Os indignu são um quinteto português. Depois do disco de estreia, “Fetus In Fetu”, em 2010, a banda preparou “Odyssea” – um disco com princípio, meio e fim sem dar muito uso à palavra. Foi após a apresentação deste seu segundo disco, lançado em 2013, numa Cine-Incrível de Almada algo desnuda que a Ruído Sonoro e a banda se encontraram para uma conversa de registo informal, num discurso directo algo acolhedor e medido depois de testemunhado um concerto irrepreensível, do qual fizemos reportagem (aqui). Com sorrisos pelo meio, sentámos-nos à mesa com Afonso Dorido e Graça Carvalho, dois quintos do colectivo barcelense.


Ruído Sonoro: Quem são os indignu? Como é que vocês se identificam?

Afonso: Um conjunto de pessoas numa descarga emotiva, como quando estivemos ali a tocar, é isso. No fundo é a emoção e é uma extensão de nós. Os indignu são a extensão de cinco almas.


RS: Sendo Barcelos já uma cidade ligada a um certo núcleo musical onde já cresceram festivais como o Milhões de Festa, por exemplo, como é que vocês se integram nesse ambiente?

Graça: Nós somos tanto parte desse ambiente como todas as outras bandas e, ao mesmo tempo, somos tanto fora desse ambiente como muitas outras bandas. Barcelos… Uma banda não faz Barcelos e Barcelos não faz bandas. O que acontece é uma coincidência e nós fazemos parte dessa coincidência.
Afonso: Sim, feliz coincidência… não é?



RS: E sentem que estão a crescer proporcionalmente ao nome de Barcelos, que tem sido mais falado recentemente?

Afonso: Acaba por coincidir. Porque indignu já existe há bastante tempo. Acaba também por coincidir falar-se muito de Barcelos, mas Barcelos já teve um hype grande, hype mais que grande, nos anos 90 com [The] Antonishing Urbana Fall e mesmo…
Graça: E Kafka.
Afonso: E Kafka, sim, que a gente gosta muito de Kafka! Nós gostamos muito de Kafka.
Graça: São nomes que já marcavam um bocado a cidade, já se identificavam um bocado geograficamente aquele estilo.
Afonso: Exactamente. Depois desapareceu um pouco do mapa a nível criativo, mas agora felizmente… Mas ainda bem que falámos de Kafka porque o Filipe Miranda, que era vocalista de Kafka e agora é The Partisan Seed, participa no “Odyssea”, portanto como é uma cidade pequena tem assim estas coisas boas.
Graça: Há assim aquela ponte.
Afonso: E ele é um dos incentivadores deste trabalho, sem dúvida.


RS: Ainda bem que tocaram no assunto “Odyssea”. “Fetus In Fetu”, era um álbum que tinha voz ou mais voz do que este. Como é que fizeram essa transformação sonora?

Graça: Nós nem sentimos que foi uma transformação, sabes? Foi uma progressão e não uma transformação. Já quando, pelo que eu sei… eu não fazia parte no “Fetus In Fetu”, mas deixa-me só… [para Afonso] corrige-me se estiver errada: eu acho que já no “Fetus In Fetu” havia um prazer assumido quando se fazia música sem se precisar da palavra. E tanto é que alguns dos temas mais popularizados do álbum anterior eram precisamente instrumentais.



