Barreiro, 2014. «Sala esgotada», em maiúsculas, podia-se ler à entrada do Auditório Municipal Augusto Cabrita, palco que os Dead Combo já haviam pisado. Desta vez faria-se com “A Bunch of Meninos”, novo disco, estendido ao público um par de meses antes.

Lisboa, um ano qualquer. O amola-tesouras das primeiras soadas do espectáculo antecipa a chegada do duo aos seus postos – silêncio que se vai chorar o blues. Tó Trips começa por liderar uma matilha uivante de melodias da Mouraria, enquanto Pedro Gonçalves direcciona a marcha fúnebre pelo qual nos prepararam. ‘Povo Que Cais Descalço’, a abrir, conta-nos a primeira história, com o duelo de guitarras a ser acompanhado pelo ritmo dos pés, numa percussão pautada, humana, autêntica. Agregados ao cenário de palco, são iniciados os fantásticos jogos de luz e sombra, acompanhados por uma componente cinematográfica ao fundo, num ecrã ladeado por molduras de uma casa bem portuguesa.

Dissecada a composição do cenário, descobrimo-los. Os Dead Combo são cães de louça, são rosas, são bonecas de porcelana e são caveiras. São um lance de ideias tanto nostálgicas como vigentes, espremidas por uma fuga western das ruas de Lisboa. De forma a encerrar mais uma faixa, há moeda a rodopiar nas costas de uma guitarra e, seja cara ou coroa, quem vence é quem vê. Tó Trips palmeia a moeda, como um truque tirado da cartola, e deixa o resultado em segredo, antes da dança de instrumentos proporcionada por Pedro Gonçalves. Entre um desfile de dedicatórias, agradecimentos e aplausos, os Dead Combo escavavam a curiosidade e a atenção dos presentes a cada minuto, num caso raro de técnica musical com emoções, uma combo que não é para meninos, onde até ‘Lusitânia Playboys’ nos ensinou como fazer jazz ao socar uma guitarra. ‘A Bunch of Meninos’, faixa-título do novo disco, iria suscitar a primeira despedida.

«Tínhamos uma feira popular em Lisboa, mas como vivíamos acima das possibilidades, acabaram com isso», rematava Tó Trips para ‘Malibu Fair’, falando sobre o seu gosto por carrinhos-de-choque nos tempos que já lá vão. Estavam de regresso ao palco, entre aplausos de uma plateia erguida, com ‘Lisboa Mulata’ a transformar a atmosfera do auditório. Em segundo encore, e para as mães deste mundo, ‘A Menina Dança #1’ e os meninos despedem-se.

Trazer Dead Combo na alma, de peito cheio. Afinal de contas, percebemos que através daquelas sinuosas linhas electroacústicas de guitarra, não é só o blues… pois o rock, esse sorrateiro maldito, também chora.

Texto: Nuno Bernardo
Fotografia: Rute Pascoal

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