O dia de São Valentim acolheu os gigantes do frio, os islandeses Sigur Rós, numa Lisboa enamorada e de frágil coração. Uma massiva adesão às várias entradas do Campo Pequeno não conseguiu, porém, encobrir o vento habitual das suas imediações, onde surgiu, curiosamente e quase perdido entre os vários portugueses e estrangeiros que nos visitaram para a ocasião, um Danny Cavanagh (de Anathema) sorridente.

A primeira parte, a cargo de Blanck Mass, projecto a solo de um dos fundadores dos britânicos Fuck Buttons, deu-se de forma pouco convencional mas algo discreta. O seu ambiente balançado de drone e progressão digital não teve a melhor ocasião para se revelar, mesmo com um final aparentemente mais «audível». No entanto a noite vinha da Islândia e não de terras de sua majestade: os cinco anos de intervalo entre esta e a última visita a Portugal por Sigur Rós foi encurtada por um Campo Pequeno visivelmente composto , com todos os presentes curiosos e entusiasmados para descobrir o que um véu pela frente do palco poderia cobrir.

Esse véu foi o mote para um jogo de sombras e luzes com uma linguagem estética bastante forte e apelativa à música do trio. A guitarra-cello de Jónsi, enquanto parecia ser o elemento mais emocionante de toda a sua sonoridade, foi rapidamente encoberto pelo angelical tom de voz do seu responsável. ‘Yfirborð’ foi a novidade de abertura, mas ‘Vaka’ mereceu a primeira ovação ao total de onze músicos envolvidos em palco. O pano cai nos aplausos de ‘Ný Batteri’ e entram no campo de visão as novas ideias e conceitos do que os Sigur Rós estão a guardar para um próximo trabalho: um widescreen recebeu umas projecções calorosas e sincronizadas com duas faixas completamente desconhecidas aos presentes, primeiramente tocadas ao vivo no dia anterior, no Coliseu do Porto. Os focos traseiros da tela e as multi-lâmpadas alternadas estenderam uma intimidade em palco, transportando a nata da alma de cada um às residências de Reýkjavík. Os mergulhos de ‘Sæglópur’ foram tão bonitos no «afogado» crescendo da faixa, uma ‘Fljótavík’ levou-nos ao mais alto das montanhas vulcânicas e ‘E-bow’ arrasou por completo quem restava com o seu som altamente definido, elevado e estrondoso.

A dissonância emocionante, fria e obscura dos violinos de ‘Varúð’ arrepiou a dorsal para uma ‘Hoppípolla’ colorida, florescida e quente. A sinuosa recta final fez-se sentir no final da fantástica ‘Brenninstein’, mais uma de um total de quatro novidades no alinhamento, onde o seu palco verde nos iludiu até ao silêncio do seu instrumental, revelando então um palco vazio. O encore haveria de surgir com dois pontos altos, distribuindo quase meia-hora em duas das melhores faixas do percurso de Sigur Rós. ‘Svefn-g-englar’ terá iluminado o espírito, enquanto que ‘Popplagið’ atropelou e abateu a arena. Mais uma fuga de palco, que viria a receber os onze elementos para um agradecimento a Lisboa. E não apenas um, mas sim dois após alguns segundos de ausência. Mas a magia ocorreu nesse intervalo: enquanto os aplausos surgiam de toda a sala de bancadas levantadas, a luz de palco desenhou um coração sob a plateia. O sentimento é recíproco e dificilmente não se poderia agradecer da mesma forma: Takk.

[one_half] Alinhamento:
Yfirborð
Vaka
Ný Batterí
Kveikur
Hrafntinna
Sæglópur
Fljótavík
E-bow
Varúð
Hoppípolla
Með Blóðnasir
Glósóli
Brennisteinn

Svefn-g-englar
Popplagið

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Texto e foto do palco por: Nuno Bernardo
Foto cedida por: Filipa Alexandra

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