A deslocação a mais uma “Cartaxo Session(s)” teve como foco o teste “in loco” de uma das mais interessantes bandas nova-iorquinas do momento no que se refere às sensibilidades (como base e longe de ser exclusiva) Post-Punk na sua vertente mais nebulosa. No caso o mote invalida a ressalva no elogio que se segue mas a verdade é que há mais de um ano que estas sessões ribatejanas atraem nomes de relevo da música (verdadeiramente) alternativa mundial sendo que a maior ou menor atractividade dos diversos cartazes deixa completamente imaculado o bom trabalho que se tem vindo a fazer.

8 10 000 Russos-3A noite oferecia mais do que A Place To Bury Strangers sendo que a noite se iniciou com 10000 Russos, duo português de tripla obrigação – guitarra, bateria e voz. Deambulando entre várias sonoridades cujo ponto de agregação é a curiosa exploração vocal (o quasi-throat singing em “Lokomotiv Gobi” ficou na memória) e o uso extensivo de loops com muita distorção à mistura. O resultado é consideravelmente ruidoso mas a repetição também gera um efeito hipnótico particularmente evidente com as naturais oscilações deste tipo de som ao vivo. A actuação foi de curta-duração mas musculada o suficiente para criar impacto. Assim continue o projecto a merecer atenção dos seus membros que também se desdobram em Tren Go! Sound System e Alto!.

Em formato power trio seguiu-se Bambara de Brooklyn cuja actuação intensidade nunca igualou verdadeiramente o entusiasmo demonstrado. A ideia básica por detrás da banda é reflectida pela denominação ‘Dreamviolence’, o primeiro LP da banda: esquizofrenia de feedbacks e o caos generalizado das cordas como tónica contrastante com uma certa sensibilidade melódica. Nesta última vertente reside o calcanhar de Aquiles visto que os crescendos “post-rockianos” acabam por ser algo previsíveis. No entanto, há uma certa honestidade por detrás do som exposto que é louvável e coloca a banda na antecâmara de feitos mais interessantes. Talvez baste maximizarem a queda para o descontrolo e “descoroarem” a vertente mais óbvia e, de alguma forma, “bonita” do som.

1 A Place To Bury Strangers -1A cortina de fundo que se instalou a seguir convidava a um mergulho verdadeiramente sensorial no universo único de A Place To Bury Strangers. Há uma série de associações mais ou menos óbvias a fazer ao som dos nova-iorquinos que, contudo, se elevam acima do nevoeiro das analogias que pululam parágrafos preguiçosamente preenchidos. No entanto, há acima de tudo uma actuação hipnótica, com danças de feedback ludibriosas e uma indelével beleza em forma de parede de som.

Assente nos padrões rítmicos mais do Post-Punk, é cedo que a guitarra (transformada em tantas outras pela abundância de loops e efeitos usados) começa a disparar um pouco para todos os lados. A voz funciona como âncora à tradição e a uma vertente mais carnal sempre a contrastar com o desejo pulsante de APTBS: “I wanna be, in the sky; I wanna be, riding high; Speeding cars, the tearing wind, the burning speed, it breaks my skin.” (“You Are The One”).

Para o fim a actuação foi-se transformando num altar apoteótico dividido entre melodia e ruído. Os strobes prometidos só vieram ajudar e foi já com membros de Bambara em palco que tudo se conjugou na poderosíssima “Ocean” que fez banda e público recuarem alguns anos. Não foi, todavia, um recuo contrastante visto que, ao contrário de vários dos mestres espirituais do trio, foi uma banda em plena vitalidade que se apresentou no Cartaxo e foi isso, juntamente com as qualidades intrínsecas já descritas, que fez a diferença.

Texto: Filipe Adão
Fotografia: Rita Sousa Vieira

Leave a Reply

Your email address will not be published.