A excitação típica que marca o início de um festival pairava no ar. Minutos antes do concerto de abertura do Entremuralhas 2012, o público estava disperso: uns tinham acabado de ver o desfile de alta-costura Once Upon Midnight, de Kristine, outros cumprimentavam velhos conhecidos à entrada e os mais atrasados chegavam ofegantes às portas do castelo. Vindo um pouco de todos os cantos do monumento  gótico, e, noutro contexto, de todos os cantos da Europa, foi chegando público ao íntimo Palco Igreja da Pena, que à hora marcada tinha já uma plateia bem composta.

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Jo Quail

Ambient/Experimental  –  Inglaterra
 

Coube à britânica Joanna Quail dar início a mais uma memorável edição do Entremuralhas. Abrir um evento desta dimensão é motivo para orgulho, mas acarreta enorme responsabilidade, algo que Jo acusou fortemente nos primeiros minutos. Num misto de contemplação maravilhada e timidez nervosa, foram precisos quase 5 minutos de sufocante pressão para que a artista quebrasse o gelo ao enunciar a regra número 1 de tocar violoncelo eléctrico: ligá-lo à corrente.

Após este momento de boa disposição e visível embaraço para Quail, seguiu-se uma tímida introdução, pouco interessante, um morno aquecimento. Foi com Rex Infractus que a magia começou a aparecer, à medida que a britânica se soltava e ganhava confiança. Descalça e com um vestido simples e bastante aberto, Jo Quail foi explicando a génese dos temas que ia tocando, numa setlist de crescente complexidade e mestria.

A sincera simpatia da artista e o carácter íntimo proporcionado pela Igreja da Pena não deixaram nenhum dos presentes indiferente, sendo que fomos ainda presenteados no final com um tema novo. Se o início foi algo atribulado, o resto do concerto roçou a perfeição, tendo ali Jo Quail ganho certamente novos fãs, bem merecidos.

Setlist: Intro/Vigil | Rex Infractus | The Falconer | Tu Florentine | Prelude | [untitled new song]

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A multidão abandonou a Igreja e quase toda desceu para jantar, descida essa acompanhada por música medieval tocada ao vivo por um duo anónimo no cartaz. Enquanto uns se deliciavam com o porco no espeto, outros comiam o que traziam de casa. Saciada, a moldura humana foi lentamente subindo até ao Palco Alma, onde os Stellamara se iam preparando.

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Stellamara

Ethnic/Heavenly Voices  –  Estados Unidos
 

Foi com um atraso de quase 20 minutos em relação à hora marcada que se ouviram os primeiros acordes do grupo estado-unidense. Seis músicos, acompanhados de um número ainda maior de instrumentos, fizeram jus ao nome do palco. Música cheia de alma, inspirada em diferentes culturas oriundas dos Balcãs, tornaram este o concerto no mais diversificado do Entremuralhas 2012.

Destacando-se sobretudo o incansável clarinete de Peter Jaques e a grande voz de Sonja Drakulich, a banda levou os presentes numa viagem pela região da Europa onde no passado se fundiram culturas da Europa e Médio Oriente, onde a Grécia Antiga e mais tarde o Império Otomano deixaram fortes marcas. Assistimos por isso a temas diversificados e diferentes, uns mais orientais, outros com um toque mais jazz; uns mexidos, outros mais calmos e progressivos.

Como pontos altos, de destacar a faixa Szerelem e o momento de beleza em estado puro proporcionado pela Priturisa Se Planinata. Apesar de tudo, houve aspectos neste concerto que poderiam ter sido melhorados, a começar pela diminuta interacção da banda com o público. Além disso, se a maior parte dos temas escolhidos eram interessantes, houve também outros que não resultam tão bem ao vivo. No entanto, para os fãs da banda, foi decerto mágico, especialmente o momento em que uma dançarina de branco foi para o alto das muralhas dançar o tema Morq-e Shab, Into Navaii.

Setlist: Strumica | Szerelem | Aman Doktor | Geljum Daje | Zendro | Song To The Siren  | Delvino, Into Ti Kako | Endeka | Priturisa Se Planinata | Aman | Morq-e Shab, Into Navaii | The Cuckoo

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Rome

Neofolk/Pop-Noir  –  Luxemburgo
 

Sete anos de existência foram mais que suficientes para moldar os Rome num dos projectos contemporâneos mais interessantes e ambiciosos de neofolk. O seu calmo e divertido líder Jérôme Reuter subiu a palco com algum atraso, que motivou cortes na setlist prevista. Clamando pelo seu whisky, foram precisos apenas alguns segundos para os presentes serem abraçados por uma atmosfera única de intenso relaxamento e profunda reflexão.

No segundo tema, Jérôme trocou o primeiro refrão do tema The Spanish Drummer para “portuguese drummer“, mas poucos se pareceram aperceber. Foi sempre no mesmo tom solene que o espectáculo se desenrolou, algo bem presente na figura altiva, mas não excessivamente, dos músicos em palco. Apesar deste ambiente mais sério, foi com momentos de boa disposição que se fez a interacção com o público, chegando Jérôme a perguntar as horas a alguém na primeira fila ao fim de 5 temas, seguramente para melhor orientar a setlist no tempo que dispunha.

