Felizmente ou infelizmente, Procol Harum são imensamente reconhecidos pela composição e lançamento da faixa “A Whiter Shade Of Pale” que é uma das baladas mais vendidas e mais emocionais que há memória. No entanto a banda não é só essa música, nem de perto nem de longe, para além de continuarem no activo, são um dos pioneiros do rock progressivo/sinfónico e uma das bandas mais talentosas de todos os tempos. À semelhança com os anteriores especiais aqui lançados, na Ruído Sonoro, tentarei dar uma perspectiva mais pessoal da carreira do grupo britânico, bem como, dar alguma atenção especial aos lançamentos a solo do lendário Gary Brooker.

Os anos de aclamação (1967-1977)

Nestes dez anos a banda lançou 9 álbuns de estúdio e alguns álbuns ao vivo, sempre seguidos de relativamente longas tours e com sucesso comercial aceitável, com cada álbum a pertencer às listas dos discos mais vendidos seja nos Estados Unidos como no Reino Unido.

Seja como for, o sucesso comercial parece pouco considerando a qualidade e a originalidade da banda, no que diz respeito ao rock progressivo/sinfónico. Nestes 10 anos a banda foi sofrendo diversas alterações de formação, mas mantendo sempre o lendário vocalista/pianista Gary Brooker e Keith Reid, que juntamente com Brooker forma a parelha de escritores do grupo.

procolharum_autographs1968-4Procol Harum, anteriormente mencionado num dos Fundamentais, foi lançado em 1967 e é muito provavelmente dos trabalhos mais importantes das décadas de 60 e 70 no que rock progressivo/sinfónico diz respeito. É deste álbum que sai o inesperado e enormíssimo sucesso comercial de “A Whiter Shade Of Pale” que deu ao grupo britânico as primeiras luzes de ribalta. No entanto, Gary Brooker e companhia não se deixaram iludir e continuaram a trabalhar e a compor rock progressivo de excelente qualidade e em 1968 lançam o mais barulhento Shine On Brightly que conta com a primeira verdadeira épica faixa do rock intitulada “In Held ‘Twas In I” com mais de 17 minutos de duração.

Procol Harum – Shine On Brigthly (álbum na integra)

Apesar de seguir a mesma direcção musical que o seu predecessor, este é bem mais eléctrico com destaque para a guitarra de Robin Trower e o piano e a voz de Gary Brooker. Novamente, o grupo continua a trabalhar e lança em 1969, A Salty Dog, que é bastante bem aceite pelos fãs, crítica profissional e vendeu bastante bem com a faixa “A Salty Dog” a ter bastante notoriedade comercial nas rádios. Apesar de ser um bom álbum, não me parece tão significativo e importante como os dois anteriores, o grupo parece ter uma visão menos obscura e apesar de conter mais diversidade musical com as principais faixas “A Salty Dog”, “Too Much Between Us”, “Boredom”, “Crucification Lane” e “Pilgrim’s Progress”, o disco não parece ter a consistência e robustez dos anteriores.

Com mais uma tour e com mais quilómetros viajados, o grupo parece ter conseguido atingir a maturidade musical e definir a sua importância no rock progressivo com o álbum Home, lançado em 1970 (anteriormente mencionado num dos Fundamentais). Home é claramente o disco mais eléctrico, progressivo e ironicamente um dos mais emocionais da discografia da banda.

BBC Prog Rock Britannia – Full length TV Documentary (documentário)

rowland11971 marca um ano de mudanças, seja a nível de formação como de estilo musical, apesar da marca de rock progressivo/sinfónico estar bastante bem assente em todos os lançamentos de 67-77, os discos a partir deste ano têm um intuito bem mais orquestral e menos eléctrico com mais melodia e maior sofisticação, tanto instrumental como lírica. Este período (1972-1977) talvez possa ter sido menos apetecível para os mais fervorosos apoiantes de um rock progressivo mais fantasioso, eléctrico e pesado, no entanto poucos foram os fãs que abandonaram a banda e pouca foi a crítica profissional que “levou a peito” esta pequena mudança.

