Banda: Thee Orakle
Álbum: Smooth Comforts False
Data de lançamento: 20 de Fevereiro de 2012
Editora: Ethereal Sound Works
Género: Gothic/Progressive Metal
País: Portugal

Membros
Micaela Cardoso – Voz feminina
Pedro Silva – Voz gutural
Pedro Mendes – Guitarra, voz
J. Ricardo Pinheiro – Guitarra
Daniel Almeida – Baixo
Luís Teixeira – Teclado
Frederico Lopes – Bateria, programação

Alinhamento

  • Faraway Embrace
  • Psi-Drama
  • Mysterious Hours
  • Foretoken
  • Evil Dreams
  • Winter Threat
  • The Bridge Of The River Flowing
  • Hopefulness
  • Rescue Of Mind

Introdução

Em 2009, a Ruído Sonoro teve o prazer de analisar o álbum de estreia dos Thee Orakle, Metaphortime (leiam aqui a review), e logo aí se percebeu que estávamos perante um caso de rara qualidade e enorme potencial, uma bomba nacional que fez despertar atenções e levantar altíssimas expectativas. Foi neste elevado patamar de responsabilidade que deixámos este conjunto transmontano trabalhar no seu segundo álbum de originais. Finalmente chegado, há que acrescentar: e que grande álbum esteve na forja! Com convidados de peso e um risco enorme no experimento de novas sonoridades, os Thee Orakle, iguais a si mesmos mas mais maduros, lançam mais uma pérola no mercado.

Review

A viagem de Smooth Comforts False inicia-se com Faraway Embrace, que após uma curta introdução explode num riff enérgico. O gutural do Pedro Silva parece mais forte e mais nítido que no álbum anterior, enquanto que a voz da Micaela Cardoso continua magnífica. Logo neste tema inicial se notam detalhes que irão marcar todo o álbum: diversas mudanças de ritmo, introdução inesperada de alguns elementos, várias melodias que encaixam na perfeição e parecem pintar cada tema com diversas camadas, cada uma com uma contribuição única. Não há uma melodia que fique na cabeça, nenhum refrão que sobressai, mas sim várias melodias, vários pequenos refrões. É neste tema inicial que podemos apreciar o sempre sufocante e sombrio Luxúria Canibal dos Mão Morta, numa negra passagem que dá profundidade emocional ao tema. Continuamos a viagem com Psi-Drama, que parece ter duas entradas, uma mais curta, furiosa, e outra mais progressiva e profunda. O jogo vocal entre a Micaela e o Pedro aqui é complexo e interessante, acompanhado por um instrumental a condizer. Este tema, além de ser um dos mais pesados do catálogo dos Thee Orakle, presenteia-nos ainda com um detalhe único: o trompete de Ricardo Formoso entra no minuto final, acompanhado por um trabalho de bateria divino, dando um toque de jazz que tão bem assenta na sonoridade da banda.

Mysterious Hours é um tema mais progressivo e com um refrão bem melódico, mostrando a voz da Micaela no seu melhor. É das faixas que menos diz ao ouvinte na primeira audição do álbum, mas vai crescendo e entrando no ouvido em audições sucessivas. Mas o melhor é mesmo o solo perto do final, que entra em simbiose na música e abre para um último refrão. Destaque também nesta música para o trabalho no teclado e para a atmosfera criada. Foretoken é um curto instrumental com menos de dois minutos, que será excelente para abrir um concerto. Segue-se então Evil Dreams, com um início misterioso, numa atmosfera progressiva, que dá lugar a uma passagem com gutural, bastante complexa no instrumental. Esta é das faixas mais experimentais de Smooth Comforts False, com momentos inesperados, um instrumental único e, claro, o som do bouzoki de Yossi Sassi Sa’aron dos Orphaned Land, que dá, em conjunto com o coro, uma atmosfera mais oriental ao tema. Aos quatro minutos o som muda completamente, entrando pela primeira vez a Micaela Cardoso, numa melodia linda e contagiante, com o bouzoki e o som de orgão de fundo ao qual se junta uma melancólica guitarra: que grande final!

