Artista: Inverno Eterno
Álbum: Póstumo
Ano: 2008
Género: Depressive Black Metal
País: Portugal
Editora: Bubonic Productions

Tracklist:
01 – Prólogo
02 – À Sombra Do Passado…
03 – …Eternamente
04 – Enquanto A Morte Demora…
05 – …O Sofrimento Constante
06 – A Noite Que Perdura…
07 – …Na Memória
08 – Depois Que Tu Morreste…
09 – …O Cansaço De Viver

Nota: os membros da banda expressaram o desejo de não serem fotografados em concertos ao vivo pelo que daí se depreende a vontade da banda se manter incógnita a nível visual. Da mesma forma também se pode compreender que semelhante desejo se alarga à identidade dos membros da banda. Para respeitar esta vontade, e ao contrário do que normalmente é feito, não serão divulgadas imagens, nem os nomes dos membros que constituem a banda.

Introdução
«Cada um para seu fim,
Cada um para seu norte…
……………………………………………………………

— Ai que saudade da morte…»
(Mário de Sá-Carneiro, Vontade de Dormir em Dispersão)

Este pequeno excerto da autoria de uma das personalidades que mais influencia os espaços (especialmente os literários) criados por Inverno Eterno torna-se num excelente meio de resumir, aforisticamente, as pulsões mais íntimas e profundas de Póstumo. A invocação exige-se e torna-se bastante pertinente devido às inúmeras ligações (directas e indirectas) a Mário de Sá-Carneiro que inundam todo o álbum, sendo que constituem parte fundamental da compreensão de Póstumo, nomeadamente naquilo que este tem de maior e grandioso. As ligações literárias estendem-se ao primeiro Modernismo português para lá de Sá-Carneiro, nomeadamente à sua figura mais notória, Fernando Pessoa. A par de Sá-Carneiro, o heterónimo Álvaro de Campos é influência clara no primeiro trabalho de Inverno Eterno.

A ideia de revisitar musicalmente Sá-Carneiro não é comum mas também não é inédita. Por oposição, a obra de Pessoa já muitas vezes foi usada para semelhantes fins. O que acontece no álbum de estreia de Inverno Eterno é, no entanto, bastante diferente do que havia sido feito na área até este momento. Aliás, não será exagero dizer, que Póstumo possui uma abordagem que se distancia de todas as interpretações musicais de momentos literários destes dois autores, criando algo que pela radical diferença expressiva é novo e acima de tudo único. Compreender o que Póstumo tem de mais grandioso remete para a novidade de “usar” o Black Metal como “veículo” transmissor de alguns dos universos criados no trabalho de grandes autores da língua portuguesa (às duas ilustres figuras já mencionadas há que juntar Vergílio Ferreira). Não pelo pioneirismo de o fazer, mas sobretudo porque Póstumo é uma impressionante demonstração da ligação possível e lógica entre a negatividade inerente do Black Metal e autores cuja obra explorou sítios e sensações nada distantes. O ponto fundamental desta ligação tem o enunciado como base mas só se materializa devido às características específicas das referências literárias em questão, bem como da abordagem de Inverno Eterno ao género musical onde se move.

É na capacidade de tornar embrionária a ligação entre o mundo literário e o Black Metal que reside precisamente um dos grandes pontos de interesse em Póstumo e sobretudo o predicado que mais contribui para a identidade da banda. Não se está somente perante um trabalho que procura associar duas formas de expressão (a literária e a musical) por simples justaposição. Embora este “processo” de mera junção tenha resultado (por vezes brilhantemente) no passado, no álbum em questão a relação entre os dois mundos é muito mais estreita e modifica profundamente a forma como cada um deles se revela. Neste sentido pode-se dizer, em jeito de resumo, que o Black Metal aqui presente aparenta uma construção em torno da expressão escrita sendo, portanto, moldado pela mesma; ao mesmo tempo que a vertente lírica “clama” por ser integrada num contexto tão pessoal como o BM é na sua génese (nomeadamente na sua formulação aqui presente), o que resulta numa ligação onde a palavra é tão privilegiada como as habituais dimensões vocais do BM (mesmo alargando ao máximo tudo o que o mesmo pode representar).

