DER BLAUE REITER

Martial/Neoclassical Espanha Palco Igreja da Pena

Solene. Sombria. Deliciosamente fria. Assim foi a estreia da mágica Igreja da Pena na edição de 2013 do Entremuralhas. Apenas 5 minutos após a hora marcada, os espanhóis Der Blaue Reiter subiram a palco, para uma atuação de uma profundidade e beleza dignas das místicas paredes que os rodeavam. Sathorys Elenorth e Lady Nott mostraram em palco uma faceta bem diferente daquela que revelaram em 2011, naquele mesmo espaço, com os Narsillion. Sons marciais com melodias neoclássicas majestosas impuseram em ambos uma atitude mais distante durante a execução dos temas, uma distância quebrada pelos doces sorrisos que recebiam os sinceros aplausos no final de cada tema.

O público aderiu bem, enchendo 3/4 da Igreja e recebendo a banda de forma acolhedora. Foi quase uma hora de concerto, onde se destacam as brilhantes execuções dos temas Eyes Of The Lost e The Fall Of Light, bem como o tema final In Memoriam, o único com um ambiente diferente, menos pesado e portador de sentimentos de alegria e esperança. Como único ponto menos positivo só mesmo o sotaque marcadamente espanhol, aldrabando um pouco o inglês, sobretudo da parte do Sathorys; mas nada que manchasse este belo concerto.

Setlist: Eyes Of The Lost | The Grave Of Mankind | The Beginning Of The End | Fourth Reactor | The Fall Of Light | Conspiracy | Ascension | 1st Of May | Liberté | End Credits (In Memoriam)

 

LEBANON HANOVER

Minimal Wave/Post-Punk  Alemanha/Inglaterra Palco Igreja da Pena

O ambiente frio das músicas do concerto anterior tornou-se gélido quando os Lebanon Hanover subiram a palco, 20 minutos após a hora marcada (os Der Blaue Reiter terminaram precisamente à hora marcada para o início deste segundo concerto). William Morris e Larissa Georgiou criaram tal distância entre eles e o público que, se eles tivessem a tocar no Líbano e nós a ouvir na cidade de Hannover, o efeito seria o mesmo! Numa interação nula com a plateia, que enchia por completo a Igreja da Pena, sem um único sorriso do princípio ao fim, valeu a qualidade inegável das músicas para dar alguma alma ao concerto que mais me desiludiu em todo o festival.

O próprio som também não ajudou: tanto a voz do William como a da Larissa estavam pouco imperceptíveis, quer na fila da frente, onde tive nos primeiros cinco temas, quer cá mais atrás. Albatross, Gallowdance, No One Holds Hands e Totally Tot (esta última com uma dança estranhíssima do William) foram os momentos que mais entusiasmaram os presentes, mas não muito efusivamente. Não sei se esta forma de estar em palco é uma imagem de marca da banda; se for, é muito bem executada, ambos pareciam uma presença fantasmagórica, ausente; mas faltou muita coisa para o concerto ser tão mágico como os temas deste promissor projeto.

Setlist: Midnight Creature | Saddest Smile | Albatross | Kunst | Ice Cave | I Believe You Can Survive (Elegy For The Introvert) | No One Holds Hands | Die World II | Gallowdance | Totally Tot | Avalanche

 

TRIORE

Military Pop/Neofolk  Alemanha/Suécia Palco Alma

A solenidade omnipresente na Igreja da Pena foi transportada para o Palco Alma, onde quinze minutos depois das 21 os TriORE subiram a palco, marcando o regresso de Tomas Pettersson a Leiria, onde já tinha estado na primeira edição do Entremuralhas com os Ordo Rosarius Equilibrio. O tique-taque do relógio de The First Three Hours assinalou o início de um concerto onde a sonoridade neofolk clássica foi pintada com um toque militarista, num ritmo pautado e melodias etéreas, despertando sentimentos de amor e dor. O jogo de vozes entre o Tomas e Christian Erdmann foi arrepiante, criando momentos singulares que foram muito bem recebidos pelo público.

