Calvin Johnson sempre preferiu tocar de pé. E assim foi. Mais do que um músico, ele é também, de alguma forma, um performer. De camisa branca e jeans arregaçados, apenas munido da sua voz e guitarra acústica, estreou-se em Lisboa na noite passada, no altar da St. George’s Church. Sem microfones e outras artilharias ou iluminação trabalhada, mas apenas o músico e o público a preencher meia sala, de olhos bem-postos um no outro e na maior proximidade possível.

Durante pouco mais de uma hora, o rosto mais sonante da K Records – a mítica editora independente que fundou em meados de ’82 na sua cidade-natal, Olympia, nos Estados Unidos – e de grupos como Beat Happening, Johnson trouxe alguns dos resultados do seu trabalho imparável, quer a solo, quer de parte dos outros grupos que integra. Passando pelo projecto Halo Benders, ouviu-se «Planitum Slumbers», canção que às tantas nunca foi gravada, escrita por Doug Martsch (actual Built To Spill) que juntamente com Johnson integrou em tempos o grupo. Até à trilogia de trabalhos a solo, de onde ficámos com canções como «Love Will Come Back Again», «When You Are Mine», «Move Around» e «I’m Down», a canção com que se despediu.

«Pine-Shaped Box», do seu projecto mais recente, Hive Dwellers, abriu o caminho para o espectáculo que se avizinhava. Acorde simples, entoações folk e, sobretudo, a voz bem característica e demarcada de Calvin Johnson, quase-monocórdica, de toada grave, profunda, por vezes jocosa, que às tantas vibra tal-qual como se este se servisse dele próprio como um instrumento, a par dos movimentos peculiares pelos quais que se move “em palco”. Deste projecto, ainda pudemos ouvir canções como «Lynch the Swan», «A Woman Named Trudy», «Streets of Olympia», uma entusiasta ode à sua cidade de onde em finais de ’80 fervilharam muitos movimentos ligados a uma cultura da música independente, ao riot grrrl, até ao punk hardcore, «Blind in One Eye», onde pelo meio trauteia o ritmo com os dedos no corpo da guitarra e «Sitting Alone at The Movies», que canta em jeito de declamação, sem acompanhamento da guitarra, até fazer uns quantos sorrir com os seus com a entoação caricata do verso “Don’t want to turn round and see the couples doing… what they’re doing”.

Para junto do altar, Calvin levou também consigo o LP «Pith», do projecto Ruby Fray, lançado pela K, no qual divide um dueto com Emily Beanblossom na canção “Mint Ice-cream”, que cantou por sua conta. “It’s kind of my new record”, dizia no início.

Sentido de humor não lhe falta. Por entre pausas, fala com descontraidamente com o público, e referindo-se ao 1º de Maio, lá lança ironias sobre um ou outro feriado americano. “They were saying everything will be closed tomorrow… that’s pretty exciting! In America, everyone is so afraid of the workers that they don’t wanna give them a whole day for themselves”, diz este. Ainda, quase na recta final, aproveitou para tocar uma inesperada versão do clássico «Diamonds are Forever», a canção popularizada pela voz de Shirley Bassey em inícios de ‘70.

Fotografia e Texto: Telma Correia

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