O que emana desta correlação profunda é uma obra que se destaca pela capacidade de transmitir estados de espírito ligados à tristeza e melancolia de múltiplas formas e todas elas complementares entre si. Embora seja de somenos importância para a análise a absorção de Póstumo, é preciso dizer que estes estados de espírito que percorrem o álbum são o que podem integrar a banda dentro do espectro do Depressive Black Metal. Esta “integração” tem necessariamente que se fazer por analogia de sentimentos e ambientes resultantes dado que a nível das estruturas das músicas e mesmo na execução de cada um dos elementos, a banda mostra-se algo distante das características habituais deste subgénero do BM. Só a título de exemplo destas diferenças pode-se verificar que as músicas não atingem uma área contemplativa e serenamente melancólica através da repetição exaustiva de alguns riffs, o que encurta significativamente a duração das músicas; da mesma forma que instrumentalmente o trabalho é bastante menos minimalista do que na esmagadora maioria das propostas de Depressive Black Metal (independentemente desta abordagem resultar muito bem nalguns casos e falhar noutros), havendo bastante variedade em todos os instrumentos o que também origina um trabalho mais multi-facetado e onde sentimentos “depressivos” são abordados de diversas formas.

Acaba por ser, portanto, um enquadramento relativo no subgénero que não deixa de ser um sinal paradigmático da forma como IE consegue ser um projecto inventivo e fresco mesmo que “tocando” em ambientes de Black Metal que se tornaram recorrentes nos últimos anos. Adjectivos como depressivo, melancólico, doloroso ou lutuoso descrevem Póstumo mas sozinhos são claramente insuficientes para perceber todo um trabalho que tem na sensibilidade poética a sua maior força.

Review

São várias as dimensões visitadas por Inverno Eterno no seu primeiro lançamento. Porventura todas conectadas (latamente) pela negatividade mas ainda assim bem distintas. A uni-las definitivamente está o seu carácter póstumo; algo que, por um lado, as trespassa e, por outro, as define e permite que sejam expostas da forma como são. É o findar continuado que atravessa o álbum que lhe confere o lúgubre saudosismo, que “aviva funebremente” as emoções de Póstumo. Assim, e não apenas pelo enquadramento estético da palavra (que no caso é bastante, diga-se), o trabalho parece (em retrospectiva) não poder ser definido de outra forma, se só uma palavra pudesse ser usada. É simultaneamente descrição de obra e inscrição de lápide, uma criação desconectada do momento presente “somente” experienciada, quer pela universalidade e atemporalidade dos sentimentos dilacerados, quer pela crueza das feridas expostas no trabalho. No fundo (e usando as palavras da banda), Póstumo não é “daqui”; é “do passado, da idade do fim”.

Compreendendo este estado de espírito que paira sobre o álbum, não é difícil perceber que a expressão deste outro mundo (cuja dor será o resquício maior) se conecta com o código genético do que é o Black Metal na(s) sua(s) vertente(s) mais intimista(s). Retrospectivamente parecerá quase uma inevitabilidade, este passo que foi dado por Inverno Eterno rumo a um tipo de BM que canaliza os mesmos sentimentos melancólicos e dolorosos, como é o caso do Depressive Black Metal. Contudo, a banda foge não raras vezes a vários paradigmas do subgénero em questão, o que gera as dificuldades de enquadramento já mencionadas mas as afinidades naturais entre os quadros emocionais pintados pela banda e os que o subgénero referido produz, são inegáveis. Abrangência e êxito finais (comparativamente, claro) são considerações, por agora, de parte.

O que é de mais difícil compreensão é precisamente o que está para lá desta “naturalidade”. É, igualmente, um dos grandes pontos de interesse do álbum, seja a nível estético ou analítico (nomeadamente, neste último campo, no que concerne à “procura” de traços inovadores no trabalho). De forma mais concreta, a questão consubstancia-se na capacidade de tornar tão intensa e real a relação com a “Portugalidade”. É, claro, nas letras que esta ligação é mais notória (embora o instrumental também surja frequentemente como “devedor” desta conexão) mas há que dizer que as mesmas vão para além de estarem escritas em português. Acima de tudo, encarnam algumas das características mais fatalistas da essência portuguesa. Devido à forte incidência literária do trabalho de Inverno Eterno e à influência que autores já referidos têm na lírica do álbum, poder-se-ia assumir que os ambientes tão portugueses do mesmo se deveriam a um revisitar da “Portugalidade” como definida pelos mesmos. Esta percepção seria, no mínimo, redutora. A verdade é que Póstumo partilha com Pessoa e Camões (usados aqui a título de exemplo não exclusivo) a capacidade de definir o fado saudosista e tantas vezes trágico que marca o carácter do que é Português, nomeadamente na sua língua. É uma partilha e não uma réplica pois o trabalho apresenta-se como um lado mais negro e gritante dessa “Portugalidade”. Não é, portanto, uma abordagem que privilegie a expressão ligeira da saudade (que mais não é que a vulgarização pálida desse sentimento) mas algo que está mais próximo do verdadeiro valor expressivo desta “essência” e que é (sobretudo neste trabalho) funesto e “carregado” de desesperança.

