A Ruído Sonoro teve o prazer de entrevistar Sophia Vieira, vocalista, compositora e membro fundador dos Cinemuerte. Aqui ficam as suas palavras:

RUÍDO SONOROOs Cinemuerte assinalam em 2012 uma década de existência. Que retrospectiva fazem da vossa carreira? O que destacam de positivo e quais os principais obstáculos?
CINEMUERTE: Não temos grande tendência para olhar para o passado, mas se nos focarmos na década que passou, os Cinemuerte não desistiram de si, independentemente de termos ou não alcançado objectivos. O que importa mesmo é vivermo-nos. Vivemos predominantemente momentos fantásticos. Noutras alturas e com os momentos menos bons, aproveitámos para digerir a situação  e ultrapassarmo-nos. Acreditamos que um obstáculo depende da perspectiva de entendimento.  Até pode representar uma oportunidade. Com a saída do Tiago, foi assim que a encarámos: vamo-nos repensar a 4. E a quatro, apesar das saudades do Tiago, sentimos que nada mudou. A força interior, a alma cinemuertense mantém-se inabalável, sempre com  a vontade de seguir nesta viagem.

RUÍDO SONORODurante estes 10 anos, lançaram três álbuns. Falem-nos um pouco de cada um e da evolução sonora que ouve até chegarmos ao Wild Grown.
CINEMUERTE: Cada disco é um retrato. Retrato da banda.  Os discos evoluíram mediante o nosso historial. O primeiro álbum é marcadamente um disco a dois, pois a formação inicial era constituída pelo João e por mim e por um recurso mais exaustivo a samplers, electrónica em geral. O segundo disco teve muito a ver com a ideia de convidarmos o Pedro Cardoso dos F.E.V.E.R. e o Ricardo Amorim dos Moonspell, daí o mesmo soar mais pesado. O terceiro registo, mais rock, coincide com as entradas do Fred Gonçalves e do Tiago Menaia na banda. Sobre os discos, penso que  cabe a cada um opinar.

RUÍDO SONOROQue questões aborda Wild Grown? Conseguem colocar-se no lugar do ouvinte e escolher um ou dois temas que considerem mais bem conseguidos?
CINEMUERTE: A grande temática do disco baseia-se na força intrínseca da natureza. Apesar de existirem tantas outras forças geradoras e contra-natura, nada nunca baterá a força da natureza com que o mundo nos presenteia. É a grande dádiva da nossa existência.  Julgo que por vezes, os humanos tendem a perder um pouco a noção da sua realidade. Os temas mais bem conseguidos. Esta é difícil… Talvez  The One & Only, Time Without You e Your Arms Around Me.

RUÍDO SONOROEste último álbum já foi lançado há mais de um ano. Como foi a recepção do público e como tem corrido a sua apresentação ao vivo?
CINEMUERTE: Quando lançámos o disco, partimos logo para a estrada.  Uma estrada de norte a sul. Desta vez, fomos um pouco mais justos com o sul do país, fizemos duas datas no Algarve, depois fomos seguindo em direcção ao norte, desta feita, nada ficou por fazer a não ser as ilhas. Para nós, transpor o disco para concerto é outro dos grandes desafios.  Dá-nos sempre uma oportunidade de revisitar os temas noutra perspectiva, para além do brilho que nos toca cá dentro quando nos voltamos a encontrar com os fãs.

RUÍDO SONORO: Os Cinemuerte são uma banda cuja sonoridade está na fronteira entre o Rock e o Metal. Acham que isso tem afastado público (quem prefere Metal acha-vos demasiado “soft” e quem prefere Rock demasiado pesados) ou, por outro lado, tem juntado público de ambos os universos musicais?
CINEMUERTE: Esta é uma grande verdade, e esta é a primeira vez que alguém de fora se apercebe desta situação. A sonoridade que nos caracteriza, a nosso ver, traz algum carisma à banda.  E carisma, traz amores e ódios.  O que é bom. É bom que algo se distinga, a bem ou a mal. O que importa mesmo é que o nosso som nos saia das entranhas, sem estratégias.

RUÍDO SONORO:  Na minha opinião, a qualidade da vossa música muito merecia mais reconhecimento, o que não se reflecte na quantidade de pessoas que conhecem Cinemuerte. O que acham que está a faltar? Pouca divulgação, poucos concertos?
CINEMUERTE:  Tempo e dinheiro.

RUÍDO SONORO:  Como pretendem os Cinemuerte encarar o futuro? Quais os objectivos a médio prazo?
CINEMUERTE: O objectivo será sempre focado na música, compondo, desafiando-nos.  O resto, é e deverá sempre ser uma consequência desse trabalho.

RUÍDO SONORO:  Se pudessem escolher um país/evento para tocar, onde seria?
CINEMUERTE:  Eu curtia mesmo tocar nos Estados Unidos. É o país mais rico e mais receptivo a meu ver, mais enriquecedor, que alia a música a toda a máquina do entretenimento em geral, e isso desperta-me a vontade. Um disco nunca é só um disco, é um sonho que convida a viajar pelos sons, pelas cores, pelos talentos de equipas artísticas que se aliam às bandas.

RUÍDO SONOROQual a vossa opinião sobre o panorama musical actual em Portugal? Querem destacar alguns projectos que achem mais interessantes?
CINEMUERTE: O panorama musical actual é diversificado comparativamente com o passado,  trazendo maior hipótese de escolha,  mas que por sua vez cria alguma dispersão. A oferta é tanta, que é difícil o público focar-se em meia dúzia de bandas boas. As condições são escassas. O país é pobre em  matéria de espaços para tocar e a política  da esmagadora maioria dos bares é não pagar a prestação da banda. Facturam e bem em bebidas e tratam as bandas como o bobo da corte. Só mesmo alguns  festivais é que estão atentos e são um pólo dinamizador. Infelizmente, isto não se passa com todos. A grande maioria ainda encara a maior parte das bandas nacionais, salvo raras excepções, como bandas de 2ª linha e e isto reflecte-se no tratamento dado às mesmas. Depois, em relação aos principais players da indústria, de uma forma generalizada,  as regras do jogo não sao justas e transparentes. As oportunidades não são equitativas. Resumindo e concluindo, saltem fora desses submundos e criem o vosso mundo. Nele nada vos desapontará.

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