Num concerto que serviu sobretudo para apresentar o seu mais recente trabalho triplo, Die Æsthetik der Herrschaftsfreiheit, sentiu-se a falta de alguns clássicos como To Die Among Strangers. Apesar disso, foi um concerto memorável, com uma execução vocal e técnica imaculada. Músicas como Seeds Of Liberation, Little Rebel Mine e Swords To Rust/Hearts To Dust foram os momentos altos do concerto, que arrancou imensos aplausos de uma plateia contagiada pela beleza que emanava do palco.

Setlist: The Consolation Of Man | The Spanish Drummer | Der Escheinungen Flucht | In Cruel Fire | A Pact Of Blood | Das Feuerordal | The Merchant Fleet | Seeds Of Liberation | To Teach Obedience | Sons Of Aeet | Little Rebel Mine | Birds Of Prey | Neue Erinnerung | The Torture Detachment | Reversion | Swords To Rust/Hearts To Dust

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Enquanto um mar de negro descia a colina para o Palco Corpo, já se ouvia o segundo tema dos Clan Of Xymox. Alguns devem ter rogado pragas, eficaze, por o concerto ter começado antes de alguém ter tido tempo de se deslocar até ao último palco da noite, porque assistimos à única falha de energia de todo o festival. Esta bem-vinda pausa deu para o público que vinha de Rome compor melhor a plateia, tendo o concerto recomeçado com o tema She Did Not Answer.

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Clan Of Xymox

Darkwave/Gothic Rock  –  Países Baixos
 

Não sendo uma estreia em Portugal, os Clan Of Xymox foram uma estreia para mim e muitos outros da plateia. Para os afortunados que já tinham tido oportunidade de os ver, parece-me nunca ser demais assistir a um concerto de uma das mais emblemáticas bandas de música gótica de sempre, uma das fundadoras do gothic rock e que ainda hoje toca com a mesma sonoridade e qualidade dos tempos idos. Com tanto vigor, quem diria que em 2013 festejam já 3 décadas!

A vasta experiência da banda sobressaiu em palco, numa actuação que contou com os seus grandes clássicos, visitando um pouco de toda a discografia e incluindo também três temas do último álbum. O som estava próximo da perfeição técnica de estúdio e toda a banda esteve irrepreensível. O enigmático e misterioso Ronny Moorings mostrou um português surpreendentemente bom, sabendo interagir com o público nos momentos certos.

Num concerto que só pecou por não ser mais longo, houve ainda espaço para uma pequena surpresa no final, onde os Clan Of Xymox substituíram a habitual cover ao vivo do tema Heroes de David Bowie pela inconfundível Venus dos Shocking Blue. Um final divertido para um concerto memorável.

Setlist: Stranger | Love Got Lost | She Did Not Answer | In Love We Trust | Hail Mary | Emily | Louise | Jasmine And Rose | Farewell | Delete | My Chicane | A Day | Venus [Shocking Blue Cover]

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Suicide Commando

Dark Electro/Industrial  –  Bélgica
 

Porventura a banda mais aguardada do Entremuralhas 2011, forçada a cancelar a estreia em solo nacional por motivos de saúde do seu mentor Johan Van Roy, para desespero de muitos. Tinha ficado prometido pela Fade In e pela própria banda a sua inclusão no cartaz deste ano, e assim foi. Exigia-se um espectáculo imaculado; afinal de contas este não foi um concerto com um atraso de alguns minutos, mas sim de um ano!

Foi sem dúvida o final de noite mais negro e intenso das três edições do Entremuralhas. O público presente foi atordoado (em bom sentido, entenda-se) por uma muralha sonora explosiva, uma batida forte e agressiva, uma voz quase gutural rasgante, uma atmosfera de selvagem negrume. O início foi marcado por temas menos emblemáticos, tendo sido o melhor guardado para a segunda metade da setlist, o que resultou num crescendo de efusividade no público, que dançou loucamente nas filas da frente.

A meia hora final foi especialmente sublime. Depois do grande single de 2012 Attention Whore, seguiram-se clássicos como Love Breeds Suicide e Bind, Torture, Kill, onde Van Roy desceu do palco até ao nível do público e emprestou o microfone a quem o quis ajudar no refrãoCom a multidão em êxtase, Johan despediu-se do público e disse que nos encontraríamos de novo no inferno. E assim foi, pois a banda regressou para um encore com See You In Hell e Hellraiser, que sugou as últimas energias e deu ao final do concerto um toque especialmente negro. Melhor não poderia ter sido.

Setlist: Severed Head | Hate Me | God Is In The Rain | The Perils Of Indifference | Death Cures All Pain | Cause Of Death: Suicide | Dein Herz, Meine Gier | Attention Whore | Love Breeds Suicide | Die Motherfucker Die | Bind, Torture, Kill | See You In Hell | Hellraiser

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Depois do louco concerto dos Suicide Commando, a negra moldura humana abandonou o castelo. Os mais corajosos seguiram ainda para a habitual after party no Beat Club, enquanto que outros foram recuperar forças para o segundo e último dia de concertos. Já quem apostou só neste dia, decerto não ficou arrependido, embora o segundo dia reserva-se belas surpresas.

One Response

  1. Pedro Polónio

    não houve nenhuma falha de energia no concerto dos clan of xymox… houve um “system overloaded” nas palavras do vocalista.
    =:-)

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