A obra em questão vive, no entanto, bastante para além da valência puramente conceptual do trabalho. Isto é, também na abordagem “sonora” (em sentido mais estrito) é distinto e elevado. Mais do que isso, é-o a vários níveis. As opções de produção ajudam imenso a expor a diversidade aqui presente, sendo que a variedade (seja dos diversos elementos musicais, seja dos mundos emocionais que visita) é precisamente um dos pontos que mais surpreende e valoriza a experiência de Póstumo. A banda optou por uma produção que se pode, de alguma forma, designar de limpa e clara. Simultaneamente há uma sensação de “espaço” entre os diversos instrumentos e a voz, o que permite distinguir detalhes que, com uma produção mais sobreposta, não se destacariam tanto, nomeadamente os belíssimos momentos limpos da guitarra. Apesar disto, consegue existir um balanceamento hábil com uma certa crueza no som que dá azo a um ambiente especialmente carregado nas alturas em que os riffs mais intensos se juntam com os lamentos desesperados da voz. A atmosfera mantém-se assim limpa mas densa ao mesmo tempo. Não se valendo apenas da distorção e do “nevoeiro sonoro”, o álbum escapa à unidimensionalidade e apresenta ambientes mais diversos que exploram diversas “facetas” dos sentimentos negros e soturnos que cobrem o trabalho.

Contudo, é evidente que as potencialidades deixadas em aberto pelo tipo de produção nunca seriam cumpridas caso a banda não conseguisse estar à altura de “preencher” um som que privilegia tendencialmente o pormenor. Não só isto é conseguido em pleno como também surpreende a forma como elementos tendencialmente menos proeminentes num tipo de Black Metal mais introspectivo, aqui se destacam e contribuem em muito para todo o ambiente do álbum. Sem prejuízo de iguais qualidades poderem ser aplicadas aos outros intervenientes, a bateria destaca-se precisamente pelo detalhe, variedade e sobretudo no enriquecimento do som de Póstumo.
O trabalho da bateria do álbum partilha com muitos outras obras do género a simplicidade de execução, mas as semelhanças cessam quando se entra no capítulo da diversidade composicional. Em vez de enveredar por terrenos mais minimalistas e/ou de reduzida ênfase geral nas músicas (assumindo pouco mais que uma função de manutenção de ritmo), a bateria de Inverno Eterno mostra-se bastante dinâmica e multifacetada, o que permite pontuar com singularidade diversas passagens do álbum. Muito do que destaca na bateria advém da incorporação de padrões algo “estranhos” ao BM (no que concerne a este elemento específico, entenda-se), muitos deles nada distantes do universo Post-Punk (o som algo “seco” da tarola é um bom exemplo disto mesmo). Esta abordagem pouco ortodoxa da bateria torna-se especialmente interessante nos momentos mais lentos em que a bateria se revela mais criativa com padrões bem diferentes do que é habitual ouvir, mesmo em sonoridades dentro do Black Metal com tempos mais lentos. O “esoterismo” de …O Cansaço De Viver aparece como momento de destaque neste aspecto. A bateria consegue igualmente soar inventiva e peculiar em momentos ligeiramente mais acelerados, incutindo uma tensão dramática que contribui decisivamente para o ambiente do álbum (algo que não acontece com grande frequência em sonoridades do género). A contribuição específica deste factor pode ser verificada nas sublimes passagens de À Sombra Do Passado… onde os devaneios da bateria suportam de forma perfeita o crescendo de intensidade dos riffs nas secções finais do tema.

