ROMA AMOR

Chanson/Dark Cabaret Itália Palco Igreja da Pena

Para o último dia, a Igreja da Pena tinha reservadas duas surpresas com uma sonoridade diferente do habitual para aquele espaço. A primeira materializou-se sob a forma de uma voz quente, rouca e sedutora, acompanhada por uma guitarra acústica e uma concertina na maior parte dos temas; passavam 15 minutos das 18 horas quando se ouviram os primeiros acordes de You Haven’t Changed (numa setlist com metade dos temas em inglês), despertando atenções pela calma e profundidade lírica do tema. O início melancólico e arrastado foi acelerado com o tema mais mexido Next, sendo que na música seguinte, Lo Lo Lo, houve lugar a uma momentânea mudança de instrumentos, para um momento algures entre o cómico e o macabro, num arranhado dialecto do norte de Itália; “I like it rough“.

A vocalista Euski revelou-se uma companhia extremamente agradável e bem disposta ao longo de todo o concerto, com algum humor para com a natureza das suas músicas, muitas histórias partilhadas, sorrisos e um à vontade em palco exemplar. Dedicando a música o pensamento A Cosa Pensi ao grande Carlos Matos, presente na primeira fila, este momento de doce magia mediterrânica foi apenas perturbado pelos problemas no som, cada vez mais evidentes com o passar do tempo. Inglês, francês e italiano foram as línguas ouvidas, num concerto com o mais caloroso apoio do público de todos os que já passaram por aquele espaço. Despedindo-se com a cover Amsterdam de Jacques Brel, na sua versão inglesa de David Bowie, o enorme apoio do público forçou Euski a voltar a palco para cantar um último tema, Occhi Neri. Decerto uma das melhores surpresas desta edição do Entremuralhas.

Setlist: You Haven’t Changed | Next | Lo Lo Lo | On The Wire | A Cosa Pensi | Love to Say Goodbye For | 17.3 | Una Torrida Estate | La Belda | Mon Amour | Les Amants De Saint Jean | Amsterdam | Occhi Neri

 

DIE SELEKTION

Minimal Electro/New Wave  Alemanha Palco Igreja da Pena

Se os problemas no som foram evidentes no concerto anterior, o desconfortável ruído sonoro aumentou e durante meia hora os técnicos tentaram resolver o problema, sem grandes resultados. Passavam já 40 minutos das 19 horas quando o vocalista dos Die Selektion se dirigiu ao público, que aguardava pacientemente, pedindo desculpa pelos problemas técnicos e prometendo que a banda ia tentar dar o seu melhor para os camuflar. Faltavam 15 minutos para as oito da noite quando finalmente se deu início ao primeiro concerto da história daquele espaço com uma sonoridade que apelava em todos os sentidos ao dançar, dançar, dançar; foi o nascer da Igreja do Corpo.

A vontade da banda em tocar só foi comparável à vontade do público de dançar, sendo que os problemas no som rapidamente foram esquecidos perante a intensidade do momento e a qualidade única dos temas dos Die Selektion, com uma sonoridade que arrisco a catalogar como “trumpetwave“. Temas como Raben e Du Rennst foram momentos especialmente deliciosos, sendo que o vocalista Luca Gillian deu especial intensidade ao concerto quando veio cantar para o meio da multidão. Foi preciso um enorme esforço para conseguir realizar este concerto, mas tanto a banda como o público tiveram à altura do desafio e tudo correu como se nada se passasse; quando a banda tem qualidade e o público respeito, tudo é possível.

Setlist: Jarre | Kühle Lippen | Wasser | Triumph | Raben | Meine Gedanken | Muskelberg | Du Rennst | Faust | Gottes Wille | Agent

 

NAEVUS

Alternative/Neofolk  Inglaterra Palco Alma

Neste dia 25, o Palco Alma foi estreado às 21:30 com um estranhíssimo transe de neofolk e rock experimental, importado directamente das ilhas britânicas. A sonoridade dos Naevus foi mais uma estreia absoluta no Entremuralhas; nunca dentro daqueles paredes se tinha ouvido algo assim, estranhamente selvagem, quase exótico. Para tornar as coisas ainda mais estranhas, a banda mostrou-se pouco comunicativa, fechando-se no seu mundo com uma prestação em palco impecável a nível instrumental. Especial destaque vai para o guitarrista Sam Astley, que após ter entrado em palco com o cigarro na boca partiu para uma atuação sua com alguma teatralidade e esporádicas expressões faciais orgasmáticas; e já agora, também não é todos os dias que se vê um baterista a tocar de pé, como fez Hunter Barr.

Pouco mais há a acrescentar sobre este concerto. Único e imprevisível, foi recebido com pouca euforia pelo público, provavelmente por terem sido sugados para dentro da atmosfera criada pela banda; apesar disso, foi uma das maiores enchentes de sempre do Palco Alma. O final foi marcado pela rebeldia, com o final do tema Waste a arrastar-se até o baixista e o guitarrista atirarem os seus instrumentos para o chão, libertando a fúria que arde na alma de um rockeiro. O público acordou e pediu mais um tema, mas não havia tempo, dado o atraso que marcou todos os concertos deste dia, motivado pelos anteriores problemas de som na Igreja. Fica para uma próxima, esperemos.