Chega agora aquela que pode ser considerada a balada do álbum: não o sendo exactamente, é a música mais melódica, na qual entra a voz calma e profunda de Marco Benevento dos The Foreshadowing. Este tema só peca mesmo por ser o mais curto do álbum, porque a melodia nunca cansa no ouvido. A meio da música , o gutural abre e fecha um solo a rasgar magistral, acabando o tema com a contagiante melodia das guitarras. The Bridge Of The River Flowing é mais um tema de grande experimentalismo, que o torna muito complexo e difícil de ouvir e perceber nas primeiras audições. Foi mesmo o último tema que consegui encaixar na minha cabeça para compreender o álbum como um todo, mas é mais um cuja magia se revela aos poucos. Destaque especial para o trabalho das três guitarras, que nos presenteiam com pequenos solos e riffs espectaculares.

Estamos a chegar aos dois temas finais do álbum, mas ainda restam 11 minutos de prazer. Hopefulness é outra ode à progressividade e variedade, mas desta feita com melodias mais directas. Mais calma do que a maior parte do álbum, esta é daquelas faixas cuja presença não dá muito nas vistas, por não ter nada que a destaque, mas que é fundamental ao álbum como um todo. A evolução do som é uma pequena viagem dentro da maior que é o álbum, recebida pelo ouvinte com agrado, relaxando, acordando, explorando uma atmosfera mais etérea. Por fim chega-nos o single Rescue Of Mind, um tema que resume bem a essência de todo o disco. A sequência de melodias, a mudança de vozes, os ritmos alternados, tudo se conjuga de uma forma magnífica e natural. A surpresa vem aos dois minutos, com o saxofone de Fábio Almeida a invadir o álbum com um toque jazz, muito bem acompanhado de fundo e que se funde naturalmente no som quando chega a hora de voltar à agressividade.

Neste mar de coisas positivas, quero apenas referir um detalhe que me desagradou em particular no álbum e é o motivo por ter dado menos à voz do que ao restante na sua classificação. Não, não tem nada a ver com a qualidade, tanto o Pedro como a Micaela têm vozes espectaculares. O problema, que se pode vir a notar sobretudo na promoção do álbum no estrangeiro, é o sotaque. O inglês de ambos tem um sotaque fortemente português que prejudica a percepção das letras. Por diversas vezes percebi palavras diferentes daquelas que constam no booklet, e nalguns casos, mesmo depois de ler quais são as palavras que eles estão a dizer, parece que continua a soar a algo diferente. É uma falha que muitos não notarão, mas que deve ser corrigida e trabalhada pelo menos nos concertos ao vivo no estrangeiro, de forma a não eclipsar as letras dos temas, que contam também com algumas incorrecções gramaticais.

Conclusão

Os Thee Orakle com este álbum marcam uma sonoridade cada vez mais própria. Embora ainda se notem as suas diversas influências, a banda está a conseguir criar um som único e muito característico, a marca das grandes bandas. A liberdade de composição e a falta de uma estrutura clássica nos temas contribuem para tal, dando este Smooth Comforts False um grande espaço de manobra à banda para trabalhos futuros. O público está rendido, a técnica está lá, a capacidade de composição tem vindo a evoluir. Quase que posso garantir que o próximo álbum da banda será uma autêntica masterpiece e mais uma porta aberta do Metal nacional para o estrangeiro, um caminho ainda a ser desbravado por bandas que querem acompanhar o feito até agora único dos Moonspell e, mais recentemente, dos Ava Inferi e Heavenwood. Finalmente podemos afirmar que o leque de oferta em terras lusas está ao nível do melhor que se faz lá fora.

Saudações metaleiras,
David Dark Forever Matos

Classificação

Vocal: 8,75/10
Instrumental: 9,5/10
Escrita: 9/10
Originalidade: 9/10
Produção: 9,75/10
Impressão pessoal: 9/10
TOTAL: 91,5%

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