“Big Inner” (2013, Domino) – homónimo de beginner: aquele que começa – foi o disco com que Matthew E. White deu a conhecer a cara da Spacebomb Records, editora que fundou na cidade de Richmond, numa lógica cooperativa, incluindo a comunidade musical local, uma banda residente (onde ele próprio integra), num modelo inspirado na Motown dos anos 60. Foi também este o trabalho que veio apresentar em estreia em Portugal, na noite da passada sexta-feira, na sala meio-composta do Cais do Sodré. O cantautor escolheu apresentar-se solo, apenas um homem e uma guitarra. Não tivemos as percussões, os sopros e os coros que acompanham o soul de “Big Inner”, mas nem por isso ficámos insaciados ou com a sensação de que algo estaria em falta.

‘Steady Pace’, a abrir, transmite de imediato o registo que dali podemos esperar. As mesmas canções, simplificadas, despojadas de grandes astúcias mas sem perder o ímpeto, e a voz de Matthew plenamente crua, desgarrada, a par das braçadas incisivas na guitarra, bem diferente dos quase sussurros comedidos que demarcam o seu repertório em estúdio. Ouvimos as clássicas canções de amor, ‘One of These Days’ e ‘Will You Love Me’, numa abordagem mais intimista, mais própria, que até parecem captar uma outra impulsão. Ainda, uma passagem pelas canções ‘In The Valley’ e ‘Hot Hot Hot’ do EP “Outer Face”, também lançado em 2013.

Pelo meio, não deixou de haver oportunidade para alguma conversa. Entre pausas das canções, Matthew não dispensa um diálogo com o público. «A minha carreira profissional começou mais ou menos aqui… Apesar de ser o meu primeiro dia em Lisboa», diz este, algures numa pausa entre ‘Are You Ready For The Country’, numa interpretação própria e poderosa da canção de Neil Young, e ‘Gone Away’. Remonta-se a 2006 e aos tempos em que tocava com os Fight The Big Bull – projecto de jazz vanguardista que o músico integrou, e aproveita para prestar um particular agradecimento à editora Clean Feed e à Trem Azul por terem acreditado e pegado no seu trabalho, que desde então foi progredindo.

Ainda houve tempo para ficarmos a saber o que são ‘Hot Toddies’, antes da performance da canção homónima e «daquele episódio» em que Matthew quase conheceu Randy Newman na sua residência, a quem faz questão de prestar tributo com uma versão meia improvisada de ‘I’ll Be Home’ e outra mais segura de ‘Sail Away’. No final, ficámos um enérgico ‘Big Love’ e, algures pelo meio, a notícia de que anda por aí um novo álbum a ser trabalhado.

Fotografia e Texto: Telma Correia

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