Introdução
Em 1995, a sigla USBM, a ser utilizada, seria uma vazia agregação alfabética sem qualquer consubstanciação musical. Não apenas enquanto ideia colectiva de hipotético movimento musical, mas também porque encontrar, no início dos anos 90, bandas norte-americanas a praticar Black Metal (sem influências exógenas demasiado evidentes, nomeadamente de Thrash e Death Metal) era uma tarefa exequível – desde os anos 80 existiam bandas pequenas com um som ainda mais sujo que Venom como N.M.E., por exemplo – mas extremamente complicada.
Há a famosa imagem de Varg Vikernes a usar uma t-shirt de Von no julgamento do homicídio de Euronymous e de facto esta era uma das poucas bandas a praticar este estilo, cujo contexto e origem, é demarcadamente europeu. No entanto, mesmo Von tinha um som ligeiramente diferente, muito mais ligado ligado à brutalidade e velocidade e menos à atmosfera (principal característica distintiva do Black Metal que se fazia na Europa).
Só mais tarde é que surgem bandas como Krieg (mais tarde e não surpreendentemente membros desta banda haveriam de tocar como músicos convidados em JI) e Black Funeral a praticarem um estilo próximo do ia sendo feito na Noruega. No entanto, tanto Krieg como Black Funeral só surgem em 1995 e 1993, respectivamente, isto é, um pouco mais tarde que JI que inicia as suas actividades em 1992.

Assim sendo, The Cold Earth Slept Below… surge como uma das primeiras demonstrações de (puro) BM norte-americano a ter alguma relevância na cena mundial. Fruto da insistência do fundador e único membro fixo da banda Andrew Jay Harris, mais conhecido pelo seu pseudónimo Akhenaten. À semelhança de grandes nomes do estilo, Judas Iscariot foi predominantemente uma “one-man band”. O uso do pretérito deve-se ao facto de JI ter cessado as suas actividades em 2002… mais concretamente a 25 de Agosto desse mesmo ano. Neste caso o dia e mês são bastante importantes para perceber a ideologia por detrás do projecto: Judas Iscariot acabou 102 anos depois da morte do filósofo que mais influenciou o seu mentor, ou seja, Friedrich Nietzsche.

Indivíduo com formação académica na área da Sociologia, Harris sempre se pautou pela integridade que incutida ao projecto, quer a nível ideológico (com persistentes ataques niilistas às religiões organizadas sendo o Cristianismo o foco particular), quer a nível artístico. Exemplo disso é a declaração que explica o fim da banda após 10 anos em actividade.
The Cold Earth Slept Below… mostra o lado mais primitivo e frio da perseverante luta de Akhenaten contra a moral cristã através da sistemática desconstrução niilista aqui traduzida em ódio sonoro.

Alinhamento
01 – Damned Below Judas
02 – Wrath
03 – Babylon
04 – The Cold Earth Slept Below
05 – Midnight Frost
06 – Ye Blessed Creatures
07 – Reign
08 – Fidelity
09 – Nietzsche

Ano 1996

Editora Moribund Records

Género Black Metal

País EUA

Banda
Akhenaten (Andrew Jay Harris) – Todos os Instrumentos e Voz

Review
Por motivos de honestidade analítica há que dizer logo no início e muito claramente que o Black Metal de Judas Iscariot não é exactamente o que poderíamos chamar de singular. Mesmo atendendo ao ano em que foi lançado, The Cold Earth Slept Below… já denota muitas influências do que outros nomes tinham feito antes.Neste aspecto surge, de forma algo natural, a referência a Darkthrone. Em 1996 já tinham sido lançados trabalhos como o A Blaze In The Northern Sky e Transilvanian Hunger, e este trabalho de JI vai buscar vários elementos a esses dois marcos do Black Metal moderno.

Não obstante o primeiro álbum de estúdio de Judas Iscariot caminhar em terreno já conhecido, Akhenaten consegue fazer uma interpretação bastante interessante do que havia sido desbravado até então. Não havendo propriamente inovação a nível musical (nem é esse o objectivo de Harris), a unicidade de TCESB advém da atmosfera transmitida. O sentimento niilista é muito forte, não só devido ao conteúdo lírico ou à abordagem vocal, mas porque toda a obscuridade do álbum remete para uma ideia de profundo anti-conformismo para com o mundo envolvente. Se existem semelhanças musicais mais ou menos evidentes com nomes predecessores a JI (Darkthrone, por exemplo), a atmosfera criada é bastante única, quer pelo extremismo da mesma, quer pela forma como as variações (não sendo exactamente original, é um trabalho que varia bastante embora sempre dentro do espectro do Black Metal) vão mantendo sempre o mesmo nível de intensidade.