A propósito das influências exteriores ao BM no som de IE, estas não se esgotam na bateria. Também o baixo apresenta traços característicos dos mesmos ambientes Post-Punk, trazendo à memória o nome de Joy Division ou mesmo certos momentos mais hipnóticos e obscuros de Bauhaus. O resultado é bastante apelativo pela forma como não raras vezes as linhas de baixo seguem em direcções bastante diferentes dos riffs da guitarra, conferindo à música diversos pontos de condução. Continuando a linha de destaque, o baixo também assume a espaços um papel condutor geralmente reservado à guitarra (sobretudo quando esta produz alguns momentos limpos) algo que também se pode verificar nalgumas das bandas “pertencentes” às influências estilísticas mencionadas. A prova mais cabal desta “função” do baixo será certamente parte inicial da já referenciada última faixa, onde o baixo conduz grande parte da música.
O trabalho de baixo torna-se especialmente memorável pela forma como, um pouco à semelhança de todos os elementos aqui constantes, a simplicidade de processos dá origem a uma enorme heterogeneidade composicional. Este desempenho permite uma assunção de papéis bastante mais alargados do que seria de esperar mas permite igualmente fazer-se notar através de uma série de pormenores que, além de valerem pela sua própria elegância, complementam na perfeição as paisagens negras pintas pela voz e pelos riffs. Muitos deste “movimentos” do baixo são subtis e até se poderá dizer que ocorrem em pano de fundo mas torna-se especialmente enriquecedor para a absorção da obra verificar a forma como o baixo abre caminho para novas “zonas” emocionais (inevitavelmente dolorosas) quando o foco principal até são outros elementos, como acontece em A Noite Que Perdura… e … Na Memória.

A alusão a “foco principal” terá obrigatoriamente que passar pela guitarra. A par da voz, o trabalho de guitarra é o corpo emotivo de Póstumo; complementado e acrescentado com mestria pela secção rítmica. Nos riffs pungentes da guitarra reside a expurgação (neste caso instrumental) de todo um conjunto de sentimentos ligados à desolação e tristeza. Como não poderia deixar de ser, e à semelhança de tudo o resto, a guitarra oferece uma combinação de vários elementos para construir este mundo de sofrimento. Isto acontece tanto ao nível das técnicas utilizadas, como dos ambientes criados.
É de notar, ao nível da execução, que a guitarra varia bastante sendo que se podem encontrar partes limpas, diversos dedilhados (a maioria também sem distorção), riffs com variadíssimas influências e mudanças de ambiente. Além da forma como tudo isto se vai, de alguma forma, intervalando (criando já de si um acentuado dinamismo) há que perceber que os próprios riffs distorcidos não se limitam a uma só esfera de sentimentos “depressivos”. O ambiente é construído através de um trabalho que explora riffs mais lentos embebidos numa distorção que gera sensações de cortante (e constante) agonia, mas que consegue igualmente ter uma certa dose de “agressividade” (sem nunca perder a taciturnidade característica, claro). Assim, o efeito é contemplativo mas também opressor (neste último aspecto a voz também tem papel decisivo), havendo um conjunto de estados de espírito que exploram “facetas da dor” bem distintas.
É precisamente o entrecortar entre os riffs distorcidos e as passagens limpas que cria alguns dos grandes momentos do álbum. Além da enorme qualidade dos riffs do álbum, estes momentos limpos (muitos deles em forma de belíssimos dedilhados) merecem igualmente grande destaque. Algumas das passagens mais memoráveis pela sua profundidade emocional coincidem precisamente com secções onde estes dedilhados surgem em jeito introdutório e “estabelecem”, desde logo, um ambiente etéreo (ainda que dominado pela mágoa) de enorme intensidade. Depois Que Tu Morreste…, a grande opus do álbum (sem prejuízo de tudo o resto), não poderia ser exemplo mais paradigmático. Nesta música em particular podem-se encontrar passagens que, de certo modo, fazem lembrar o trabalho intermédio de Burzum (nas partes limpas) e dos dois primeiros longa-duração de Forgotten Woods (no tipo de riffs e tom da distorção), mas onde se nota simultaneamente uma identidade emotiva muito própria.