RS: Então aproveitaram e…

Graça: Não, não. Não aproveitámos. Isto surgiu!
Afonso: Acabou por ser natural. Apercebemos-mos que o caminho era mais estreito, mas ao mesmo tempo mais aliciante, que queríamos seguir. Nós queremos fazer, mas nós nunca sabemos o que vamos fazer, não é? Sabemos aquilo que queremos e o que não queremos, se calhar. Então achámos que o caminho devia ser mais focado.
Graça: Acabámos por abandonar um bocadinho a letra porque a música não precisa de letra, não é?
Afonso: Sim, acabámos por tomar uma decisão natural. Consciente mas natural.
Graça: Sim. Mas não foi, quer dizer, não foi uma coisa assim mecânica, percebes?
Afonso: Não foi do tipo «a partir de agora não vamos ou não pode…», não, até porque ter podemos ter, futuramente, um tema [com voz]. Mas o caminho é este – nós queremos muito spoken words e texto declamado, nós estamos a fim dessas coisas todas.
Graça: E também não fechamos a porta a um tema com voz.
Afonso: Sim sim… ou dois. Ou então ser completamente instrumental. Nós somos uma banda livre e a criação que nós temos é livre. Agora é notório que nós somos uma banda de cariz instrumental, de rock instrumental, é claro. E há banda por aí… uma banda inovadora, os Mogwai por exemplo, que são uma banda instrumental, mas há temas que eu fiquei a conhecer porque têm voz. Acho que é só liberdade de criação. Acho que é mais importante dizer que este álbum (“Odyssea”) tem violino. E tem piano. E tem sintetizadores.
Graça: Tem guitarra portuguesa.
Afonso: E tem metalofone. E agora dizias tu…
Graça: E tem guitarra portuguesa.
Afonso: E mais…?
Graça: Tem guitarra portuguesa.
Afonso: Sim, vá, tem uma guitarra portuguesa…. E tem violoncelo!


RS: Então é no sentido de abrir portas, em questão da liberdade musical, que querem apostar no futuro? Em futuros trabalhos?

Graça: Na verdade nós não temos limites. Não pomos limites às coisas, mas sim – se nos perguntares aquilo que nos dá mais prazer fazer no imediato, é.


RS: Então pode-se dizer que um próximo trabalho será ainda mais aventureiro? Uma odisseia maior, pode-se dizer assim?

Graça: Sim, o plano passa um pouco por aí.
Afonso: Mais aventureiro.
Graça: Mais aventureiro, sim, um bocadinho mais maluco.



RS: Porquê “Odyssea”?

Afonso: É assim, foi tudo um bocado tu chegares ao estúdio e aperceberes-te dos temas que tinhas, não é, e sentires que havia ali qualquer coisa neles que não se podiam desprender. Começámos a sentir alguma história a se formar, sempre muito ligada ao mar, e com isto tudo acabou por surgir o filme nas nossas cabeças – o prólogo e o epílogo, uma introdução e um final – e nós começámos a construir. Mas a odisseia não tem ligação directa, ou propositada, com a obra de Homero. Foi simplesmente a palavra e a descrição que mais poderia fazer sentido, para nós, do trabalho com altos e baixos.
Graça: No fundo indica um bocadinho uma jornada. Nós sabemos que temos um ponto de partida, não sabemos muito bem qual é o nosso ponto de chegada. O que é certo é que se avançou muito nesta. Quem ouve os temas, quem põe o CD a tocar, não é, tu viajas um bocadinho e o sentido foi esse.
Afonso: Uma viagem, exactamente, mas não uma viagem linear. Tem muitas dinâmicas.
Graça: É um bocadinho o reflexo das vidas das pessoas. Pelo menos daquilo que nós imaginamos que é a nossa vida.
Afonso: Pode-se fazer uma analogia, podes ler a nossa música à tua maneira. Porque realmente ela abre-se, não te fecha, não te fala de problemas sociais, do desemprego, do capitalismo, não te fala de nada disso.
Graça: Mas se tu sentires que está a falar disso, tens todo o direito.
Afonso: Nós quisemos fazer um trabalho intemporal. Se conseguimos ou não, isso fica em cada pessoa que absorve o álbum.


RS: Há quem diga que sim.

Afonso: Pronto, isso é a melhor coisa que a gente possa sentir. Acho que é isso. Porque a gente diz «pá, está aqui, foi o nosso melhor» e as pessoas congratularem-se com isso e dizerem «pá, está bom». É a melhor coisa que nos podem dizer. Um álbum é como um filho.



RS: Pegando exactamente por aí. É um álbum bastante falado pela imprensa portuguesa em geral, com várias menções em vários locais. É algo também se traduz já lá fora?

