T.J. Cowgill percorreu um longo caminho até nos chegar a este tão bem composto Passos Manuel.  Dos seus trabalhos com Teen Cthulhu e Book Of Black Earth até vir a «impersonar» este King Dude, o norte-americano fez toda uma viagem por géneros e estilos de que poucos se podem gabar. E se foi essa a viagem do Sr. Dude, a que nos levou ele a fazer nesta sua estreia por terras lusas percorreu autenticamente a vastidão dum estado do Nevada, num buggy para dois, que nem autêntico cowboy Lynchiano.

Em coisa de hora de concerto e varrida uma boa parte de uma discografia que vem ganhando em número o que sempre teve em qualidade, ficou a noção de que a noite foi bem perto de perfeita. Em modo trio, acompanhado por baterista e guitarrista, as faixas de King Dude ganham naturalmente uma roupagem bem mais rockeira, próxima do que se pode ouvir no  recentíssimo “Born in Blood” lançado em Outubro passado. Pelo meio de acordes regados a whiskey e reverb, a voz grave de Cowgill, ora um uivo ora um grito arrancado a ferros, trespassava a mistura de forma tão nítida, tão nítida que quase doía. E se a um ponto, e numa das ainda algumas e sempre memoráveis vezes que se dirigiu à plateia de forma mais directa, ameaçou mesmo poder estragar a voz na canção seguinte, ficou completamente claro o porquê.

Se o que se viu naquela sala pecou em algum ponto terá sido apenas pela duração, porque nada se pode apontar à entrega, não só dele mas nossa também, tendo ficado a ideia que qualquer dos presentes podia ter ali ficado toda a noite, na sombra da bandeira norte-americana tingida a negro que revestia o fundo do palco.  E esta foi daquelas primeiras vezes que se pediam esquecidas só para poderem ser vividas outra vez.

Por último mas não menos importante, não há que esquecer o que nos trouxe também até aos Passos Manuel, e quanto a isso não há que dizer muito. Parabéns pelos 7 anos, Amplificasom, e obrigado por tantas noites como esta.

Texto: Rui P. Andrade
Fotografia: Carolina Neves

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