Um Fundamentais do Progressivo inteiramente dedicado ao rock progressivo português, que apesar de nunca terem tido projecção comercial adequada e de terem sido relativos falhanços comerciais, ambos os discos são excelentes demonstrações do bom rock nacional que se fabricava entre os anos de 1975 e 1980. Quarteto 1111 e Tantra, a primeira com José Cid e a segunda banda com Armando Gama, dois músicos que não são frequentemente conectados com o rock progressivo mas que aqui apresentam dois discos de excelente qualidade e comparáveis a qualquer álbum de renome internacional.

Tantra – 1977 – Mistérios e Maravilhas

Os Tantra, uma banda de rock progressivo portuguesa de alta referência nos finais dos anos 70, fundada em 1976 lança este álbum prioritário para qualquer amante do bom rock progressivo altamente instrumental e complexo. Tantra comandados, neste álbum, por Armando Gama (voz e teclas) e Manuel Cardoso (voz e guitarra) apresentam com este Mistérios e Maravilhas muito provavelmente o melhor álbum da discografia. Mistérios e Maravilhas parece ser mais um álbum do excelente rock que se fabricava na década de 70 que caiu, infelizmente, no esquecimento por parte do público português, que continua a preferir estilos de música com qualidade duvidosa.

Um Manuel Cardoso muito esforçado por prosseguir com uma banda, que ainda hoje continua em actividade, tendo lançado em 2005 o seu último álbum, até hoje, intitulado Delirium.

Lista de faixas para Mistérios e Maravilhas:
01. À Beira do FimTantra - Misterios E Maravilhas
02. Aventuras De Um Dragão Num Aquário
03. Mistérios e Maravilhas
04. Máquina da Felicidade
05. Variações Sobre Uma Galáxia
06. Partir Sempre
07. Novos Tempos (bónus)
08. Alquimia de Luz (bónus)

É um disco altamente instrumental e com arranjos bastante complexos, buscando a inspiração a bandas de renome altamente referenciado como Genesis, Pink Floyd ou Yes, contendo ainda “travos” de toxicidade e psicadélicos como se via em Camel, Armageddon e a fase final de Steamhammer. Contém dois instrumentais em que a bateria, guitarra e teclas tomam lugar principal, “Mistérios e Maravilhas” e a épica “Máquina de Felicidade” poderiam facilmente ser comparadas a qualquer das faixas compostas pelas bandas acima mencionadas. A loucura instrumental e inteligência lírica estão bem presentes na faixa de abertura “À Beira do Fim” e na última faixa “Partir Sempre”, esta última conta com um espectacular solo de guitarra e com uma “tonelada” de efeitos dignos de deuses como King Crimson, Genesis ou Pink Floyd.

Fiquei positivamente surpreendido com a qualidade da produção que é até bastante boa considerando o ano de 1977 e o estado da indústria musical em finais dos anos 70 em território nacional. Se contarmos com as faixas bónus, ambas apresentam uma direcção musical diferente do restante álbum com uma leveza bem mais acentuada e com um espírito completamente diferente, Mistérios e Maravilhas tem quase uma hora de duração com duas faixas com mais de dez minutos “À Beira do Fim” e “Máquina da Felicidade”.

Tantra – Mistérios e Maravilhas (álbum na íntegra)

Quarteto 1111 – 1975 – Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas

É o último álbum de originais dos portugueses Quarteto 1111, à semelhança com o que mais tarde iria ser feito pelo próprio José Cid a solo com Vida (Sons do Quotidiano) e 10000 Anos Depois Entre Vénus e Marte (ler artigo sobre álbum), este lançamento centra o seu conceito nas emoções humanas numa das fases mais atribuladas da nossa história. Foi lançado no início de 1975 após a revolução de Abril e da libertação do país de um regime fascista que durou mais de 40 anos. Para além de ser inovador em termos líricos, é com certeza um dos mais inovadores trabalhos musicais da história da indústria portuguesa com a execução de diversas “manobras” instrumentais nunca dantes ouvida em Portugal e com a execução de músicas com uma duração, de facto, quase épica. É um disco com poucas faixas, apenas duas, mas com cerca de 30 minutos de duração. O disco tem cinco partes nomeadas no título do álbum e todo o álbum foi composto por José Cid.

Lista de faixas para Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas:Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas VIvas
01. Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas Parte 1
02. Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas Parte 2

Os Quarteto 1111 fundados em 1967 e formados por José Cid (voz e teclas), Vítor Mamede (bateria), Mike Sergeant (baixo e guitarra) e António Moniz Pereira (guitarra) fazem a melhor performance da sua discografia e, também, a mais criativa. O espírito e a alma do disco reflectem o sentimento de liberdade, esperança e alegria após o derrube do Estado Novo. Dividido em cinco partes (Onde, Quando…) com “Cantamos Pessoas Vivas” a iniciar e a encerrar o álbum. Instrumentalmente contém um dos solos de guitarra mais ferozes e sentidos que alguma vez ouvi no final de “…parte 1” e prolongando-se para a “…parte 2” com mais de três minutos de duração, algo que não é inteiramente comum numa banda portuguesa. Tal como o álbum dos Tantra, este é também um disco comparável a qualquer um dos discos lançados pelos “gigantes” do rock progressivo internacional.

Todo o grupo consegue uma performance admirável e com uma combinação técnica extraordinariamente bem conseguida, basta ouvir com atenção as guitarras de Sergeant e Moniz Pereira para averiguar a paixão e a criatividade nesta obra-prima musical, juntamente com a bateria de Vítor Mamede e a mestria, paixão e emoção de José Cid na voz e teclas para verificar o espírito de “comunhão” que originou tamanho “quadro” de perfeição musical.

Quarteto 1111 – Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas (álbum na íntegra)

Apesar de serem dois álbuns de duas bandas portuguesas não devem, nem de perto nem de longe, ser subvalorizados. Ambos os discos devem ser ouvidos com a máxima atenção!!!

// João Braga

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