E como há riscos que valem a pena serem corridos, foi assim que deu lugar em Setúbal a primeira edição do Rock no Rio Sado, um festival de cartaz somente constituído por bandas nacionais e que durante 3 dias mostrou ao público o que de melhor se faz no panorama musical português.

Para quem estava séptico quanto às condições do mesmo, de certeza que se surpreendeu quando entrou no recinto – um palco enorme com imenso espaço em volta, uma grande variedade de barraquinhas de comes e bebes, um espaço dedicado ao público motard, zona de merchandising das bandas e ainda uma tenda lounge para animar as after-hours.

1º Dia – 7 Junho

A abrir o festival tivemos um pequeno discurso da Presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Maria das Dores Meiras, acompanhada por um dos padrinhos do evento, António Manuel Ribeiro dos UHF. A chuva pareceu dar tréguas e não podia haver melhor banda para estrear o palco senão os setubalenses LOW TORQUE. O seu stoner rock há muito que anda a dar que falar por todo o lado e não é para menos, a energia da banda em palco é algo de outro mundo, e apesar dos presentes ainda não serem muitos, não ficaram indiferentes a músicas como “Vampires”, “Karmageddon” e “Poisoned Lips, Dead Tongue”, todas saídas do seu álbum de estreia homónimo, lançado no ano passado. Uma banda que com certeza nos irá continuar a surpreender muito no futuro!

Seguiram-se os GROG, banda lisboeta de grindcore com influências do brutal death metal que festeja já o seu 21º aniversário. Sendo secalhar a banda que mais poderia fugir ao género do restante cartaz, conquistaram desde início o público que, a pouco e pouco, já compunha o recinto. Poderosos como sempre, são uma das bandas de referência entre a cena musical e temas como “Hanged By the Cojones” e “Necrogeek” destacaram-se por entre os presentes devido aos seus riffs de destruição e growls arrebatadores.

Formados em 1989 no Seixal, os R.A.M.P. são já uma das mais antigas referências do thrash metal nacional. São daquelas bandas que independentemente de estarem 10 ou 10 000 pessoas presentes, eles vão dar tudo por tudo para que o público nunca saia desiludido. Sempre comunicativo com o público, Rui Duarte juntamente com Ricardo, Tó Pica, Paulo e Caveirinha, foram-nos trazendo clássicos como “Insane”, “Dawn” e “How”. Moshs e circle pits fizeram-se sentir durante o concerto inteiro e o público tinha finalmente entrado no espirito do festival. Em músicas como “Hallelujah” podia-se ver claramente a entrega destes para com a banda.

Na reta final deste primeiro dia, coube aos Moonspell a última palavra. Conhecidos pelas suas gigantes atuações em palco, esta não ficou aquém das espectativas. Depois do lançamento do mais recente trabalho Alpha Noir / Omega White, “Axis Mundi” é já o tema referência de abertura dos concertos. Não faltaram temas do novo álbum como “Lickanthrope“ ou “Em Nome Do Medo”, mas sendo este o primeiro concerto que a banda dava em Setúbal, Fernando Ribeiro quis levar o público também a uma viagem por clássicos como “Opium”, “Vampiria” e “Mephisto”. Do albúm Wolfheart houve uma surpresa inesperada, com a música “Ataegina” que meteu o público a cantar, saltar e dançar ao som de um ritmo mais folk. O tempo ia correndo muito rápido e a vontade de ir pra casa era pouca, ainda assim, depois de muitos pedidos, a tão aclamada “Alma Mater” fez-se ouvir e ecoar por todo o recinto e para fechar em grande “Full Moon Madness” cria o ambiente ideal para finalizar esta noite mística que apesar de um pouco pobre face à adesão que era esperada inicialmente, correu sem nenhum imprevisto, que bem poderia ser normal sendo esta uma primeira edição.

2º Dia – 8 Junho

Passado este primeiro dia, as espectativas para o segundo eram grandes, mas a falta de nomes mais conhecidos do público português já adivinhava um dia ainda menos concorrido que o primeiro.A começarem relativamente cedo, as bandas SURVEILLANCE e DREAM CIRCUS tiveram que se esforçar um pouquinho mais para animarem e convencerem o público que ainda tímido se aproximava do recinto. Os THE FUZZ DRIVERS, mesmo a começarem por volta das 20h, ainda tiveram que enfrentar um recinto um pouco desfalcado mas que lá ia batendo o pé e abanando a cabeça ao som do seu rock n’roll com temas como “Discordia Song” e “Shine”.

Quando chegou a vez dos KANDIA pisarem o palco, a sua claque de fãs, intitulados por Luminous Legion, correu para as grades para assegurar a primeira fila. O projeto, iniciado por Nya e André em 2007, tem dado bastantes frutos e já vão no 2º álbum de originais. Influênciados por bandas como A Perfect Circle, Tool e Pink Floyd, a banda criou o seu próprio estilo pesado com voz feminina e temas como “All Is Gone” ou o single “Scars”, surpreenderam todos aqueles que ainda desconheciam o som da banda.

Tal como esperado, este dia não teve tanta adesão como o primeiro, mas quando chegou a vez de receber os grandes NOIDZ o público parecia que se tinha multiplicado. A abertura do concerto ficou a cargo de alguns dos motards que desfilaram com as motas em frente ao palco. Como já é habitual, os NOIDZ surpreendem-nos sempre pela sua energia em palco e pela incerteza do que podemos esperar. Uma coisa é certa, podemos sempre esperar um concerto cheio de adrenalina que faz o público vibrar ao limite.
A sua história já é bastante conhecida – 5 seres alienígenas que sobreviveram à destruição do seu planeta de uma outra galáxia a 20.000 anos-luz e que vieram parar à nossa terra para viverem entre nós e fazerem música com influências tradicionais incorporadas na sua junção de trance e metal. Não faltaram temas do novo álbum “2.0.1.3” como “Wasting Time” mas a preferida do público continua a ser a emblemática “Root Sounds From Earth” que encerrou assim este segundo dia do festival. A festa continuou pela noite fora na tenda lounge com os DJs António Freitas, Rui Santos e DJOaNa.

Em suma, a organização do festival está de parabéns, apenas tenho a apontar a dificuldade de tirar fotografias sendo que o photopit não estava acessível a toda a press. Tirando isso, fazem falta mais iniciativas deste género que valorizem a música portuguesa, porque ao contrário do que muitos dizem ou acham, temos à nossa frente uma multidão de artistas nacionais estupendos, só à espera de oportunidades como esta para poderem mostrar o seu trabalho. Ficamos à espera de uma próxima edição, de preferência com mais adesão do público.

Texto e Fotografia: Rute Pascoal

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