São dez edições. Dez «fucking» edições, como seria dito por alguns dos presentes. Um cartaz de luxo dentro do panorama nacional, um preço apelativo e um ambiente fantástico foram três dos vários motivos para marcar presença na Sociedade Filarmónica Estrela Moitense em 2013. Cinco bandas para a noite de sexta-feira e doze para o dia seguinte. E para quem chegou em cima da hora na primeira noite, restou-lhes esperar largos minutos na fila para entrar, sendo alvo de alguns chuviscos que iriam chegando à vila da Moita.

Com Aernus em palco, foi com uma banda «da casa» que se abriram as hostes e se partiu o bolo desta festa. A sua música progressiva foi recebendo a atenção das primeiras pessoas da sala, podendo deixar algumas boas impressões. Em seguida, os primeiros rasgos de thrash do festival – Terror Empire. Com uma boa resposta do público, a banda aproveitou para tocar faixas do EP de estreia, “Face The Terror”, e servir com distinção o primeiro circle pit do Moita Metal Fest 2013. Seguiu-se uma autêntica descarga de crust, proporcionada por Atentado, bem ao estilo dos britânicos Doom. Um grande concerto, ultrapassando a fasquia deixada pelo álbum “Paradox” e com destaque para as novas faixas a figurar no próximo lançamento. Findada a velocidade, a sala encheu-se de fumo para Process Of Guilt. Os tons de azul que ilustravam as costas dos músicos não foram celestes, mas levitaram de igual forma. ‘Empire’, ‘Blindfold’, ‘Harvest’ e ‘Fæmin’ – 4 faixas para um concerto curto mas difícil de descrever. Sem palavras, tanto da banda como da larga audiência que já compunha a sala.

Para fechar a noite e com uma quantidade surpreendente de presentes, os Bizarra Locomotiva subiram ao palco para uma actuação devastadora. ‘Egodescentralizado’ despertou o calor com um Rui Sidónio a encher-se de suor em poucos minutos, enquanto transportava a sua máxima energia para o microfone que segurava. Já sem camisola, ‘Desgraçado de Bordo’ colocou um trampolim por baixo da frente de palco, tal era a quantidade de pulos e sobreposições de fãs de punho erguido em direcção ao quarteto. Depois de tão entoada nas curtas pausas e já em ritmo final, ‘O Anjo Exilado’ foi a celebração do costume com a sua letra a ser expulsa das gargantas como se fosse a última chance de o fazer. O vocalista acabou por abandonar o palco e juntar-se à festa cá em baixo, onde o inferno se fazia sentir, para inaugurar uma autêntica «royal rumble» e dar o toque final a um concerto eloquente, que deixou a SFEM bizarra e sem carris para nova locomotiva.

Uma bonita tarde de primavera estava desenhada para o segundo e último dia do Moita Metal Fest – este uma verdadeira prova de resistência com uma maratona de concertos das 15horas até às 2 da madrugada. Awaiting The Vultures, a «outra banda do Xinês de Switchtense», estrearam-se em grande estilo na SFEM, dando pormenores interessantes da sua música instrumental. Em crescimento estão os jovens Nuklear Infektion, revelando progresso e boa resposta por parte dos presentes ao seu thrash metal. Para além de temas do seu EP de estreia, houve tempo para ‘Troops Of Doom’ e ‘Ace Of Spades’ acolherem lá na frente quem se intimidava às movimentações. Mudando bruscamente a sonoridade e levando para as proximidades do palco um público um pouco distinto, os Shape levaram o seu hardcore à Moita antes de entrarem em hiato. Apesar de alguns problemas técnicos iniciais, a banda fez crescer água na boca para o material que irá gravar em seguida e o slam dance ganhou espaço num metal fest sem grande esforço.

