Seis anos depois do seu início, esta canção termina. Macumba Stereo é mais do que um álbum, é o sumário de tudo aquilo que foi, que é, e que será sempre La Chanson Noire. Foi sobre estas coisas, inícios e fins, que falámos com Charles Sangnoir, o homem do projecto que agora finda, La Chanson Noire.

Ruído Sonoro: Macumba Stereo apresenta-nos uma espécie de compilação do que ficou de fora dos dois primeiros álbuns. Estes temas foram revisitados para esta edição?

Charles Sangnoir: Sim – sempre achei que estes temas (e que em boa verdade são uma parte bastante importante de Chanson) mereciam duas coisas: uma produção mais apurada e a inclusão num album que lhes fizesse justiça. Assim sendo, sinto-me muito feliz por ter matado dois coelhos numa só cajadada.

RS: Alguns destes temas tinham já sido incorporados noutros lançamentos, como por exemplo no Gay Music For Straight People. Porque é que só agora é que decidiste juntá-los num álbum?

CS: Mais do que uma compilação, sinto que este trabalho é uma súmula do que significa La Chanson Noire. É a sua essência concentrada, digamos. E é também um fechar de círculo. Senti quase que um espírito de missão neste disco: compilar para a posterioridade esta meia dúzia de anos de insanidade e de rock ‘n’ roll sem guitarras. Prestar tributo a quem partilhou comigo esta viagem e preparar malas para a próxima.

Senti quase que um espírito de missão neste disco: compilar para a posterioridade esta meia dúzia de anos de insanidade e de rock ‘n’ roll sem guitarras.

RS: Porquê o nome Macumba Stereo?

CS: Para já, porque a temática macumbeira é parte integrante da minha vida pessoal, e depois porque considero que a música é a verdadeira magia, o verdadeiro elemento de transmutação. Assim sendo, a minha música toda ela é macumba. Macumba sonora, Macumba Stereo.

RS: Em relação ao single de estreia, “Horroscope”, o video centra-se no derradeiro encontro entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley, em Lisboa. Porquê a escolha deste tema, e de que modo é que se relaciona com a música?

CS: Tinha acabado de ler havia pouco tempo “A conspiração dos antepassados” do David Soares –  é um livro extraordinário que se foca em duas das minhas referências literárias e pessoais, e achando que a temática da música se entrosava perfeitamente (a letra de “Horrorscope” analisa o desgosto amoroso num sem fim de analogias astrológicas) decidi avançar com essa temática. Foi uma filmagem abençoada e toda a equipa foi de louvar. Um encontro perfeito.
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RS: As músicas de La Chanson Noire têm sempre um lado crítico muito forte, muitas vezes direccionado à própria sociedade. Pensas que seja importante que os artistas (nomeadamente músicos) cultivem uma certa perspectiva interventiva no seu trabalho?

CS: Sim, é indispensável. Admito que é um lado da arte que detesto, acho a arte interventiva maçadora, de uma forma geral. Prefiro o lado emocional e fantasista. Mas a verdade é que não sou imune ao que se passa em meu redor e como artista tenho o dever de acordar todos aqueles a quem chego – não pretendo semear opiniões, apenas suscitar o espírito crítico.

RS: La Chanson Noire era um projecto em ascensão e com um crescente número de seguidores. Porquê a decisão de lhe colocar um ponto final? Não pensas que, principalmente agora, a irreverência dos La Chanson Noire faz todo o sentido?

CS: As coisas são o que são, e La Chanson Noire trouxe-me muitas alegrias e surpresas. Mas todos os frutos têm o seu tempo e este já foi colhido. Será apreciado com mais gozo e carinho sabendo que teve o seu tempo.

RS: Vamos continuar, no entanto, a ver o nome Charles Sangnoir associado a outros projectos. O que é que podemos esperar deles?

CS: Há muitos desafios em mão e terei muitas novidades em breve. São coisas muito distintas e interessantes, e a seu tempo chegarão aos vossos olhos e ouvidos. Seja como for, 2013 ainda é um ano para fazer muitos espectáculos de La Chanson Noire.

RS: Poderá algum deles ser considerado “o principal”, aquele a que irás dedicar mais tempo?

CS: Na verdade, e correndo o risco de soar a filosofia new age de algibeira, o meu projecto principal sou sempre eu, independentemente das aventuras em que me meto. A minha música será sempre o meu projecto principal.

Mas a verdade é que não sou imune ao que se passa em meu redor e como artista tenho o dever de acordar todos aqueles a quem chego – não pretendo semear opiniões, apenas suscitar o espírito crítico.

RS: Iremos ter a oportunidade de voltar a ouvir os temas de La Chanson Noire, ou este é um capítulo para encerrar definitivamente a todos os níveis?

CS: Não pretendo deixar de tocar os temas de chanson, e seja qual for a encarnação que se apresente a seguir, temo que o Bordel de Lúcifer nunca feche verdadeiramente as suas portas…

RS: Olhando em perspectiva, quais foram os momentos mais marcantes associados à curta, mas rica vida deste projecto?

CS: Todos os amigos que fiz. Toda a gente que engrandeceu a minha vida e a minha carreira. E por outro lado a aprendizagem. Não sei se consigo destacar um ou dois momentos em específico: foram mais de 100 espectáculos, toquei com centenas de artistas de todas as partes do globo, colaborei com ídolos de adolescência, experimentei tudo, vi o melhor e o pior. Sinto-me imensamente feliz e grato, e se tivesse que morrer neste momento iria grato e feliz. Daí que talvez seja necessário enviar a canção negra para o seu repouso. O circulo está fechado, completo. Agora é altura de cumprir as exéquias em meia dúzia de espectáculos com alma e subir mais um degrau. Sempre a subir, até que o sol me queime as asas!

 

 

Entrevista de Rita Cipriano e David Matos.

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