Meio século de história, muito hard rock e óculos de sol. Rudolf Schenker, homem que desde a sua formação defende as guitarras e os ritmos da banda, liderou uma série de investidas e corridas na MEO Arena, em Lisboa. O seu autoritarismo típico alemão marca-se pela presença das lentes negras que envergou durante todo o espectáculo como imagem de marca, algo que Klaus Meine, dono da intacta voz que o caracteriza, também protagonizou nos primeiros temas do concerto.

A estreita relação que esta banda alemã tem com o público português é um pouco atípica dada a raridade de actos gigantes de hard rock em solo nacional. A familiaridade que se guarda para com os Scorpions assemelha-se ao cariz hereditário que bandas como os Xutos & Pontapés provocam. Esta Rock ‘N’ Roll Forever Tour poderá ter sido, como várias anteriores, a última a passar por Portugal, portanto um concerto familiar para uma despedida [ou não] deste conjunto é sempre visto a ter conta pela sua massa de fãs. O primeiro sinal foi a sua pontualidade e sem banda de abertura – pouco passava das 21 horas, escutaram-se um par de temas de AC/DC e Metallica e ei-los em palco.

Se sucessos mais recentes como ‘Sting In The Tail’, a abrir, até conseguem movimentar saltos e serem ilustrados com fundos coloridos e fogo-de-artifício, o que dizer quando ‘The Zoo’, um dos mais aclamados temas da carreira da banda de Schenker, explode um dos sorrisos mais homogéneos da sala lisboeta? Sempre a puxar pelas vozes e por aplausos, Klaus Meine e Rudolf Schenker iam envergando as bandeiras dos clichés e dos habitués de um concerto de hard rock – headbangs, air guitars, saltos, microfones apontados ao público e correrias numa plataforma avançada à audiência iam fazendo as delícias aos mais fervorosos fãs.

As baladas não demorariam a chegar. ‘Send Me An Angel’ foi entoada pela sala (bem composta, diga-se), com as vozes a surgirem tanto da frente da plateia como dos lotados balcões que a circundam. A bandeira portuguesa saltou para o palco por esta altura, chegando mais cedo do que o habitual aos ombros de Klaus. Destaque ainda para ‘Holiday’, que se seguiu, antes de um drum solo pouco ambicioso em plataforma elevatória. No fundo deu para revisitar algumas capas que marcaram os trabalhos de Scorpions desde 1965, havendo tempo para um teaser de ‘Wind Of Change’  – lá chegaríamos, minutos mais tarde – e alguns jogos para com o público graças à rebeldia de James Kottak. ‘Blackout’ iria intercalar para mais um momento de descanso para a restante banda, sendo agora a vez do solista Matthias Jabs mostrar as suas habilidades na guitarra.

‘Big City Nights’, com «Lisbon» escrito a vermelho a surgir várias vezes nos ecrãs de palco, daria uma boa despedida, mas um concerto com todos os elementos clássicos de rock não poderia ser dado sem um encore. Finalmente, para muitos, ‘Still Loving You’ deu início a um desfile de temas que todos conhecem. ‘Wind Of Change’, com dedicatória para a solução dos problemas e tensões que se fazem sentir na Crimeia, e ‘Rock You Like A Hurricane’ implicaram as reacções mais uníssonas e denunciadas do público antes de uma ‘No One Like You’ para despedida definitiva. Ficou por saber se literalmente definitiva ou se até a um próximo concerto em Portugal.

Os aplausos finais foram feitos de pé. Os Scorpions podem não ser lembrados como uma referência incontornável para gerações futuras, mas tiveram o seu impacto, funcionando como o pilar que permitiu edificar e celebrizar o heavy/power metal germânico a partir dos anos 80. Afinal de contas, excluídos os gigantes britânicos, os Scorpions são o porta-estandarte do hard rock europeu.

Texto: Nuno Bernardo
Fotografia: Everything Is New

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