E com cada vez mais rotação e evolução estão os Primal Attack, com alguns dos presentes já a conhecerem algumas das suas linhas vocais. Os competentes riffs, carregados de groove, e o carisma de Pica na voz foram bons motivos para se aderir à coesão do som da banda que, apesar de recente, mostra um satisfatório conforto em palco. Directamente de Ourém e com uma «sopa cerebral» para apresentar, os Brutal Brain Damage representaram o grindcore nesta décima edição do festival. A ausência de um baixo não tirou peso à dupla de guitarras aliadas à velocidade marcada pela bateria, sendo bem recebidos pelos fãs do género. Os membros de Pitch Black e Holocausto Canibal que compõem Dementia 13 revelaram o seu à vontade em incendiar uma plateia, sendo este dia uma das datas escolhidas para apresentação do seu EP de estreia, “Tales For The Carnivorous”, dando à SFEM a quantidade necessária de old school death metal antes da pausa para jantar.

Depois de nos encontrarmos em noite plena e o frio se começar a sentir, os The Firstborn subiram ao palco como um sexteto, contando então com Luís Simões na cítara. As três guitarras e o baixo devolveram uma massa surpreendente de sons acompanhada da melhor forma pelo monstruoso Rolando Barros na bateria. A singularidade vocal de Bruno Fernandes teve espaço para cobrir ‘Flesh To The Crows’ e malhas do mais recente “Lions Among Men” da melhor maneira possível.  A banda merecia um maior lugar de destaque no cartaz pelos seus quase vinte anos de carreira, mas a intenção era, de certo, guardar até ao fim da noite uma recta destruidora. Os Omission vieram de Madrid, juntamente com o seu speed/thrash, apetrechados de black metal, dando um visual algo exagerado aos hábitos do festival. Prestação competente mas que em nada superou as capacidades de grande parte do cartaz. Muito experientes em palco são os Web, de regresso à Moita e com “Deviance” para mostrar. A trupe liderada por Victor Matos existe desde 1986 proporcionou uma exibição de qualidade dentro das linhas do power/thrash progressivo. Seguiam-se os igualmente nortenhos Revolution Within, cada vez maiores. O seu crescimento tem sido exponencial e este concerto devastou ao máximo quem procurava a presença dos organizadores Switchtense nesta edição. Hugo Andrade largou as suas responsabilidades para partilhar o microfone com Rui ‘Raça’ Alves em ‘Pull The Trigger’, com este a incitar um movimento curioso – à medida que Raça simulava uma colher de pau, o público aumentava a sua rotação em circle pits bastante intensos. O caldeirão esquentou e a receita foi servida num wall of death provocante, agressivo e divertido – estava terminada uma das melhores actuações do festival.

Hugo acabaria por ser novamente chamado ao palco em For The Glory para ‘Life Is A Carousel’, embora já a meio da actuação. Antes desse momento, uma introdução fantástica e uma ‘Armour Of Steel’ bastante entoada, levando o metal e o hardcore darem as mãos na mesma festa, livres de preconceitos e manias. Não ficaram de fora ‘Some Kids Have No Face’ e ‘Fail Me’ num concerto constantemente violento com uma zona de combate que acabou por subir ao palco na final ‘Survival Of The Fittest’ – agarraram-se os microfones, fez-se crowdsurfing em cima do próprio palco e era difícil prever melhor fim à meia-hora que os For The Glory tiveram direito. Para fechar, os lendários Simbiose levaram o seu crust a alto nível ainda que a sala se fosse despindo. Ainda assim, quem ficou assistiu a uma celebração total e não faltaram pedidos para que se largasse a cerveja e se fosse para a frente de palco gastar as últimas pilhas do Moita Metal Fest versão 2013.

O festival tem o seu lugar conquistado na cena pesada nacional, sendo já uma referência. Se assim continuar, para o ano será ainda melhor. Sempre assim tem sido, superando sempre as expectativas à medida que cada vez mais pessoas apontam ao Moita Metal Fest um salão de festas extremas.

Texto e Fotos: Nuno Bernardo
Agradecimentos: Switchtense

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