Esta identidade é precisamente aquilo que sobressai e se destaca em Póstumo quando olhado o trabalho de forma global. Tal visão advém precisamente de uma intimidade negativista que só é possível graças à forma bastante como todos os pesares surgem tão perto e tão intensamente. Uma “não representação” artística que é substituída pela evocação profunda de pesadelos que urgem de expurgação. É isto que mais particulariza Inverno Eterno; e é isto que mais se pode sentir nos vocais transcendentes que espalham por todo o álbum “angústias infindas” (expressão encontrada nas letras de A Noite Que Perdura….).
Este sufoco permanente que está no âmago de tudo o que é o álbum, surge das mais variadas e dolorosas maneiras, atingindo assim um conjunto inumerável de sensações negras e fúnebres. O “trabalho” vocal (que no fundo não o é, dado ser apriorístico a qualquer racionalização) é assim uma analogia perfeita da cruel diversidade de uma mágoa profunda que através de múltiplos tormentos conduz à consumpção do ser. Gritos de dilacerante desespero, lamentos chorados, bramidos distantes, vulneráveis segmentos falados ou rugidos num registo mais grave, tudo isto são vocalizações que se podem encontrar aqui. Tudo faces de um definhamento claudicante que chega paulatina mas firmemente. Algumas das paisagens mais desesperadas criadas por IE ocorrem quando estes registos se intercalam, dando origem a autênticos jazigos de alma como é o caso de A Noite Que Perdura… e …O Cansaço De Viver.
É de notar que, só por si, a dinâmica da voz é bastante expressiva e transmite uma enorme sinceridade. Esta última impressão emana da naturalidade como a voz se “adapta” a diversos retratos de dor, não se mantendo num único registo sofrido que poderia esgotar-se em momentos que “clamam” por um tipo de vocalizações menos monótonas. No entanto, e dada a relação que Póstumo tem com a palavra, esta expressividade é reforçada. É-o visto que os muitos registos vocais estão em perfeita “consonância” com a vertente lírica apresentada no trabalho; lírica esta que prima pela deambulação e que tem na “voz” o perfeito complemento para este vagueio. Como já havia sido sugerido, a dimensão diacrónica quanto à origem do elemento lírico e do elemento vocal esbate-se, tão estreia que é a relação entre ambos (e de ambos para com o instrumental, ressalve-se). Para mais, o facto de serem usados alguns trechos de obras literárias (cujos autores já foram mencionados), torna a vinculação entre voz e letras ainda mais interessante do ponto de vista de uma certa revisitação do cânone literário, nomeadamente quando essas passagens parecem tão incrivelmente identificadas com o tipo de desempenho vocal presente. Identificação que parece tão inata mas que nunca havia sido tentada no BM português (a limitação surge naturalmente devido à língua usada); ao mesmo tempo que, comparativamente, nunca surge de forma tão instintiva (como aqui) noutros campos musicais.

O que se percebe então é que o valor puramente musical (aqui em estrito sentido sonoro) é esmagador; mas que o valor estético da obra obriga à interiorização da riquíssima vertente escrita do álbum sob pena de grande parte da compreensão do mesmo ser perdida. Isto seria certamente catastrófico devido à magistralidade lancinante da mesma.
Estas qualidades são demonstradas logo à partida pela forma superior como as influências literárias são “integradas” sem nunca se cair na cópia pura. Mesmo nas letras onde são usados excertos de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, Mário de Sá-Carneiro e Vergílio Ferreira, a identidade lírica de Inverno Eterno está bem patente. Até porque estas influências são, de alguma forma, transformadas em algo (ainda) mais desesperante pela “pena” de IE. Assim, além do “exercício” de excruciante revisitação e, de certa forma, homenagem aos autores referidos, há uma escrita em Póstumo que se basta. Certamente que existem temas e imaginários que percorrem a obra destes vultos da língua Portuguesa que são aqui abordadas. No entanto, estas afinidades conceptuais não são um banal plágio temático mas sim o resultado de uma certa visão emocional da existência que é partilhada com esses mesmos escritores, ainda que num tom de extremada angústia.
É particularmente interessante verificar este duplo rumo na escrita de IE nas letras que contém trechos de autores que muito influenciam a banda, visto que nesses momentos a “ligação revisitada” aos mesmos torna-se mais forte, destacando-se, a excelência das passagens escolhidas e da escrita original do colectivo. São nestes momentos em que se tornam especialmente evidentes as conexões à escrita inicial de Mário de Sá-Carneiro e aos momentos mais decadentes e pessimistas de Álvaro de Campos; uma espécie de “alma mater” negativista que forma tanto os mestres em questão, como a entidade Inverno Eterno.

