Domingo, dia 1 de Dezembro de 2013, vai ficar na história como a data em que o caos sonoro tomou conta da pacata aldeia da Póvoa. Numa matiné marcada para uma tarde solarenga mas fria, organizado pela jovem promotora Operação Crestunfo, faltou o público (previsível, dado o local e o género musical em questão), mas não faltou decerto energia aos poucos presentes nem total loucura em palco, com quatro concertos curtos mas muito, muito intensos. Com uma entrada a um preço simbólico de 2€ e com a inegável qualidade das bandas no cartaz, foi uma oportunidade única que quase todos perderam. Ficam os parabéns à organização pela iniciativa!

 

ASH IS A ROBOT

Post-Hardcore – Setúbal, Portugal

Passavam já 90 minutos da hora marcada quando os Ash Is A Robot “subiram” a palco (e subir aqui é uma força de expressão, uma vez que as bandas estavam ao nível do público, numa proximidade única reforçada pela limitação do recinto da Associação Recreativa a menos de metade). Esta promessa emergente da Margem Sul esteve ao nível das expectativas e comentários que por aí surgem, mostrando uma boa presença em palco enquanto interpretavam faixas do seu disco homónimo de estreia. Num Post-Hardcore melódico e técnico que promete, destaque para as músicas Karma Never Sleeps e Philophobia Part. II, os dois pontos altos do concerto que trouxeram alguma luz ao recinto ainda não iluminado, que para o final do concerto de 35 minutos já roçava a escuridão.

 

CHALLENGE

Hardcore/Punk – Caldas da Raínha, Portugal

Já com o palco artificialmente iluminado, seguiram-se os Challenge, banda existente há mais 10 meses que os AIAR e que esteve 5 estrelas na atitude em palco, mas que, pessoalmente, não me impressionou tanto a nível musical. Foi um concerto mais cru, directo e agressivo, com malhas curtas onde melodia era palavra proibida. O único momento em que a banda cativou mais a atenção foi com a música Legends Never Die, da sua mais recentemente promo. O próprio público, que não passou das 50 pessoas em nenhum momento do final de tarde/princípio de noite, pareceu ser menos numeroso durante esta segunda actuação, que não chegou à meia hora.

 

WAKE THE DEAD

Melodic Hardcore – Marselha, França

Eram 18h30m quando os franceses Wake The Dead fizeram soar os primeiros acordes. Naquele que foi o concerto mais longo do evento, com 40 minutos de um Hardcore melódico mais melancólico, é obrigatório destacar uma presença em palco magnífica, numa performance teatral de sofrimento rasgado e fúria cega interpretada pelo vocalista César. Playing Suicide a meio e Erin a fechar foram os temas mais marcantes destes jovens de Marselha, bem como o momento em que um dos guitarristas entrou pelo público dentro e foi tocar o solo mesmo à frente da super simpática senhora idosa que esteve presente em quase todo o concerto, rindo e dançando como sabia ao som do potente Hardcore. Haja energia!

 

NO OMEGA

Hardcore/Sludge – Estocolmo, Suécia

Nunca tinha assistido em toda a minha vida (ainda curta mas já bem recheada de eventos musicais) a um concerto tão curto, ainda para mais dos cabeças de cartaz. Faltavam 20 minutos para as 8 da noite quando os suecos No Omega abriram as hostilidades. Após uma pequena introdução, o guitarrista tomou a palavra para pedir aos presentes que, se pudessem evitar, não fumassem durante o concerto (algo totalmente ignorado por alguém na fila da frente, que esteve a fumar do princípio ao fim, algo que pode ter contribuído para o incidente no final). Pediu também que todos se aproximassem, ficando toda a gente a poucos centímetros da banda, o que fez com que este concerto fosse mais íntimo que os outros.

Os No Omega foram de longe a banda mais pesada e negra do dia, misturando o mais extremo do Hardcore com influências de Sludge e momentos atmosféricos sufocantes, sobretudo mágicos em temas como Heavy Rain, Sleeping In e Shame. Mas eis que às 20 horas em ponto, 20 minutos após terem começado, a banda termina bruscamente a actuação, com o guitarrista a sair disparado para fora do pavilhão. O público ficou, bateu palmas, pediu mais um tema; os três restantes membros da banda pareciam hesitantes, mas lá foram desmontando o equipamento e acabaram por dizer que não podiam tocar mais nada sem o guitarrista, que ficou visivelmente desagradado com algo. Terá sido o fumo? Terá sido um problema de comunicação com o público a meio, quando ele pediu palmas para as bandas que tinham actuado antes e ninguém percebeu, a que ele reagiu com um ríspido “yeah, fuck the bands“? Terá simplesmente acordado com os pés de fora? Certo é que foi um final amargo para um concerto de tão doces sonoridades, tendo o público na Póvoa assistido a menos 2/3 músicas que aquele que esteve presente no concerto em Lisboa, onde a Ruído Sonoro também esteve.

Texto: David Matos

Fotografia: Marina Silva

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