma Correia
Fotografia: Hugo Lima (NOS Primavera Sound)

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