Veja-se, exemplificativamente, o simbolismo decadentista de Sá-Carneiro “recuperado” nos cortantes versos de Enquanto A Morte Demora…, faixa que tem precisamente no seu início um excerto do poema Partida de Dispersão. O encadeamento entre a primeira estrofe (da autoria de Sá-Carneiro) e a segunda (da autoria de IE) mostra tanto a perfeita integração do imaginário do autor na música de IE, como a “abordagem” da banda à mesma corrente literária:

«”A minha alma nostálgica de além,
Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto,
Aos meus olhos ungidos sobre um pranto
Que tenho a força de sumir também.”

No céu carregado de luto,
A sombra do meu ser finda.
Em avenidas abandonadas e em ruínas
Soltam-se ecos do passado,
Gritos distantes e distorcidos.»

O mesmo sentido de familiaridade temática é encontrado n’…O Cansaço De Viver – faixa que encerra contundentemente o trabalho. Familiaridade com Sá-Carneiro, mas simultaneamente com a fase inicial e final da obra de Álvaro de Campos. No caso, é usada uma passagem do assombroso Opiário (primeira estrofe da citação), seguindo-se as palavras da banda (segunda e terceira estrofes). A saturação decadentista e a temática do cansaço (esta última brilhantemente abordada no poema O Que Há) revisitam Pessoa ao passo que o labiríntico desespero na dúvida do sentir (ou não sentir) evoca Dispersão (da obra com o mesmo nome) de Sá-Carneiro:

«”Porque isto acaba mal e há-de haver
Sangue e um revólver lá pró fim
Deste desassossego que há em mim
E, não há forma de se resolver.”

Sinto a alma doente,
por uma vida a que não pertenço.
Todo eu sou um cansaço,
De gestos inúteis e palavras vãs.

Vendo hoje o que vivi,
Surge-me a dúvida de o ter vivido;
Reconheço as sensações
Como um alguém intermédio.»

Como já amplamente ressalvado que as influências literárias surgem como complemento a uma essência própria de Inverno Eterno. Nos exemplos anteriores deslindam-se momentos de estreita relação de espaços emocionais, de forte conexão temática e de criação mais “autónoma”. Nunca é demais referir que esta última instância tem identidade e sobretudo vitalidade (ainda que esta “vitalidade” seja consubstanciada por um mundo mortuário) próprias, independentes dos mestres que tanto partilham com o colectivo.
É inegável que existe em Póstumo uma “literatura” que vale por si só: qualitativamente mas também estilisticamente. Sobre este último aspecto o carácter profundamente intimista do trabalho pinta quadros de violenta melancolia que consubstanciam uma expressão bastante própria a nível de escrita. A dor é simultaneamente frágil e violenta; contemplativamente pessimista e tomada por espasmos de desespero. Todas estas dimensões depressivas que atravessam a obra estabelecem o domínio próprio da escrita da banda.
Aliás, a mesma inicia-se praticamente com uma das demonstrações mais intensas desta espécie de relação dicotómica que a dor assume no álbum, logo na segunda faixa (a que se segue ao Prólogo). Nesta faixa em particular aborda-se a desaparição emocional do momento presente pela associação com a imagem do passado. Este passado não é, no entanto, espaço de apaziguo. É sim, lugar de desolação e penumbra. Muitas destes estados de alma vão sendo reproduzidos ao logo do álbum mas surgem em algumas das estrofes de À Sombra Do Passado… na sua forma mais angustiante e paradigmática:

«De ímpeto estalou tudo,
A realidade ociosa e febril
Enfermou-me a alma.

(…)

Cada cicatriz uma lembrança,
Cada gume um sentimento.
Eu não me sinto daqui –
Sou do passado, da idade do fim…»

Apesar do incontornável destaque que urge ser dado a determinados momentos (por servirem de paradigmas qualitativos e estilísticos do que por pelo álbum apresentar clivagens qualitativas), o que predomina no trabalho é um claro e inequívoco “sentimento” de unidade. Um “sentimento” tanto mais importante pela forma como se valoriza a obra através de uma conexão profunda entre as diversas faixas. Esta unidade (particularmente meritória na sua construção) é de análise intrincada porque as várias dimensões de lugubridade nunca deixam de ser memoráveis por si só, mesmo numa lógica conceptual comum. Simbolicamente esta ligação entre os movimentos do álbum torna-se mais clara nas próprias designações das faixas. Exceptuando o momento introdutório, as restantes oito músicas estão ligadas (duas a duas) pelos seus títulos, sugerindo inícios e fins para além da divisão imediata.
Além desta formulação particular, existe uma complementaridade profunda entre faixas que são, estruturalmente, bem distintas. Assim, podem-se encontrar momentos mais curtos e de alguma forma “directos” que estão em profunda consonância com faixas mais longas e flutuantes a nível dos ambientes nelas contidas. Isto sucede até pela forma como a estrutura e conteúdo não são facilmente dedutíveis apenas pelo tempo de duração de cada música, o que se traduz, na prática, em abordagens estruturais diferentes a tempos mais rápidos ou mais lentos que não passam necessariamente pelos critérios de imediatismo nas músicas curtas ou, pelo contrário, de maior durabilidade conceptual das faixas mais longas. Este aparente (e apenas isso quando contemplado o resultado final) paradoxo de “heterogeneidade unificada” mantém níveis de intensidade bastante semelhantes, independentemente do “formato” global da faixa.