Três quartos de hora de concerto deram lugar não só a temas do álbum de estreia deste projeto, mas também a três faixas novas, que constarão no próximo EP da banda Farewell All My Cumrades (a ser lançado este Outono), cujo nome sugestivo foi ilustrado de forma subtilmente provocante na projeção de fundo. Apesar do seu tipo de som sério, a banda emanava felicidade ao tocar; mais prazer só mesmo no ar triunfal do Tomas Pettersson, quando no intervalo entre a terceira e quarta música apanhou uma borboleta em pleno voo. A banda despediu-se do público com um tema já bem conhecido para muitos, Roses 4 Rome dos Triarii, ao qual se seguiu um merecido aplauso caloroso.

Setlist: The First Three Hours | Fires Burn, Like Fires Do | Farewell All My Cumrades | The Missing Hour | Europa’s Dream | Ask Yourself, Do You Love Me? | Let Us Meet In The Trenches | No Tears Are Shed For You And Me | Pleasures & Tortures | Farewell All My Cumrades | There’s A Smell To Life That Never Dies | Then He Kissed Me (The Crystals cover) | Roses 4 Rome (Triarii cover) | The Last Three Hours

 

SPIRITUAL FRONT

Folk Noir/”Nihilist Suicide Pop”  Itália Palco Alma

E eis que, após três bandas, a solenidade foi finalmente quebrada; o Palco Alma metamorfoseou-se para o concerto mais romântico e intimista de todo o festival, como seria expectável dos Spiritual Front e da sua sonoridade emotiva de índole sexual. Num palco decorado com suaves luzes nos microfones e na bateria, com muito pouca iluminação, o efeito foi o de um concerto à luz das velas, num cenário completado pela projecção de fundo do filme Accattone (1961) de Pier Paolo Pasolini. A primeira tentativa de arranque foi à hora marcada, mas uma falha no computador fez com que a The Shining Circle fosse abortada antes do primeiro minuto. Pedindo desculpa, o belo e simpático vocalista Simone Salvatori optou por tocar a solo e em formato acústico a música Ragged Bed, enquanto as falhas técnicas eram resolvidas.

Findo esse tema, nova tentativa de tocar The Shining Circle, e… Nova falha! “Ok, so what’s wrong with you?“, disse Simone ao seu colega baixista Federico Amorosi em tom jocoso. Após mais um tema acústico a solo, o concerto lá arrancou 10 minutos depois da hora marcada com a setlist prevista, desenrolando-se sem problemas até ao final. A banda estava muito bem disposta, provavelmente com o corpo e espírito bem regados, interagindo de forma próxima com a plateia, que recebeu muito bem todos os temas, com destaque pessoal para I Walk The (Dead) Line (com participação vocal do público), Darkroom Friendship (dedicada aos que não têm vergonha de mostrar a sua sexualidade) e Song For The Old Man. Queixando-se de estar “muy fresquinho tonight“, o vocalista fez ainda um trocadilho com a Jesus Died In Leiria/Portugal. Uma hora de concerto que aqueceu corações e almas, fazendo o palco jus ao seu nome.

Setlist: Ragged Bed | We Could Fail Again | The Shining Circle | Cold Love (In A Cold Coffin) | I Walk The (Dead) Line | Darkroom Friendship | Jesus Died In Las Vegas | Hey Boy | Song For The Old Man | Soul Gambler | Slave | No Kisses On The Mouth | Bastard Angel

 

MERCIFUL NUNS

Gothic Rock  Alemanha Palco Corpo

Descendo para as habituais noites infernais no Palco Corpo, o público viu à hora marcada os germâncios Merciful Nuns subir a palco, transportando em Artaud Seth o verdadeiro legado dos Garden Of Delight. Uma introdução negra e sufocante, com o vocalista projetado na tela de fundo a cantar, antes de entrar em palco em carne e osso; assim foi o brilhante tema de abertura The Portal. Num concerto com pouca interação com o público, mas educadamente agradecendo os aplausos, foi na teatralidade e magnífica execução técnica a nível instrumental e vocal que a banda conquistou os presentes, muitos provavelmente desconhecendo que a qualidade única dos Garden Of Delight é agora transportada por estas “freiras misericordiosas”. Graças à Fade In, agora sabem-no!