Procol Harum – Broken Barricades (álbum na integra)

Tal como disse acima, Broken Barricades de 1971 é o último verdadeiramente louco e electrizante álbum dos Procol Harum que conta com a muito boa e pesada “Simple Sister” que abre o disco seguido de “Memorial Drive”, “Luskus Delph” e “Power Failure” como principais destaques e favoritas para concertos e álbuns ao vivo. O que pode retirar qualidade final ao disco é a sua inconsistência, ora parece enveredar por um caminho mais louco e “rockeiro” ora assume uma atitude mais leve com as faixas “Playmate of the Mouth” e “Poor Mohammed”.

cover_325620722008Live In Concert with the Edmonton Symphony Orchestra gravado em finais de 1971 e lançado em 1972, é muitas vezes assumido como um álbum de estúdio, apesar de ser verdadeiramente um álbum ao vivo. O grupo interpreta cinco faixas dos seus anteriores discos entre elas a épica “In Held ‘Twas In I”. É talvez a partir deste disco que a banda assume uma posição mais clássica, orquestral e melódica, muito vindo da inspiração musical de Gary Brooker, que tal como pode ser ouvido nos seus álbuns a solo, prefere uma vertente menos pesada e mais melódica com letras mais espirituosas e muitas vezes românticas.

1974 procol harumDois anos após o lançamento de Broken Barricades, o grupo volta ao estúdio para gravar mais um álbum. Grand Hotel tem uma repercussão bastante boa no público e crítica profissional que apesar de modificar a sua direcção musical ligeiramente, Procol Harum confirma o talento e a sua qualidade de uma forma mais emocional e mais leve com destaque para “Grand Hotel”, que fala sobre as viagens da banda e tempo na estrada, “Fires (Which Burnt Brigthly)”, “Bringing Home The Bacon” e “Robert’s Box”. O grupo continua com a senda musical de cariz melódico e mais orquestral com o álbum de 1974 intitulado Exotic Birds and Fruit que é também um dos meus favoritos da banda. Os britânicos têm aqui uma das melhores performances da sua discografia, tanto liricamente como instrumentalmente. Exotic Birds and Fruit parece, muitas vezes, dividido em dois com a seriedade e melancolia das primeiras cinco faixas e a descontração e liberdade das restantes faixas, confesso que este não é dos álbuns mais consistentes da banda, mas funciona e é uma melhoria em quase todos os aspectos do anterior Grand Hotel.

Procol Harum – Exotic Birds and Fruit

No espaço destes três anos, até 1977, o grupo ainda transmite um concerto e grava um disco ao vivo na BBC, BBC: Live in Concert, e lança dois álbuns. Estes dois álbuns parecem bastante inspirados no início dos Procol Harum com o regresso a um estilo mais sombrio e instrumentalmente mais complexo. Procol’s Ninth e Something Magic, lançados em 1975 e 1977, respectivamente, são dois álbuns bastante equilibrados e muito parecidos musicalmente, e consegue transportar os fãs para uma sonoridade mais “old-school”. Ambos os discos são dos meus favoritos com Procol’s Ninth a apresentar as muito boas “Pandora’s Box”, “The Final Thrust”, “Fool’s Gold” e o excelente instrumental “Adagio Di Albinoni”; Something Magic apresenta a história conceptual de três faixas intitulada “Worm And The Tree” (Part I, Part II, Part III), “Something Magic”, “Strangers In Space” e “Wizard Man” como faixas de destaque.

Hiato e Gary Brooker (1977-1991)

Este foi um período de paragem após 10 anos de actividade com diversos álbuns de estúdio e ao vivo lançados, e com muitos quilómetros percorridos por diversos países. O grupo decidiu fazer uma paragem só para regressar em 1991. Durante este período, Gary Brooker manteve-se bastante activo musicalmente e apresentou um conjunto de trabalhos de maior relevância e projecção comercial, para além de ter continuado na estrada com uma banda de apoio.

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Ao todo foram três álbuns de estúdio e um ao vivo, com uma direcção musical bastante semelhante com o álbum, mais tarde, lançado em 1991 pelos Procol Harum aquando do seu regresso. Fica aqui claro, na minha opinião, a inspiração para a pequena viragem no estilo do grupo a partir de 1972, o gosto pelo orquestral e pela melodia fica bem assente nestes três discos.

