Popular e infinitamente polémico, o Black Metal já serviu de tema a diversas obras, e os seus principais intervenientes já foram entrevistados vezes sem conta. Black Metal: Evolution of the Cult pretende contar uma nova história, uma história fiel, e que seja capaz de capturar a verdadeira essência do Black Metal. Foi sobre isso, e sobre muitas outras coisas, que conversamos com Dayal Patterson, jornalista, fã de Black Metal e agora, também, autor.

 

Ruído Sonoro: Apesar de o Black Metal se tratar de um movimento relativamente recente, de meados/finais dos anos 80, a quantidade de livros e documentários existentes sobre o tema é bastante extensa. Tendo em conta que já tanta coisa foi dita e escrita, porque é que decidiste lançar este livro? E porquê agora?

Dayal Patterson: Eu diria inícios dos anos oitenta, mas concordo contigo – já muito foi dito sobre o Black Metal. No entanto, penso que grande parte daquilo que foi dito, foi-o partindo de um ponto de vista exterior, o que é o mesmo que dizer que a maioria dos documentários e livros escritos foram criados por pessoas interessadas no género, bem intencionadas, mas não necessariamente bem informadas ou versadas no assunto. Como resultado, tendem a contar as mesmas histórias outra e outra vez, e a entrevistarem as mesmas pessoas, ou a deixarem distrair-se por pormenores algo irrelevantes, e assim nunca fazendo um relato esclarecedor do género enquanto todo.

Durante vários anos preferi que o Black Metal permanecesse algo escondido do mundo em geral, mas isso agora é impossível, e penso que seja melhor corrigir informações erradas de uma vez por toda. Senti que havia a necessidade de existir um livro detalhado, directo e honesto, que examinasse as personalidades e as “verdades” por detrás de toda a história, desde os Venom até aos dias de hoje. Por isso, escrevi-o [risos]. Soa um bocado arrogante, não soa? Mas sou um grande crítico de mim próprio quando sinto que os meus esforços não foram bem sucedidos, e partilhei este trabalho com membros dos Mayhem, Ulver, Gorgoroth, Emperor, Beherit, Rotting Christ, Sigh, etc., etc., e todos me deram grandes palavras de apoio, por isso senti-me encorajado.

RS: De que forma é que o teu livro se destaca de todos os outros? O que é que nos traz de novo?

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DP: Posto de uma forma simples, penso que seja a única tentativa de apresentar um olhar definitivo sobre o nascimento do género, o seu desenvolvimento e as personalidades por detrás dele. De forma geral, as pessoas parecem focar-se apenas na Noruega e, especialmente, nos anos entre ‘91 e ‘94 (e claro que esta é uma altura fascinante e importante), por isso quis realmente ir mais fundo e olhar para o que precedeu este período, assim como aquilo que o seguiu. Há quase duas décadas que leio entrevistas de Black Metal, por isso estava bastante consciente daquilo que já tinha sido dito e daquilo que não tinha. Por essa razão, assegurei-me de que o livro tivesse muita informação nova e, também, porque estou consciente de que alguns leitores seguem a cena há tanto tempo quanto eu (ou mais!). Também gostaria de dizer que ao alargar o número de artistas entrevistados para além dos suspeitos do costume, o livro oferece uma imagem muito mais realista de tudo.

RS: A composição e escrita deste livro, tão grande e tão pormenorizado, deve ter consumido muito tempo da tua vida. Quanto tempo é que demorou a terminá-lo?

DP: Cerca de quatro anos! Inicialmente pensei que demoraria muito menos, por tanta coisa ter sido conseguida durante os primeiros seis meses, mas não se tratava de um projecto que podia ser apressado facilmente, devido à quantidade enorme de artistas envolvidos e ao alcance do livro. Foi necessário muito tempo para estruturar e editar o livro, para não mencionar a escrita do mesmo e, por fim, conduzir todas as partes envolvidas, de forma a cooperarem!

RS: Black Metal: Evolution of the Cult apresenta-nos uma grande selecção de entrevistas às mais diversas bandas. Qual foi o teu critério de selecção?

