A aposta no IV Santa Maria Summer Fest foi grande. Não só expandiram a sua divulgação para um nível imensamente superior, como também apostaram no regresso dos britânicos Doom, uma autêntica lendária instituição de crust. Fora isso, Beja tem um contexto na cena musical pouco conhecido para quem se dignou a deslocar para um festival livre (entrada e campismo) e que proporcionou três dias de festa num ‘Summer’ ausente. Ainda assim, a pouca chuva não afastou, de certo, quem investiu na sua presença.

1º Dia – 7 de Junho

Enquanto as nuvens assombravam o crepúsculo alentejano, os Alchemist chegaram para tingir de negro o que sobrava e, com um black metal pouco ortodoxo, arrancaram os primeiros aplausos do evento. Seguiu-se a explosão de Utopium, um conjunto capaz de mover os limites de uma audiência com o seu amontoado de faixas potentes, rápidas e com uma sonoridade quase à Rotten Sound a roçar o hardcore. A jogar em casa, os Ho-Chi-Minh marcaram presença na representação do industrial como uma simbiose das referências do género. Para deixar o festival boquiaberto, os Vaginal Penetration Of An Amelus With A Musty Carrot (ou, mais «simplesmente», VxPxOxAxAxWxAxMxC) chegaram da Áustria como um duo e levantaram poeira como um exército: o público respondeu de forma efusiva ao goregrind hilariante fabricado em palco, dando espaço para máscaras, danças originais e sorrisos de orelha-a-orelha (ou não fosse este um dos pontos mais altos do SMSF).

Ao contrário do previsto, seguiram-se os Göatfukk de forma a que Rolando Barros, baterista de The Sorcerer e Grog, pudesse chegar ao recinto, tendo em conta que acabara de actuar no Rock No Rio Sado, em Setúbal, na mesma noite. Mas indo ao que realmente interessa, os Göatfukk repetiram a sua presença no festival com um forte motivo – a primeira actuação com Wanderer, vocalista original da banda – e foi com temas como ‘We Are The Spear’ ou ‘Drunk Slut 666’ que os presentes melhor responderam, não deixando de parte uma versão de Wolfpack. E, finalmente, The Sorcerer com a sua primeira actuação ao vivo desde a sua formação, em 1994. O projecto de Hugo Andremon ganhou vida em palco e uma boa quantia de pessoas fez questão de o testemunhar de guitarra e microfone antes que os Grog chegassem para destruir o pouco que restou da primeira noite. Grog é isso mesmo: um estilhaçar de energias. Com uma actuação algo estendida (ou terá sido o cansaço de quem cá estava abaixo do palco?), deixaram de rastos quem aguentou até ao fim de uma excelente abertura de festival.

2º Dia – 8 de Junho

Infelizmente a chuva teimou em mostrar a sua presença, ainda que de forma algo contida, o que deve ter dificultado a vida a quem dedicou a tarde de sábado para conhecer a cidade de Beja. Mas é de concertos que se deve falar e os Revengeance estiveram a cargo do primeiro espectáculo do dia. O seu hardcore levantou pó e entusiasmou um ou outro fã que mostravam os seus passos de dança mais peculiares. Em português bem rasgado, os Morte Incandescente voltaram a carregar no black metal e nos tons negros para que finalmente chegasse a noite, antes que Gwydion regrassem aos palcos (um ano depois, pelo que os próprios deram a entender) e perfumassem alcoolicamente quem mais se entusiasma com as sonoridades folk.

Mudando para outro flanco, os Crise Total deram umas actuações mais intensas e bem recebidas. O seu punk já trintão mostrou uma força incrível e conquistou o público que ansiava por Doom. Não era de espantar que o anfiteatro exterior da Casa da Cultura de Beja estivesse tão bem composto… pois vinte anos (!) depois, os Doom voltaram a dar um concerto no nosso país. E que concerto violento, javardo e esmagador que nos deixaram para recordar. Um autêntico desfile de clássicos e ainda uma versão de ‘Sympton Of The Universe’, dos seus compatriotas Black Sabbath. Uma autêntica lição de crust, punk ou hardcore (como se tal coisa importasse no contexto) no momento mais simbólico desta edição do Santa Maria Summer Fest. Com a difícil tarefa de os suceder estiveram os Midnight Priest, que aproveitaram a ocasião para apresentar os seus temas e ainda uma versão de Iron Maiden, ‘Prowler’, que nada se destacou da restante musicalidade do grupo.

3º Dia – 9 de Junho

Devolvendo a mística do black metal. Foi assim que os Irae se apresentaram em palco para mostrar à audiência de que essência é feito este género em território nacional, não fosse esta uma das bandas mais conceituadas do género dentro das nossas fronteiras. Também com fama, os Holocausto Canibal descarregaram duas dúzias de faixas a um ritmo alucinante, com destaque especial ao novo “Gorefilia”. Ainda que com a mesma pujança de há uns anos atrás, a banda parece querer ser levada mais a sério e perdeu o seu ingrediente divertido de goregrind. Mais graça teve Sacred Sin e a sua pilha de convidados. Dando o pontapé de saída com ‘The Shades Behind’, desfilaram com bons motivos para grandes aplausos. Luís Simões (talvez mais conhecido pelas suas guitarradas em Blasted Mechanism ou pela cítara de The Firstborn), subiu ao palco para três faixas – ‘The Chapel Of Lost Souls’, ‘The Masonry’ como versão dos seus extintos Shrine e ainda a apoteótica ‘Ace Of Spades’, dos incontornáveis Motörhead. Houve lugar também para versões de ‘Arise’ (Sepultura) com a vocalista Muffy, dos Karbonsoul, e ‘Zombie Ritual’ (Death) com José Carlos, de Neoplasmah ou Martelo Negro. Para celebrar o feito, esteve também Rafael Maia, dos V12, banda que deu nome aos Sacred Sin, a interpretar ‘Comandos’.

Para marcar a presença do hard rock, estiveram os Ibéria. A banda que ficou célebre pela clássica faixa ‘Hollywood’ apresentou o seu novo vocalista – Hugo Soares, conhecido por dar voz aos Artworx. Ao longo de uma hora de concerto, deram um concerto típico de rock, com direito a solo de bateria e com batalhas de público em entoação de ‘Fuck The Teacher’. Uma actuação algo demorada, ainda que tenham puxado algumas vozes com ‘No Pride’ ou ‘Warriors’. Sem palavras e cerimónia, mas sim com uma presença imponenente, estiveram os eborenses Process Of Guilt. O fumo que cobriu as únicas luzes vermelhas sobre o palco, enquanto a banda tocou “FÆMIN” na íntegra, contribuiu para o peso que transmitem ao vivo. Sem solos, sem exibicionismos e sem espinhas, conseguem encher e conquistar o ouvido do público, hipnotizando os presentes com riffs e uma voz capazes de arrastar as sombras. Sobrou para os Alcoholocaust, com muita festa e álcool, o fecho de um certame espectacular.

Em suma, um saldo bastante positivo para uma edição que merece uma série de elogios. O espaço que envolveu o palco e o seu bom som (entre muitas outras vantagens do SMSF) devem ter agradado o suficiente para que se passe a palavra e que a edição de 2014 seja ainda maior e mais ambiciosa.

Texto por Nuno Bernardo e Rita Cipriano
Fotografia por Nuno Bernardo e Rita Mota

Leave a Reply

Your email address will not be published.