A fila era enorme quando as portas se abriram na Incrível Almadense para mais uma noite de garantido espectáculo. A festa estava delineada para ser feita principalmente por mulheres, três bandas com vocalistas femininas e com muito para dar a todos os fãs. A romper as hostilidades estiveram os XANDRIA, com novo álbum na bagagem e nova vocalista aos comandos, Manuela Kraller. De seguida a banda da sul-americana Marcela Bovio, que trazia a promessa de rodar os temas mais célebres dos STREAM OF PASSION. Para o final estaria guardado o ponto alto da noite, a volta dos EPICA a Portugal, desta vez com novo álbum acabado de estrear e com um público ansioso por conhecer novas músicas e acima de tudo perceber a progressão da banda.

Os XANDRIA subiram ao palco 5 minutos depois da hora prevista e entraram logo em alta potência com o seu novo single “Valentine”, música que foi a primeira amostra de um novo percurso que foi seguido pela banda com este novo álbum, um Symphonic mais cativante e bem executado. Começou muito bem mas perdeu o fulgor inicial logo a partir do primeiro “capítulo”, o espaço (físico) de movimento da banda era muito curto e não permitia grandes encenações de movimentos e a interacção entre membros um pouco sombria. Não que com isto o nível do espectáculo tenha sofrido uma grande quebra, apenas o que prometia ser um bom concerto ficou-se por uma actuação competente. A voz da vocalista Manuela Kraller esteve um pouco difusa e pouco vibrante (de recordar que a banda cancelou o concerto de dia 19 de Abril em Barcelona por doença da vocalista), a banda parecia perpetuar passividade em palco e apenas avançar com o debitar do que se tinha proposto.

O tempo das bandas de abertura é sempre escasso e não dá grande margem de manobra para grandes interacções com o público, talvez também por este facto o concerto dos XANDRIA fique marcado pelo pouco entusiasmo que nos proporcionou. Fica a nota e repito, pode não ter sido um excelente espectáculo mas foi um concerto competente. Esperaria-se mais, que seja numa próxima oportunidade com as bases da banda mais sólidas e “tempo disponível”.

Setlist
Valentine | Blood on My Hands | Euphoria | Forevermore | The Lost Elysion | Ravenheart

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Ainda sem chegar à análise do último concerto, afirmo que o espectáculo dos STREAM OF PASSION foi a grande surpresa da noite e a banda que mais superou as expectativas. O concerto começou enérgico e com uma Marcela Bovio desejosa de mostrar serviço, diga-se acompanhada sempre pela banda ao mais alto nível. De recordar que os primórdios desta banda remontam a um projecto que envolvia Arjen Lucassen e  Lori Linstruth, onde lhe era imprimido sempre um toque progressive em todas as músicas e uma abrangência melódica muito forte. A banda pode ter perdido algo com o abandono do projecto por partes deste dois membros mas não perdeu a consistência de uma vocalista perfeita para o tipo musical que executam.

Percorrendo êxitos antigos como a fenomenal “Passion” a banda mostrou capacidade mais que suficiente para continuar a sua progressão. À Marcela Bovio poucas falhas se lhe podem apontar, majestosa em todos os arranjos e variações vocais, poderosa onde isso lhe era pedido e ainda com um entusiasmo cativante, marcado pela grande interacção que teve com o público, comunicando quase sempre em Português fluente, que fez com que houvesse sempre uma carga emocional muito forte entre os executantes e quem assistia e se deslumbrava do outro lado da barricada. Passou rápido, aliás, o papel de banda secundária estava feito e os objectivos plenamente cumpridos. A banda está sólida e eficiente, a Marcela Bovio tem um portento vocal majestoso e altamente recomendado para se assistir ao vivo. Não foi perfeito em todos os níveis, mas foi excelente.

Setlist
Lost | Passion | Collide | Darker Days | Haunted | Street Spirts (Radiohead cover) | In the End | This Endless Night

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Aos EPICA cabia-lhes a função de ser reis e senhores da noite, e foram. Cumprindo o papel de supra-sumo de entre as bandas presentes, a banda de Simone Simons e Mark Jansen (nos “papéis principais”) entrou um pouco “mecanizada” em palco na introdução e na música que se lhe seguiu, soando tudo muito perfeito e sem grandes falhas mas deixando o público meramente ouvinte, talvez o próprio público estivesse a tentar absorver e analisar as músicas novas que estava a ouvir, muitos talvez pela primeira vez. Desabrochou a partir daí quando começaram a sair temas de álbuns antigos, com uma Simone mais vibrante e falante a partir da “Sensorium”. De referir que mesmo com a recente mudança a hegemonia da banda não se perdeu, revelando sempre muita espontaneidade nos processos e plena interacção entre os seus membros. Apenas de ressalvar a presença um pouco apática da Simone Simons, demonstrando talvez cansaço de uma tour que conta com muitos dias seguidos.

Se era de notar a passividade da Simone também se deve destacar a entrega e a exuberância de Mark Jansen, sempre muito enérgico na execução instrumental e preponderante na vivacidade passada a quem assiste, com uma apontamento significativo para o encaixe perfeito que as partes vocais do Mark imprimem na sonoridade dos EPICA, se em tempos era criticado por uma certa e abusada intervenção nos actos vocais, ao vivo e neste novo álbum o Mark está muito mais sólido e vibrante, contribuindo assim para uma plena conjugação dos factores vitais da banda.

Alternando entre músicas do novo álbum e alguns êxitos anteriores, o final do concerto fica marcado pela escolha feita no rol musical que o compôs. Músicas como “The Phantom Agony”, “Cry for the Moon” e “Consign to Oblivion” deram um toque especial ao final deste espectáculo, de onde a banda conseguiu tirar enorme partido do público e vice-versa, ora entoavam-se em coro as músicas, ora puxava-se pela banda e aqui o concerto teve o seu nível máximo de êxtase. Tirando a parte já destacada da apatia da Simone, não foi isso que demoveu o público de “brindar” à banda e muito menos prendeu em algum momento a actuação do seu conjunto. O novo álbum soa muito bem ao vivo e a conjugação com êxitos anteriores encaixa perfeitamente no seu repertório, dando um sinal de superação e mestria após 10 anos de experiência. A banda está mais cativante e mais consistente do que nunca, daqui só poderia advir coisa boa. Não foi o concerto perfeito e deslumbrante, foi sim um espectáculo muito bem conseguido que a muito poucos deixou a desejar. Que o seu retorno a terras lusas seja próximo.

Setlist
Karma | Monopoly on Truth | Sensorium | Deter the Tyrant | Requiem for the Indifferent | Sancta Terra | Delirium | Blank Infinity | The Obsessive Devotion | Storm the Sorrow | The Phantom Agony
Encore
Cry for the Moon | Unleashed | Consign to Oblivion

Texto: Ricardo Raimundo

Agradecimentos:
Silvio Jesus (Fotografia)
Prime Artists

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