Gary Brooker – “Pilot”

Gary Brooker – “Lead Me To The Water”

Gary Brooker – “Echoes In The Night”

Lançados em 1979, 1982 e 1985 apresentam um lado até agora nunca dantes visto pelos fãs do artista com um lado mais emocional, profundo e maior parte das vezes romântico. Os dois primeiros álbuns são os melhores compostos por Gary Brooker neste período de tempo, apesar de Echoes In The Night ser, também, um disco de boa qualidade. Em 1996, o artista encerra a sua discografia a solo, pelo menos para já, com Within Our House gravado na igreja da sua cidade natal em Surrey.

O regresso ao activo (1991-)

Procol+Harum+-+The+Prodigal+Stranger+-+Autographed+-+CD+ALBUM-532173Um regresso no início da pior década para a música com um disco bastante diferente do tradicional Procol Harum. Em 1991, o grupo lança The Prodigal Stranger que é um dos melhores discos melódicos da década de 90. Confesso que existe uma enorme disparidade musical entre este álbum e os anteriores, mas também se nota a inteligência do grupo em adaptar-se aos tempos, produzindo um disco melódico, emocional e romântico com uma tonalidade bastante espiritual. Todo o álbum tem a capacidade de ser um hit comercial, apesar de não ter sido um sucesso, é bem aceite pelos fãs da banda e por uma parte da crítica profissional.

Procol Harum – The Prodigal Stranger

A intenção é clara, compor um álbum diferente dos anteriores e com maior suavidade, apresentando um hard rock melódico e simples em termos instrumentais. A dupla Keith Reid e Gary Brooker compõe um conjunto de 13 faixas que abordam temas como amor, sinceridade, felicidade e desilusão, entre outros. É um dos discos que mais vezes ouvi da banda e que ainda ouço com muita frequência. Surpreendentemente não teve a devida projecção comercial, talvez um reflexo da década falhada que os anos 90 foram para o hard rock e o rock de boa qualidade.

Esta foi uma década muito ocupada para a banda e Gary Brooker, para a banda com diversos concertos e algum tempo de estrada, para Gary Brooker com o lançamento do disco ao vivo Within Our House em 1996. Em 2003, seguiu-se o lançamento de The Well’s On Fire, o último disco da banda, neste a banda regressa um pouco às raízes com um disco bem mais complexo instrumentalmente e liricamente, apesar de haver uma forte componente melódica e sentimental. Faixas como o espectacular instrumental “Weisselklenzenacht (The Signature)”, “An Old English Dream” e “The VIP Room” contrastam com as melódicas “The Blink Of An Eye”, “Shadow Boxed” ou “The Question”. Apesar do contraste de estilo, as diferenças não são significativas e o álbum acaba por ser bastante consistente apresentando uns Procol Harum em muito boa forma.

Procol GaryBrooker_098_webOs criadores de “A Whiter Shade Of Pale” são, muitas vezes, reconhecidos pela composição desse único “single” que vendeu milhões de cópias e é uma das músicas mais tocantes de todos os tempos. No entanto, Procol Harum não são só essa faixa e apresentam uma discografia de invejar, para além de serem uma das minhas bandas favoritas são, também, uma das pioneiras no rock progressivo/sinfónico. O grupo tem uma legião de fãs em determinadas partes do globo onde fazem diversos concertos todos os anos, países como a Dinamarca, Alemanha, Reino Unido ou Suécia são sempre escolhidos para as suas “tours”. Dizer que são subvalorizados é talvez exagerado, mas é claro que são muitas vezes postos de lado, provavelmente porque tocam um rock progressivo diferente das restantes bandas do género. São, na minha opinião, uma das bandas que deveria merecer muito maior destaque!

Outros álbuns essenciais e concertos:

Procol Harum – “Understandably Blue” (Procol Harum‘s outtake)

Procol Harum – “Alpha” (Shine On Brightly‘s outtake)

Procol Harum – A Salty Dog (álbum na integra)

Procol Harum – “McGreggor” (A Salty Dog‘s outtake)

Procol Harum – Grand Hotel

Gary Brooker – “Give me Something to Remember You By”

Gary Brooker – “The Long Goodbye”

Gary Brooker – “Say It Ain’t So Joe”

Gary Brooker e Ad Visser – “No News from the Western Frontier”

Procol Harum – “Separation”

Procol Harum Live In Concert With the Edmonton Symphony Orchestra (concerto na integra)

Procol Harum BBC Live In Concert (concerto na integra)

Procol Harum In Concert 1977 (concerto na integra)

Procol Harum Ledreborg 2006 Live with The Danish Orchestra (concerto na integra)

// João Braga

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