19 anos entre Leiria e Lisboa. Os Silence 4 trouxeram o espectáculo SongBook 2014 ao MEO Arena dando aos fãs uma prenda: o tão aguardado reencontro. O regresso à capital, para a quarta data deste segundo ciclo na vida da banda de Leiria, que deixou a casa bem recheada, após uma noite intensa, para recordar e ser recordada.

Leiria, 1995. Abrimos o livro no primeiro capítulo, o da formação de Silence 4. É estranho começar um concerto com uma versão, mas  é com ‘A Little Respect’, dos Erasure, que se inicia uma noite de emoções fortes no MEO Arena. Uma analepse de 16 anos, para nos levar ao momento em que os caminhos do quarteto de Leiria se cruzam com os do grande público, em 1998. Mas esta foi, acima de tudo, uma noite de celebração, facto que se comprovava pelos rostos sorridentes, braços no ar e coros de vozes, que, a plenos pulmões, relembrando decerto a banda sonora de vários momentos marcantes, vividos no início dos anos 2000 ou até depois, já que, ainda que a banda tenha dado o seu percurso por terminado, as canções perduraram e algumas tornaram-se «maiores do que esperaríamos», como referiram David Fonseca e Sofia Lisboa.

À chegada, os panos vermelhos corridos deixavam adivinhar a capa de “Only Pain is Real”, mas muitas outras referências, umas mais subtis do que outras, desfilaram pelo palco, numa produção cuidada e pensada para aquela que é a maior sala de espectáculos do país, como as cadeiras suspensas no palco, um aquário com um peixe gigante ou até os próprios excertos em vídeo projectados em plano de fundo.

No capítulo “Silence Becomes It”, o primeiro álbum, ouvimos a versão de Erasure, mas também ‘Old Letters’, ‘Dying Young’ e ‘Borrow’. Mas foi o motor de um carro voador, ao estilo das fantasias dos livros de Harry Potter, que «acordou» o público do MEO Arena e ‘My Friends’ trouxe uma maior envolvência e um ambiente festivo, até por parte da própria banda, com David Fonseca a saltar para cima do carro e a fazer uso de um megafone. Também ‘Angel Song’ foi acompanhada pelo coro incansável dos presentes, com Sofia Lisboa visivelmente emocionada por uma música que confessa que se tornou especial e que gostaria que fosse cantada pelo público na sua ausência. «Mas como ainda estou cá vou cantá-la convosco».

‘To Give’, a balada de abertura do segundo álbum prossegue o percurso, sobre os tons do azul da piscina do vídeo, faz levantar as lanternas de vários telemóveis, bem como alguns isqueiros dos resistentes.  Também ‘Only Pain is Real’ nos levou de volta ao início dos anos 2000, e ao rock alternativo do qual o grupo tanto bebeu. ‘Empty Happy Song’ surge pelo meio do alinhamento, juntamente com outras incursões do álbum, recebidas com entusiasmo, ainda que não tão notório quanto as do primeiro, como ‘Don’t II’, ‘Not Brave Enough’, ‘Ceilings’ ou ‘Sleepwalking Convict’.

Ainda que os Silence 4 fossem conhecidos por cantar em inglês, o que, numa primeira instância, lhes valeu muitos «nãos» no percurso, pelo menos duas músicas ficaram imortalizadas na sua língua materna. A primeira, ‘Sextos Sentidos’, escrita (e cantada também) pelo «herói» Sérgio Godinho para uma banda, na altura, desconhecida, voltou a trazer o veterano ao palco do MEO Arena, recebido por entre aplausos entusiastas, enquanto personagem fulcral desta história.  A segunda, ‘Eu não sei dizer’, escrita por David Fonseca com alguma «vergonha» até, «felizmente já lá vão muitos anos», espelhou, na voz de muitos, já crescidos, de forma ingénua e simples, as inseguranças e incertezas do passar dos anos, enquanto David e Sofia cantavam frente a frente e um grande farol chegou até ao palco, onde ficaria até ao final do concerto.

Pelo meio, houve tempo para montar um pequeno espaço no centro do palco. Quatro cadeiras, viradas umas para as outras, levaram David Fonseca, Sofia Lisboa, Rui Costa e Tozé Pedrosa, de volta à pequena sala de ensaios onde começaram. Ali, fugindo um pouco ao alinhamento dos dois álbuns ouviu-se ‘Self Sufficent’ e ‘Silence Becomes It’, duas das 50 canções que ficaram de fora do primeiro álbum. Sobre as luzes de 18 mil telemóveis, relembrando as velas que tinham de utilizar devido à fraca iluminação do velho espaço, surgiu ‘Goodbye Tomorrow’, cartão de visita do primeiro disco.

Mas, como sempre, numa história, várias narrativas se cruzam. A história dos Silence 4, além de se cruzar com a história das cerca de 18 mil pessoas presentes, cruza-se com o capítulo da doença da vocalista, Sofia Lisboa. Os concertos SongBook 2014 serviram também para celebrar a luta e a sobrevivência. Na sala de ensaios improvisada, a maior onde o grupo já ensaiou, Sofia dedicou  ‘Invincible’, dos Muse, à irmã, sua dadora de medula, que, um dia, num momento mais difícil, a ouviu com ela. Um momento de elevada carga emocional, de «lágrimas de alegria», que levou a irmã da vocalista, desde os balcões até ao palco, para um abraço sentido. No final, a entrega de um cheque de 30 mil euros para a Liga Portuguesa Contra o Cancro, as pessoas que «nos recebem nas alturas de maior medo», cumprindo assim o propósito da reunião, o desejo de Sofia de divulgar a causa.

De volta ao grande palco, voltou-se também aos registos gravados. Foi tempo de relembrar ‘Breeders’ e a cativante linha de baixo de Rui Costa. Uma vez que a banda de Leiria apenas conta com dois álbuns de originais editados na sua curta, mas marcante vida, foi tempo de congelar os grandes êxitos na memória. Desta vez, num jeito de passagem de testemunho, a voz ficou a cargo dos presentes na arena. «Vamos acordar alguém no raio de 20 km», gritou Fonseca, tendo começado logo de seguida a tocar ‘Borrow’. «Dispensada» das suas funções, Sofia Lisboa desceu para junto dos fãs e ia apertando mãos, como se de  um «obrigado por terem vindo», que se costuma dizer após um serão em boa companhia, se tratasse. Voltámos então a ouvir, pela última vez durante a noite, e quem sabe até ver, ‘My Friends’,  ‘A Little Respect’ e ‘Angel Song’.

Lisboa, 2014. Agradecimentos feitos, assim fechamos o livro. Uma história que já deixa saudades, uma noite nostálgica para muitos, bem como um voltar atrás no tempo. Uma reunião que confirmou a importância dos Silence 4 enquanto marco da música portuguesa e de uma geração. Depois de quase três horas de concerto, fica um até sempre e um final deixado em aberto porque «as canções são vossas, levem-nas, relembrem-nas e cantem-nas», como disse David Fonseca.

Texto: Rita Bernardo
Fotografia: Filipe Ferreira (Silence 4)

Silence 4

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