tour de Celeste, que trazia consigo também Revok e Comity das fronteiras francesas, passou em Portugal para duas datas – primeiro no Porto, depois em Lisboa. Estivemos em ambas.

6 Maio – Hard Club, Porto

Escrever sobre o fenómeno contra-natura que são os Celeste não é fácil, de todo. Os franceses emanam uma das auras mais misteriosas do universo da música extrema e são donos e senhores duma das paredes sónicas mais densas e distintas que o mundo viu nascer recentemente.

A ideia com que se fica ao ver aqueles quatro seres entrar em palco de lanterna em testa, a disparar raios de luz vermelha para tudo quanto é canto a que a cervical aponte, é que estes podiam muito bem ter aterrado agora de uma qualquer exploração lunar para extracção de minério. Essa ideia aumenta em plausibilidade a partir do momento em que nos submetem ao que deve ser um dos exemplares máximos da técnica ao serviço da violência, tal é o critério e a mecanização da autêntica locomotiva que os Celeste transpõe dos álbuns para uma sala como a do Hard Club.

De tamanha intensidade não se pedia, nem se podia pedir,  que viesse a durar mais do que a hora que sensivelmente durou. Tão bruscamente como arrancaram e marcaram passo pelo ainda recente e soberbo “Animale(s)” fora, os strobes deixaram de disparar por entre o fumo e os Celeste tinham dado por concluída a actuação, deixando tão somente o eco das guitarras estridentes soar pela noite portuense fora, nem que pelos tímpanos de quem lá esteve seja.

A partilhar o palco com os Celeste estiveram os também franceses Comity e Revok. Os primeiros, apesar de até terem feito desfilar um hardcore com alguns rasgos e transições interessantes, saíram claramente prejudicados pelo som algo embrulhado que se fez ouvir em larga parte do concerto. Já os Revok, liderados em palco por um vocalista com o seu quê de carismático, mostraram-se dotados de dinâmicas interessantes e com potencial de maturação, deixando a ideia de poderem ser uma banda a ter em conta nos tempos que estão para vir.

Texto: Rui Andrade
Fotografia: Carolina Neves

 

7 Maio – República da Música, Lisboa

Em Lisboa o cartaz desenhou-se com mais dois nomes. Para além do trio francês, constituído por Celeste, Comity e Revok, a República da Música recebeu as descargas de Mantar, da Alemanha, e de Don’t Disturb My Circles, do nosso Portugal. A hecatombe marcada para uma quarta-feira, no bairro de Alvalade, estiolou como podia.

Em torno de provar as credenciais firmadas, Don’t Disturb My Circles coabitaram tanto os campos da energia incessante do hardcore como a extensão técnica e agressiva das quebras de tempos. Arquitectadas as incógnitas, geradas as equações e logradas as respostas, Arquimedes mostrar-se-ia minimamente agradado com os resultados.

Oriundos de Hamburgo os Mantar propunham uma sonoridade algo diferente do restante cartaz. Com passagens onde o feedback se valia por si durante largos períodos de tempo para dar origem a riffs ora violentos ora dissonantes, os alemães transportaram a República da Música para um ambiente claustrofóbico e a espaços estranhamente aterrador. Apenas em formato duo conseguiram elevar em muito o nível de ruído ao mesmo tempo que exploravam atmosferas bem negras e quase drone. A grande surpresa da noite (sim, porque Celeste seria apenas uma bela confirmação).

A troca da ordem das bandas em relação ao cartaz suscitou incerteza. Afinal eram já os Revok a tomarem o palco, marcados pela constante luta que Fabien Severage travou com os pedais na sua metamorfose verbal. A catarse fora consumada através do seu carisma, bem encadeada com as gritantes cordas amplificadas. Já Comity foram minguados pela demora, com o seu argumento a comparecer sem a força que se exigia em noise consequente tanto por acção voluntária em slide guitar dissonante, como pelo embrulho do PA. Valeu pelos minutos finais, em que secções de “The Journey Is Over Now” foi vistoriado em rasgos mais vagarosos e robustos.

Dos franceses Celeste o que se pode dizer é que cumpriram por inteiro as expectativas. Quando uma banda percorre um caminho tão singular para criar um tipo de som que é inquestionavelmente único e que transporta uma já considerável carga de originalidade, uma apresentação ao vivo pode ser um risco independentemente da envolvência criada por outros acessórios. No entanto, Celeste não é apenas a banda das “luzinhas vermelhas” ou do ensaio epiléptico. Por muito interessantes que sejam (e são) estas “ajudas”, o que fica na memória auditiva é a quase aniquilação dos tímpanos e viagens sonoras que conseguem no meio de um total caos imprimir uma certa calma. Um ponto de contemplação pelo meio de uma tempestade de riffs e blastbeats que os distingue e eleva acima de uma vasta concorrência. Os quase 50 minutos encolheram-se perante tamanha demonstração de força e quando assim é percebe-se que se está perante um momento único. Que não seja o último por estas terras…

Texto: Filipe Adão e Nuno Bernardo
Fotografia: Nuno Bernardo

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