Não será, portanto, difícil de depreender que se torna particularmente complicado destacar algo perante este cenário. Tornar-se-ia até desnecessário fazê-lo não fosse pela presença de algo que se consegue elevar acima da excelência geral de Póstumo, “forçando” a excepção. Algo que, de forma única encerra e contém em si, não só o que a obra tem de mais grandioso; mas também frisa, de forma única, toda a emocionalidade penosa da mesma. Simultaneamente este é o momento em que o álbum soa mais original num sentido mais “formal” do termo. No entanto, é aqui destacado, acima de tudo e antes de mais nada, pelo intimismo de um desespero (quase) tangível que se apresenta tão negro quanto belo. “Sonoramente”, a música em questão é marcada pelos acordes de uma tristeza serena mas profunda; pela voz na fronteira do asfixio provocado pela dor da perda permanente; e pela da fragilidade tocante daquele assobio saudoso. Quanto ao resto, ao impacto emocional de tamanho monumento, tudo parece eufemístico para descrever o “alcance” de E Depois Que Tu Morreste…:

«Ilusões amaldiçoadas que me exaurem,
Numa existência enleada de sombras,
De cicios perturbadores…

E depois que tu morreste,
Dura em mim
uma saudade sem idade,
Uma dor que não tem fim…»

Confessava Vergílio Ferreira na sua obra Para Sempre, precisamente nas “proximidades” do trecho usado numa das faixas aqui presente, estar “triste até à morte”. Se a inicial menção a Sá-Carneiro possuía o dom de resumir o “âmago” do que é a obra inicial de Inverno Eterno; a expressão de Vergílio Ferreira resume, com igual virtuosismo, o que “resta” depois de Póstumo

Conclusão

A experiência tida de uma obra com as características da presente poderá ser dicotómica: por um lado o sentimento de elevação resultante da interiorização da grandiosidade artística da obra; por outro as consequências profundamente devastadoras da interiorização dos espaços emocionais visitados pela mesma. A conciliação deste aparente antagonismo surge na definição da própria criação artística. Quando a arte “mais não é” que a reprodução para fins de inteligibilidade e catarse do fenómeno trágico, os dois enunciados acima entram em “rota” de complementaridade profunda. Partindo desta “junção” o universo particular (universo doloroso) é metáfora que através da criação artística retrata a própria universalidade do sofrimento.

Ainda que tal hipótese seja rejeitada, a realização estética do trabalho continua a ser de imensurável valia. Da mesma forma, também a sua abordagem ao Black Metal faz pensar, ainda que apenas por instantes, que poderá haver algo mais do que enquadramento geográfico por detrás da expressão Black Metal “Português”. Não pela plausibilidade efectiva de tal designação poder representar algo estilisticamente, mas pela forma como encerram em si tantos “fados” só na “ocidental praia lusitana” encontrados.
A capacidade de reproduzir, paradigmaticamente, estados de alma de uma “Portugalidade” é partilhada por uma outra obra literária para além das já mencionadas (e outras que ficaram por mencionar, claro): de António Nobre. Há que ressalvar as diferenças nos elementos usados e que remetem para uma melancolia bucólica. No entanto, é obra que também parte de um olhar profundamente fatalista, de uma eterna doença de alma. Sobretudo, a analogia faz-se através da descrição que o próprio Nobre (não por acaso tão admirado por mestres que influenciam directamente Inverno Eterno) faz da sua emblemática obra: “é o livro mais triste que há em Portugal!”. É isto que também significa Póstumo no seu “campo”: o álbum mais doloroso e genuinamente triste feito em Portugal.

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