Como o mundo da música não está só relacionado com os acordes mais pesados e as vozes mais graves, a RUIDOSONORO e o seu fotógrafo/repórter Nuno Bernardo não desperdiçam a oportunidade de revelar aos nossos leitores como correu todo o restante Rock In Rio Lisboa. Após um primeiro dia de meia-casa, o Parque da Bela Vista contou sempre com uma audiência acima das 70 mil pessoas nos restantes. As camisolas negras e as movimentações mais bruscas não tiveram um lugar tão vincado no festival e ficou bastante provado que a organização do mesmo consegue agradar a qualquer tipo de público por todo o tipo de iniciativas e artistas em cartaz.

Recorde-se que a reportagem do primeiro dia do festival, contando com METALLICA no fecho do Palco Mundo, já está online e pode ser lida aqui.

Dia 2 – 26 de Maio

Um dia marcado pelo mar de gente que se reuniu no recinto, atingindo o recorde máximo das 83 mil pessoas muito devido às bandas em cartaz no Palco Mundo. No entanto, no lado oposto do parque, RITA REDSHOES & MORENO VELOSO deram os primeiros acordes quentes e típicos de um Verão tropical. O Palco Sunset há muito que motiva a união do melhor da música portuguesa com o melhor da música brasileira, não sendo este encontro uma excepção. MAFALDA VEIGA & MARCELO JENECI mantiveram a linha exótica nesse mesmo palco antes de o público se começar a dividir entre XUTOS & OS TITÃS e LIMP BIZKIT, estes já no palco principal.

E quem optou por LIMP BIZKIT presenciou provavelmente uma das melhores actuações de todos os cinco dias do Rock In Rio Lisboa 2012. Fred Durst e companhia surgiram em palco num modo completamente explosivo e pujante, fazendo saltar todos os fãs ao som de ‘My Generation’. O concerto iria-se manter ao mais alto nível, mesmo na hora morta da cover de The Who – ‘Behind Blue Eyes’ – que contrastou bem com as famosas ‘My Way’, ‘Take A Look Around’ e ‘Rollin” a fechar. Seguiram-se os THE OFFSPRING, que com o seu espírito bastante teenager e alegre, conseguiram rejuvenescer ainda mais a plateia. Não ficaram de fora temas como ‘Get A Job’, ‘Americana’ ou ‘Pretty Fly (For A White Guy)’, mas foi com as duas músicas finais que o Parque da Bela Vista mais tremeu – ‘Kids Aren’t Alright’ e finalmente a clássica ‘Self Esteem’ fecharam uma actuação que teve tanto de monótono como de agradável.

A principal atracção do dia era LINKIN PARK e tal foi algo que não passou despercebido. Os fãs do seu primeiro trabalho, “Hybrid Theory”, tiveram neste dia 26 de Maio uma agradável surpresa devido ao alinhamento apresentado pela banda da Califórnia. Os primeiros sinais de abertura foram mesmo com ‘A Place For My Head’, voltando a visitar o álbum em temas como ‘Runaway’, ‘With You’, ‘Crawling’ e não só. Todas as fases da banda acabaram por ser contadas neste memorável concerto, até mesmo a pequena homenagem aos Beastie Boys com um excerto do seu sucesso ‘Sabotage’. ‘In The End’, ‘Papercut’ e ‘One Step Closer’ na recta final foi motivo mais que suficiente para se abandonar o concerto com um sorriso de orelha a orelha. E abandonar literalmente, pois o recinto deve ter ficado com meia-audiência para receber os já lendários THE SMASHING PUMPKINS, algo que a banda de Billy Corgan não merecia. Para alguns um concerto morto e pouco motivante, para outros a banda do dia. O seu estatuto e sonoridade divide opiniões, mas é inquestionável a qualidade de som apresentada: momentos como ‘Starla’ e a conhecida ‘Cherub Rock’ chamaram a atenção aos que estavam a ignorar a banda. Directos a dar um concerto de rock, foi assim que os THE SMASHING PUMPKINS se presentearam e quem esteve lá para os ver não pode ter saído insatisfeito.