Numa actuação mais uma vez de uma hora, tempo médio de quase todas as bandas deste dia, destaque para temas como Body Of Light (provavelmente o melhor da banda), The Maelstrom e God Aeon, este último com uma performance absolutamente majestosa de Artaud Seth, cantando de braços abertos numa plataforma, capa negra e óculos escuros, com o sol projetado no fundo; um verdadeiro Deus do rock gótico! Foi o concerto que mais me surpreendeu neste dia 24; sinceramente não esperava algo tão intenso, negro e cósmico. Uma viagem intemporal às maravilhas do puro som gótico, num festival que assim se categoriza.

Setlist: The Portal | Hypogeum II | Body Of Light | Radiation | All Days Are Black | Prediction | Genesis Revealed | The Return | The Maelstrom | God Aeon | Ancient Astronauts | Temple Of Hadit

 

NACHTMAHR

Aggrotech/Industrial  Áustria Palco Corpo

Para o final estava guardada uma negra explosão electrónica. Cinco minutos antes da hora marcada é projetado um anúncio “institucional” sob forma de aviso, protagonizado pelo vocalista Thomas Rainer, não se responsabilizando por quaisquer danos causados pelo apocalipse sonoro que se avizinhava. Uma introdução muito bem construída, não fosse a falha no som assim que Thomas entrou em palco, que quebrou o efeito. Não obstante, a banda entrou com uma energia enorme, vestidos em uniformes com o N de Nachtmahr no braço. Antes do terceiro tema, o vocalista pediu ao público em português para “dançar, dançar, dançar“, ordem anteriormente proferida pelo Carlos Matos na antevisão do festival. Regando com água por duas vezes o público (e os pobres fotógrafos), Thomas mostrou-se bastante comunicativo, proferindo frequentemente um arranhado “obrigadzzzzz“.

Deixem-me contar-vos uma história sobre um animal que vive entre o México e o Novo México nos Estados Unidos“; assim foi apresentado um dos temas mais agressivos da noite, El Chupacabra. De seguida o vocalista perguntou como se dizia “mulheres em uniforme” em português, servindo de abertura com a ajuda do público para a Mädchen In Uniform. Houve ainda tempo para apelar ao patriotismo, comparando a relação Áustria/Alemanha com a de Portugal/Espanha: dois países pequenos a viver na sombra do gigante vizinho, fazendo com que o vocalista trouxesse uma enorme bandeira austríaca para o tema Ich Bin. Certo é que, depois de apelar à revolta contra os espanhóis, voltou atrás e no intervalo entre as músicas BoomBoomBoom e Can You Feel The Beat?, pediu aos espanhóis da plateia que abraçassem os portugueses e vice-versa; um lindo momento de união no público!

O final foi o culminar de uma noite de loucura. Primeiro com o tema Die Letzten Dämme, anunciado como a forma de chamar a atenção do público; quando o som é brutal, há que acalmar o ritmo, num belo momento mais em tom de balada. Seguiu-se um tributo ao músico austríaco Falco, precedido por uma forte crítica do Thomas Rainer aos encores: “nós queremos tocar, vocês querem ouvir, encores são para quem precisa de confirmação do apoio do público“. Após o grande final com Katharsis, tempo ainda para umas palavras de apreço para com o público, “com mais energia do que a plateia do M’era Luna Festival, terminando com um “vivemos e morremos por momentos como este“.

Setlist: Tradition | Tanzdiktator | Weil Ich’s Kann! | Kriegserklärung | Feuer Frei | El Chupacabra | Mädchen In Uniform | Mütterchen Russland | Rise And Fall | Ich Bin | BoomBoomBoom | Can You Feel The Beat? | Deus Ex machina | I Believe In Blood | Die Letzten Dämme | Titanic (Falco cover)| Katharsis

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