PINK FLOYD é um nome incontornável da história da música. Tanto pela magia inicial de Syd Barrett e companhia, como também pelo génio da composição da mais célebre formação com Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright. Este conjunto deixou um inquestionável legado na evolução do rock e da música experimental. Sobre esse legado, é difícil não ocorrer logo à cabeça o álbum “The Wall”, de 1979. Esse álbum conseguiu ultrapassar a barreira da “simples” música com uma mensagem e um conceito de uma poderosa dimensão dada a altura em que foi lançado. À excepção de 2 ou 3 temas, todo esse álbum foi concebido e idealizado por Roger Waters.

Mais de 30 anos depois da digressão original (anos 1980/81) , Waters volta a afinar a sua voz e o seu baixo, tal como fez em Berlim – 1990, após a queda do muro. Desde então, “The Wall Live” é um espectáculo tanto musical quanto visual, revelando-se uma autêntica ópera rock. É frequente a utilização de imagens do filme do álbum (“The Wall”, de 1982, produzido por Alan Parker) durante a actuação. É o álbum tocado na íntegra, para a felicidade de muitos. E não seria errado constatar que este álbum foi feito para ser tocado ao vivo, pois ganha uma força extra nas suas palavras quando é transportado para os palcos.

Deixando para trás a história, Lisboa foi abençoada com duas datas para esta digressão mundial (2010/2011), abrindo assim a 21 de Março os concertos na Europa.

Roger Waters apresenta agora um espectáculo actualizado, abordando também temas actuais para além dos originais do álbum. Os conflitos no Iraque, as ‘farsas’ de Barack Obama e o simbolismo da Apple com a utilização de um ‘i’ antes de cada palavra são apenas alguns dos conteúdos que pertencem à actualidade. Portanto, é um muro com cerca de 70 metros de comprimento e 10 de altura, fogo-de-artifício, figuras gigantes, aviões… enfim, tudo o que parece inacreditável surge neste espectáculo. Houve “espaço” também para lembrar vítimas de conflitos violentos ocorridos no mundo inteiro, desde a segunda grande guerra à década actual, como aconteceu na faixa “The Thin Ice” e no intervalo do concerto (que é, basicamente, a passagem do disco 1 para o 2º disco do The Wall).

Ainda poucos minutos tinham passado desde que “In The Flesh?” explodiu com o Atlântico e já muitos aplaudiam de pé o fecho das faixas numa sala completamente lotada desde Agosto. Já seria de prever uma grande apoteose na sucessão de faixas “Another Brick In The Wall (Part I)” – “The Happiest Days Of Our Lives” – “Another Brick In The Wall (Part II)”, esta última com a inclusão de crianças cabo-verdianas da Associação Cultural Moinho da Juventude, da Cova da Moura, a cantar (em playback) o seu famoso refrão. “Mother” foi igualmente uma experiência espectacular e foi na sua introdução que Roger Waters dirigiu as suas primeiras palavras ao público, com um “Boa Noite, Lisboa” num português bem disfarçado.

Mas não vale a pena estar a falar de todas as faixas, pois afinal “The Wall Live” tem o seu valor consumado apenas no final do espectáculo. É necessária a total compreensão do concerto, sem momentos específicos (os mais curiosos para conhecer o que aconteceu em cada faixa, que espreitem uns vídeos no YouTube). Quanto ao visual, conseguiu-se a perfeição. Os hologramas deixaram milhares de pessoas boquiabertas, assim como a ilusão 3D obtida para quem estava de frente para o palco (fui contemplado neste aspecto). A volumetria e o realismo conseguidos surpreenderam toda a gente, tal era a qualidade visual estampada naquele muro.

E tanto o aspecto visual como o musical tiveram as suas máximas prestações. Roger Waters mantém a sua carismática voz ao fim de tanto tempo, sendo totalmente capaz de obter aquela metamorfose vocal de “The Trial” apesar dos seus quase 68 anos. Houve até momentos em que o público se deve ter sentido hesitante como no final da “Comfortably Numb”, pois tanto se queria ouvir aquele solo final fantástico de olhos fechados, como se queria observar e sorrir para aquela explosão de cores que acontecia diante de tanta gente.

Foi completamente sobrenatural a junção de tantos pormenores e de tanta qualidade em “apenas” duas horas e meia de espectáculo. Tenho certezas em afirmar que ninguém, mas mesmo ninguém, das cerca de 18 mil pessoas se sentiu insatisfeita com o que aconteceu naquela noite. E facilmente terá sido o concerto da vida de muita gente.

Com desejos de ter ido novamente à segunda noite,
Nuno Bernardo

Fotos por MANUEL LINO

Alinhamento

 

In The Flesh?
The Thin Ice
Another Brick In The Wall (Part I)
The Happiest Days Of Our Lives
Another Brick In The Wall (Part II)
Mother
Goodbye Blue Sky
Empty Spaces
What Shall We Do Now?
Young Lust
One Of My Turns
Don’t Leave Me Now
Another Brick In The Wall (Part III)
The Last Few Bricks
Goodbye Cruel World

–INTERMISSION–

Hey You
Is There Anybody Out There?
Nobody Home
Vera
Bring The Boys Back Home
Comfortably Numb
The Show Must Go On
In The Flesh
Run Like Hell
Waiting For The Worms
Stop
The Trial
Outside The Wall

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