Dia 3 – 1 de Junho

Finalmente as grandes diferenças de público. As actuações de MAROON 5 e IVETE SANGALO marcadas para este dia motivaram a presença de inúmeras jovens com idades máximas a rondar os 15 ou 16 anos, assim como de uma boa percentagem de público brasileiro. No entanto o dia começou com uma enorme mistura de nacionalidades com os ORQUESTRA TODOS no Palco Sunset. Uma mistela de músicas do mundo, com artistas dos quatro cantos, parece ter passado algo despercebida. Já os THE BLACK MAMBA, com TIAGO BETTENCOURT, parecem ter chamado mais a atenção dos presentes através do bonito espectáculo de guitarras que demonstraram. Os ORELHA NEGRA, com os brasileiros HYLDON e KASSIN, entregaram um hiphop bastante versátil e capaz de criar ligações com a música tradicional brasileira.

Enquanto o Palco Sunset dava cartas, os EXPENSIVE SOUL mereceram os primeiros aplausos do dia no Palco Mundo. Temas como ‘O Amor é Mágico’, ’13 Mulheres’ e ‘Eu Não Sei’ são sempre os maiores pontos de destaque da banda portuguesa que soube dar a devida importância aos atletas olímpicos que também representam o nosso país. Quase ao mesmo tempo, também BOSS AC dava espectáculo no lado oposto do recinto. Em conjunto com ZÉ RICARDO, PAULA LIMA e SHOUT não ficaram de fora ‘Boa Vibe’, ‘Princesa (Beija-me Outra Vez)’, ‘Dinero’ e a curiosa ‘Sexta-Feira’. A união do seu hiphop com as vozes brasileiras foi mote para uma das melhores actuações do Palco Sunset ao longo dos dias, não podendo acabar melhor com ‘Baza’. De regresso ao maior ponto de foco do Rock In Rio Lisboa, IVETE SANGALO mostra-se imparável como sempre. Seja a aplaudir, a saltar ou a cantar, tanto a própria como o público ficam sem fôlego. Irreverente e presença habitual nas edições portuguesas do Rock In Rio, revisitou toda a sua carreira numa hora de concerto e deixou toda a gente com vontade de mais.

Mas rapidamente os MAROON 5 removeram essa ideia. A banda, agora de regresso ao topo da música mundial, soube deliciar os fãs que os receberam pela primeira vez em solo português, não esquecendo ‘This Love’ e ‘Harder To Breathe’ quase a abrir o seu concerto. A actuação manteve-se em alta, subindo ainda mais a fasquia com o fantástico momento de ‘Moves Like Jagger’. ‘She Will Be Loved’ fechou de um modo calmo e com vozes em uníssono um dos melhores concertos que o Palco Mundo recebeu este ano. Não tão bem esteve LENNY KRAVITZ. Apesar de ter sempre a sua imagem única e o seu estilo inconfundível, o músico parece ter desmotivado a audiência ao apresentar temas do seu mais recente álbum “Black and White America”. Foi com a cover de ‘American Woman’, ‘Believe’, ‘Fly Away’ e ‘Are You Gonna Go My Way’ que o nova-iorquino soube agradar aos fãs menos conhecedores da sua discografia.

Dia 4 – 2 de Junho

A chuva ao início da tarde não impediu que, a um sábado, o Parque da Bela Vista se mostrasse bem composto logo desde cedo. De capa e capuz, o público em geral procurava chegar aos vários pontos comerciais e publicitários do recinto. Enquanto isso, a portuguesa ANA FREE subia ao Palco Sunset para o dividir com os espanhóis THE MONOMES. A mistura de pop e rock parece ter sido suficiente para arrancar vários aplausos de um público maioritariamente desconhecedor do trabalho de ambos. Já com AMOR ELECTRO foi diferente – a banda nacional conta com dois singles recentes bastante famosos e com um leque de versões de clássicos do rock português. O brasileiro MOSKA juntou-se a Marisa Liz e companhia para mais uma bonita mistura de sotaques separados pelo oceano Atlântico. E em menos de nada, THE GIFT subiam ao Palco Mundo.

Sónia Tavares chega-se então à frente do palco e lidera a banda com ‘Driving You Slow’. Este foi apenas um dos muitos sucessos que o grupo português fez questão de mostrar aos presentes, com especial destaque para a fantástica ‘Primavera’. Uma actuação quase irrepreensível, só quem não era fã é que pode não ter gostado. Enquanto isto, o Palco Sunset recebia três «monstros» da música nacional – LUÍS REPRESAS, JOÃO GIL e JORGE PALMA. Os três músicos aproveitaram a ocasião para tocar conhecidas faixas das três carreiras em questão, revelando um encontro perfeito de titãs. Foi a vez da britânica JOSS STONE, acompanhada da sua banda, cantar e encantar. Com o sorriso sempre presente e descalça, fez questão de correr o palco e de descer o próprio para espalhar a sua música e o seu perfume com a sua excelente voz. ‘Super Duper Love (Are You Diggin’ On Me?)’ e ‘Big Ol’ Game’ logo nos primeiros minutos convenceu um público apaixonado, devolvendo os maiores aplausos nas finais ‘You Had Me’ e ‘Right To Be Wrong’.

