A época pascal é sempre motivo de celebração. Institucionalizada pelo cristianismo como uma das épocas festivas do ano, esta é sempre uma altura para se conviver com toda a família ou para fazer uma peregrinação à igreja, isto, claro, para todos aqueles mais devotos à sua fé. Como tal, calhou em óptima altura a passagem da tour Church of Ra por Portugal, passagem essa que encheu a sala 2 do Hard Club de fiéis à «religião» que é a música, todos certamente prontos para mais uma viagem ritualística através de sons, ondas, notas, melodias e emoções.

E a celebração fez-se sentir, e de que maneira, quando os Hessian subiram ao palco. Com uma violência assente em ritmos rápidos e num sorte forte e distorcido, não foi difícil para o público começar desde logo a reagir, mostrando estar desejoso de sentir o caos sónico que a banda não parava de emanar. Foi um concerto que só pecou por ser curto, já que o público se mostrava crescentemente imerso na atmosfera que se vivia na sala.

Porém, nada havia a recear, já que o que se seguiu foi igualmente estrondoso. Falo claro, dos Oathbreaker, banda que fez questão de dar um concerto igualmente poderoso. Com uma setlist assente no seu “Eros|Anteros” lançado no ano passado, as influências de black metal da banda ajudaram a que fosse criado um ambiente mais frio na sala, que no entanto não impediu que o público se manifestasse com algum movimento. Isso foi visível, aliás, em músicas como ‘No Rest For The Weary’ ou ‘Upheaval’, dois dos momentos altos do concerto, em que se formou algum moshpit e crowdsurfing nas secções dianteiras do público.

Seguidamente, era agora altura da apresentação do projecto mais «diferente» da noite, que tinha como nome Treha Sektori. Um projecto audiovisual, em que a música ambiental, integrando componentes electrónicas e de voz, se modificava de acordo com um vídeo que passava no background do palco. Este foi sem dúvida um projecto interessante de se assistir, que apenas pecou por ter sido acompanhado por alguma conversa por parte dos espectadores, o que lhe retirou alguma imersão.

Por fim, a banda que todos esperavam: os belgas Amenra. O negro que toma conta do palco. A força de um desespero que parece não ter fim. A elevação a um estado maior… É, de facto, impressionante a capacidade que a banda tem de fazer com que, com as suas harmonias lentas e prolongadas, tudo parece maior que o que realmente é. Percorrendo praticamente toda a discografia da banda, o concerto revelou-se incrivelmente poderoso, com o público a reagir intensamente a todas as músicas tocadas. Esta foi, de resto, uma performance que, tal como tinha acontecido no Amplifest 2012, apenas pecou por ter de ter um fim, já que todo o público parecia disposto a mais. Todos sentiram certamente que este foi um concerto daqueles que não se assiste muitas vezes, em que nos sentimos tão envoltos numa essência abstracta, que nem damos conta da realidade que realmente nos envolve. Quando é assim, podemos constatar o verdadeiro poder da música e da arte em geral. Este é, no fim de tudo, o grande poder de Ra.

Texto: João Vinagre
Fotografia: Carolina Neves

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