Setlist: Dominic Song | Idiots (Let Me In) | The Body Speaks In Tongues | Mistakes | Chairs Are Men | Visions, Rushed | Like Arms | Bleat Beep | Hasty Bastard | No, Remember | Frozen! | Oracle, Oracle | Waste

 

QNTAL

Electro/Medieval  Alemanha Palco Alma

O último concerto de 2013 no Palco Alma não poderia ter sido mais mágico. Durante uma hora, o castelo revelou-se um local especialmente adequado, enquanto os Qntal espalhavam as suas histórias da Idade Média, num contraste musical entre a moderna electrónica e a anciã música medieval; no fundo, a própria essência do Entremuralhas, um festival moderno dentro de paredes seculares. Mais do que um concerto, foi um espectáculo místico e teatral, abrindo com o tema Translucida, numa prestação única de Michael Popp no theremin. A banda revelou-se animada, comunicativa e com algum humor, quer nas histórias e descrições dos temas por parte da vocalista Syrah, como nos sorrisos dos restantes, e em uma ou duas tiradas mais bem dispostas do Michael, o homem que, num estilo vindo de outro século, trocou de instrumento como quem troca de camisa.

Numa enchente ainda maior do que a do concerto dos Naevus, a banda conquistou tudo e todos com 10 músicas escolhidas a dedo, com destaque para Palestinalied, Name Der Rose e Ecce Gratum. A violinista Mariko parecia especialmente encantada; sorridente e profissional, deu um apoio vocal a Syrah de cortar a respiração. Esta última, figura máxima da banda em palco, foi de uma simpatia quase maternal, descrevendo a origem dos seus contos de tempos idos e revelando ainda a sua paixão por Saramago. Quando a banda anunciou que o concerto estava a chegar ao fim, o público mostrou alguma tristeza, algo colmatado pelos risos após a frase do Michael Poppwe don’t wanne be late for the afterparty!“. A forte vertente mística e celeste deste concerto fez-me lembrar os Arcana naquele palco em 2011. Haveria melhor forma de fechar este palco?

Setlist: Translucida | Palestinalied | Entre Moi Et Mon Amin | Glacies | Schnee | Nihil | Name Der Rose | Veni | Ad Mortem Festinamus | Ecce Gratum

 

SOROR DOLOROSA

Cold Wave/Post-Punk  França Palco Corpo

No grande final do Entremuralhas 2013, os franceses invadiram o Palco Corpo. Este acto napoleónico teve início pouco antes da meia noite e meia, com a subida a palco dos Soror Dolorosa, banda cuja sonoridade lembra uns Fields Of The Nephilim inseridos num contexto de Cold Wave, ou talvez uns antigos The Cult com mais peso. O vocalista Andy Julia revelou um estilo bastante vincado, numa presença em palco que decerto agradou especialmente ao público feminino (e que o diga a fã histérica na fila da frente, que gritou desalmadamente durante todo o concerto!). Primeiro completamente vestido e depois em tronco nu, fumando e alternando entre rum e água para regar as cordas vocais, o vocalista teve uma prestação exemplar; falhas só mesmo no microfone a meio do tema Silversquare. As guitarras deram uma alma intensa ao concerto, sendo que foi a bateria de Frank Ligabue que teve alguns dos momentos mais técnicos e surpreendentes da noite.

Faixas longas e criativas, com momentos inesperados e muita garra; uma banda humilde em palco, com fogo a arder no peito. Os melhores temas foram guardados para o final: 5 pérolas seguidas, de Low End a Trembling Androgyneous, transportaram o público até ao clímax do concerto. Pareceu-me estar menos gente que na noite anterior, mas os que estavam na frente receberam a banda com merecida euforia. O grupo que mais queria ver nesta edição não desiludiu, tendo mostrado ainda simpatia para com o público quando conversaram com algumas pessoas na fila da frente após o concerto. Mas os franceses tinham apenas começado a invasão…

Setlist: Hologram | A Dead Yesterday | 43º | Dany | The Figure Of The Night | Low End | Silversquare | Sound & Death | Autumn Wounds | Trembling Androgyneous | Beau Suicide | Cathodicum

 

KAP BAMBINO

Noise/Synthpunk  França Palco Corpo

Loucura. Pura, desenfreada, incontrolável loucura. Nunca se tinha visto algo assim no Entremuralhas. Se Soror Dolorosa foi intenso, se na noite anterior os Nachtmahr tinham mostrado um som electrónico extremamente agressivo, nada se compara à demolição que os Kap Bambino executaram. Caroline Martial é a prova viva que ser possuída por demónios é uma dádiva em palco; incansável do primeiro ao último minuto, gritando, saltando, dançando no meio da multidão por duas vezes… De onde vem tanta energia?

A sonoridade da banda é marcadamente mais agressiva ao vivo do que em estúdio, tendo o público presente dançado como nunca se tinha presenciado no Palco Corpo. Pausa só mesmo para um encore, num concerto que durou apenas 50 minutos (acho que era impossível tanto a Caroline como o público aguentar mais aquela intensidade). Houve ainda por duas vezes uma pacífica invasão de palco, com os mais atrevidos a partilharem-no com a banda para dançar ao lado dos seus ídolos. Confesso, não conhecia a banda antes; confesso, não é algo que tenha especial prazer a ouvir em casa. Mas… Ao vivo? Todos os dias!

Setlist: 50 minutos de loucura

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