BRYAN ADAMS enchia então o recinto. Dividindo-se entre as suas «rockalhadas» e as suas baladas mais antigas, o canadiano não deixou de fora ‘Somebody’, ‘Kids Wanna Rock’, ‘Summer Of ’69’ ou ‘Heaven’. Destaque para as belas ‘(Everything I Do) I Do It For You’ e ‘All For Love’, que quase revelaram um perfeito contraste do momento de loucura em que o músico escolheu Vanessa Silva (cantora portuguesa que passou por vários programas televisivos e musicas de Filipe La Féria) do público para partilhar o palco em ‘When You’re Gone’. Mas a noite era de STEVIE WONDER – fosse pelo estatuto lendário ou pela presença e boa disposição que revela em palco. De regresso a Portugal vinte anos depois, o norte-americano brindou os presentes com algumas versões de Marvin Gaye, Tom Jobim, Michael Jackson e The Doors entre as suas conhecidas faixas. ‘Isn’t She Lovely’, ‘Overjoyed’ e ‘I Just Called To Say I Love You’ foram momentos perfeitos no Rock In Rio Lisboa, mas o momento mais fantástico chegou com ‘Superstition’. Uma grande noite.

 Dia 5 – 3 de Junho

E aí estava o último dia de Rock In Rio Lisboa. O sol voltava a brilhar como nunca e o calor apertava como nunca havia apertado ao longo dos cinco dias. A nossa fadista CARMINHO e o brasileiro PEDRO LUÍS deverão ter sentido a temperatura subir pela forma calorosa como foram recebidos no Palco Sunset, antes do enorme espectáculo de DAVID FONSECA com MALLU MAGALHÃES no mesmo palco. Mas as atenções estavam apontadas (e bem) para o inesquecível concerto de KAISER CHIEFS no Palco Mundo. O conjunto britânico soube chegar e vencer em pouco tempo. ‘On The Run’, ‘I Predict A Riot’ e ‘Ruby’ foram, sem questionar, grandes momentos da banda de Leeds. Mas o vocalista Ricky Wilson não se deu por satisfeito: decidiu abandonar o palco e saltar as grades de segurança, subindo o recinto à frente de meia-dúzia de seguranças. O frontman dirigiu-se para a plataforma de slide do festival enquanto a restante banda tocava instrumental em palco. E em menos de dois minutos tínhamos Ricky Wilson a descer a alta velocidade do alto do Parque da Bela Vista e de microfone na mão a dar voz a ‘Take My Temperature’. Momento que teve tanto de hilariante como de imperdível.

E enquanto RUI VELOSO e ERASMO CARLOS actuavam no Palco Sunset, os JAMES – já com 30 anos de carreira – e liderados por Tim Booth conseguiram despejar um rock de imensas influências e correntes. Apesar de bastante originais e com bastantes palavras dirigidas ao nosso país, foi com as últimas ‘Sometimes’ e ‘Sit Down’ que os britânicos receberam os maiores aplausos enquanto a noite caía. Seguiu-se então a presença habitual de XUTOS & PONTAPÉS no Palco Mundo do Rock In Rio Lisboa. Apesar de ser uma banda cujas letras e ritmos todo o público português conhece, a banda fez questão de compilar um best of sem paragens e quase a puxar pela rouquidão do público. ‘Contentores’, ‘Não Sou o Único’, ‘À Minha Maneira’, ‘Circo de Feras’, etc. – praticamente nenhum êxito ficou para trás e os aplausos no final foram mais que muitos. Mas a noite era de BRUCE SPRINGSTEEN que, acompanhado da E STREET BAND, deu perto de três horas de concerto(!) com faixas adicionadas ao alinhamento por vontade do público e com o maior carinho possível por Portugal e pela sua língua – especialmente porque há já dezanove anos que o músico não passava nos nossos palcos. Um concerto cheio de emoções e com êxitos com fartura, revelando uma actuação de encher o olho para terminar da melhor maneira possível o maior festival do país.

Daqui a dois anos há mais.

Texto e Fotografia por Nuno Bernardo.
Especial agradecimento à assessoria de imprensa do Rock In Rio/Lift Consulting.

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