DP: Foquei-me na evolução e desenvolvimento do Black Metal e nas bandas que tiveram um impacto musical e/ou cultural relevante , e/ou que ilustram um elemento particular do género. Para a parte principal foram entrevistadas aquelas bandas que ajudaram a influenciar outros, ou que fizeram algo de novo. Por exemplo, entrevistei bandas como os Gehenna, Emperor e Dimmu ao detalhe, de modo a discutir o lado sinfónico do género, e depois mencionei outras bandas que tocam o mesmo estilo, mas com menos detalhe, em vez de tentar cobrir cada banda de um modo superficial (o que não faria sentido nenhum, numa época de internet), ou bandas como os Primordial, Windir, Negura Bunget, Ulver, etc., no que diz respeito ao Folk Black Metal, de modo a examinar como é que essa influência entrou na cena. Por vezes, inclinei-me na direcção de músicos que simplesmente tinham boas histórias para contar, ou que tinham uma visão pouco usual do mundo (claro que eles são também artistas com valor, mas isso ajuda) – o livro foi feito para entreter, mas também para informar.

RS: O Black Metal mudou muito desde o seu surgimento, nos anos 80. O que é que pensas do cenário actual?

DP: É difícil ser-se objectivo porque estamos mesmo no centro disso. Daqui a uns anos será mais fácil olhar para trás e decidir. Mas, na generalidade, penso que a cena actual está de boa saúde. Existem mais bandas de Black Metal activas do que antes, tanto em termos de novas bandas (e mesmo novos sub-géneros), como no que diz respeito a bandas veteranas. Claro que isso significa mais bandas sem sentido, mas podemos, geralmente, ser selectivos (à excepção de concertos ao vivo e bandas de abertura). A cada ano que passa o catálogo aumenta, por isso, de certo modo, existe mais bom Black Metal hoje do que antes. Mas, ao mesmo tempo, não pode existir dúvidas em relação ao facto de que muitos dos álbuns fundamentais pertencem ao passado e, pondo até de lado a nostalgia, penso que é impossível que 2013 ou 2014 produza tantos álbuns fundamentais como aqueles que foram produzidos em 1993 ou 1994.

RS: O facto é que, enquanto género, tem vindo a perder muitas das características que o definiam inicialmente, e cada vez mais assistimos a novas abordagens, tanto a nível temático como sonoro. Pensas que o Black Metal está a perder a sua verdadeira essência? Concordas com aqueles que dizem que o Black Metal está morto?

DP: Não acredito que isso seja verdade. Obviamente que surgiram vários novos sub-géneros ao longo do tempo, sendo o mais óbvio o actual fenómeno do “Post-Black Metal”, com bandas como os Alcest e os Fen, que misturam Black Metal com Post-Rock ou Shoegaze, mas existirão sempre bandas que se mantêm fanaticamente fieis à abordagem da “segunda vaga” do início dos anos 90, ou até ao som Black-Thrash de meados dos anos 80.

Penso que uma das coisas mais interessantes em relação ao Black Metal é a de sempre ter combinado o revolucionário com o conservador – os pioneiros dos finais dos anos 80/inícios dos anos 90, como os Beherit, Darkthrone, Gorgoroth, Marduk, etc., viam-se a eles próprios como uma continuação do espírito das bandas dos anos 80, como os Bathory, Tormentor, Sodom (início) e por aí em diante, mas ao mesmo tempo, estavam também a criar um novo capítulo no processo.

Por isso, e respondendo à tua pergunta, o Black Metal não está morto. É talvez porém debatível se o underground do Black Metal existe da mesma forma que existia antes – a invenção da internet e a explosão da sua popularidade (desde o final dos anos 90/inícios de 2000 em diante), significa que é pouco provável que o género se possa esconder da mesma forma de antes e, consequentemente, existem muitos mais fãs casuais (e bandas casuais). Contudo, espero que este livro capte alguma dessa aura, tanto para aqueles que o descobriram depois, como para aqueles que estavam lá.

RS: Porque é que pensas que o Black Metal, talvez mais do que qualquer outro género, continua a exercer um tão grande fascínio?

DP: Combina uma série de qualidades; existe um lado muito primitivo no género, mas também um aspecto muito cerebral; deste modo, é capaz de ser inovador e, ao mesmo tempo, muito interessado na tradição. A música é imensamente variada, mesmo quando comparada com outros géneros de metal, e trata vários temas (espirituais, ideológicos, metafísicos) de uma maneira muito sentida e (quando está no seu melhor) com significado. As pessoas envolvidas não são, geralmente, os típicos músicos. Penso que seja justo dizer que, e sem querer soar horrivelmente pretensioso, que a música não é apenas extremamente obscura, mas toca também nalguma coisa profundamente transcendental.

 

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Entrevista por Rita Cipriano.

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