Graça: Temos tido algum feedback, essencialmente de alguns países europeus. Do centro europeu.
Afonso: Sim, nos temos tido também é alguns álbuns físicos enviados para fora.
Graça: Sim, as vendas para o estrangeiro são fortíssimas. Nunca imaginámos, quer dizer…
Afonso: É considerável, percebes? Vendas… duas centenas em Portugal e, se calhar, uma centena para fora. Ou lá perto. E isso para nós é relevante. O nosso tipo de som acho que é para o mundo inteiro. É para o mundo inteiro porque tem a linguagem universal à frente. E acho que só nos falta agora mesmo rodar e ter capacidades de rodar, mas pois claro que isso já ultrapassa um bocado os nossos meios. Não depende só de nós. Vamos ver como corre agora o concerto que vamos fazer no Dunk! [Festival] e as datas que andam por ali à volta. É a primeira vez que vamos apresentar o nosso trabalho lá fora para quem realmente sabe o que é que vai ver, porque é um festival específico de bandas com que a gente se identifica e que nós sabemos que se nos convidaram para lá ir é porque sabem o que gente pode fazer.
Graça: É porque a crítica chegou lá. Nesse sentido acaba por responder um bocadinho à tua questão. A crítica chegou pelo menos à Bélgica, percebes?
Afonso: Sim, e não só à Bélgica. Em Portugal, claro, acho que excedeu as expectativas apesar de nunca pormos as expectativas demasiado elevadas. Mas também temos que saber o que é que queremos. Acho que se poderia chegar a mais gente de cá.
Graça: Ainda vamos a tempo.
Afonso: Lá está. O “Odyssea” pelo menos até ao Outono deste ainda vai ser promovido, portanto ainda estamos a promover o álbum e para já acho que está a correr muito bem. Foi a primeira vez nestes concertos que temos preferido tocar pouco e tocar bem no ambiente que queremos, ou onde achamos que as pessoas vão sentir a coisa como deve ser, e tem acontecido coisas boas. Esta banda já existe há quase uma década, esta banda já deu centenas de concertos e a primeira vez que esgotou uma sala foi há um mês, portanto começamos a sentir qualquer coisa de especial e que temos pessoas a seguir-nos. Claro que esgotámos uma sala em Barcelos, mas mesmo assim estamos a falar de duzentas e tal pessoas. Não é fácil. Hoje em dia não é fácil, viu-se por hoje… não é? Não é fácil.


RS: Pode-se dizer que vocês são uma banda que quer também passar mais tempo lá fora, se tiverem essa oportunidade?

Afonso: Sim, queremos. Agora sabemos e estamos cientes que não é fácil. Nós temos de ser objectivos. Mas claro, por não ser fácil não quer dizer que não queiramos. Estamos a fazer por isso. O facto de nós estarmos já a preparar uma reedição do “Odyssea” é sinal que nós queremos chegar a mais gente. E correu bem a nível de edição física, é verdade. Sabemos que ainda podem vir aí oportunidades e queremos dar às pessoas algo especial.


RS: Sendo “Odyssea” um álbum do ano passado, já têm ideias para um próximo se for preciso. Ainda estão muito interiorizados no que fizeram com o “Odyssea” e ainda não conseguiram materializar algo?

Graça: Materializar é um passo que é muito subjectivo. Se calhar está materializado dentro de cada um de nós, já temos algumas ideias e pelo menos um conceito já temos. Já temos um prazo também. As coisas não pararam. A roda continua a andar e sabemos bem que caminho queremos seguir, isso sabemos.
Afonso: Já estamos na sala de ensaios a fazer cenas.
Graça: Já, já se está na fase seguinte.
Afonso: Já estamos a compor. Claro que compor um tema nosso faz difícil perceber quando é que tu vais ter algo, porque este álbum demorou dois anos a compor, portanto nós não queremos desviar muito daí. Isto que temos são ideias. Existem, mas claro, estamos só no começo, ainda. O “Odyssea” ainda não foi totalmente dissecado, na minha opinião, mas já estamos com ideias para o próximo.


Entrevista e fotografias por Nuno Bernardo.

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