A música de Judas Iscariot (não somente neste álbum) reveste-se de uma complexidade conceptual que contrasta com a abordagem puramente musical que pode ser ouvida em The Cold Earth Slept Below que é substancialmente mais simples. Está claro de ver que a intenção de Akhenaten não era fazer um álbum tecnicamente complexo, pelo que a questão não se põe em termos de capacidade, mas é interessante olhá-la numa perspectiva contrastante que maximiza o efeito pretendido.
Abordando a produção do álbum é possível vislumbrar esta simbiose: o conteúdo filosófico inerente é na sua génese extremo, quer em complexidade quer em valores (ou se se preferir, na falta dos mesmos…) e a produção bastante minimalista e crua acentua esta mesma atmosfera, fazendo com que o trabalho seja fiel retratador a escrita aforística e poderosa de Nietzsche, a grande inspiração ideológica do projecto. O mundo das ideias (complexo) e o mundo musical (simples) unem-se sob o signo do extremismo da mensagem: a comunicação é cruamente poderosa mas a mensagem assume-se como ambiciosamente complexa.

A produção rude e (propositadamente) pouco “trabalhada” (ou trabalhada exactamente para parecer pouco cuidada…) não mascara algumas passagens mais turbulentas no que diz respeito a um elemento do álbum: a bateria. Se na maioria das vezes a repetição ajuda apenas a manter a atmosfera do álbum, quando se dão algumas passagens mais velozes ou há uma tentativa de imprimir outras dinâmicas, nota-se alguma falta de experiência e habilidade. Não sendo expectável (ou mesmo recomendável) um trabalho de grande perfeccionismo, algumas falhas notam-se um pouco mais do que o devido. Até neste caso (que não é positivo, diga-se claramente) a integridade musical de Harris é denotada, sendo que seria porventura mais “fácil” substituir a bateria real por uma qualquer caixa de ritmos.
No entanto, as pequenas (mas evidentes) falhas na bateria não afectam todo o sentimento geral que o álbum emana pelo que não deve ser visto como algo castrador da fluidez do trabalho. Até porque a bateria surge apenas, como já tinha referido, para dar relevo à atmosfera violenta e odioso de The Cold Earth Slept Below e nesse campo não se podem apontar quaisquer lacunas.

Num plano de bastante maior destaque que a bateria (e que o baixo que é inaudível) encontram-se as estridentes e cortantes guitarras que atravessam todo o álbum. O trabalho é maioritariamente assente em riffs gélidos repetidos várias vezes durante as musicas. O trabalho é simples, mas é possível escutar uma grande variedade no mesmo: existem momentos de Black Metal mais furioso (remanescente do trabalho de Darkthrone em Transilvanian Hunger) como é o caso de Damned Below Judas; passagens mais lentas e com riffs épicos, algo que pode ser encontrado na faixa-título; melodias atmosféricas com um efeito altamente hipnotizante que pode ser ouvidas, por exemplo em Babylon.
O interessante neste aspecto é o facto de quase todas as músicas apresentarem esta diversidade. Não pela mesma ordem nem seguindo sempre o mesmo padrão, o que tornaria a escuta monótona rapidamente, mas várias faixas têm as variações descritas e apesar de pintarem uma paisagem bastante monocromática, fazem-no de uma maneira bastante interessante. Fidelity – uma das melhores faixas do álbum, diga-se – é um dos bons exemplos deste aspecto que The Cold Earth Slept Below apresenta, indo dos caóticos às melodias soturnas e mais lentas.

Com as guitarras a conduzir, o álbum vai-se movimentando em diversos campos dentro do Black Metal com o objectivo de criar uma atmosfera desoladora e vazia em consonância com a filosofia niilista seguida por Akhenaten, onde se constata a falta de valor ou propósito da existência (humana). De facto, esse é o sentimento que enche e percorre o álbum. Mesmo não sendo possível o acesso às letras (tudo o que se pode perceber é através de audição directa), o sentimento de invasão por parte de um enorme vácuo é a mais perceptível característica dos quase quarenta e quatro minutos que compõe o álbum.
Contudo, não se pense que este efeito é atingido calmamente. Como mencionado, existem momentos mais lentos e arrastados, mas a incursão pelo lado mais rápido e agressivo do Black Metal está bem presente e o ódio surge como transporte precisamente para a desolação. Atente-se logo ao início do trabalho com Damned Below Judas onde a primeira palavra vociferada é precisamente: Hatred. Uma declaração de intenções bem directa logo nos primeiros segundos do álbum.

Para completar o ambiente geral do álbum, temos a voz de Harris. As vocalizações são bastante típicas do género (arriscaria até dizer que este é o padrão de voz para o Black Metal moderno): guturais poderosos que, por se encontrarem um pouco enterrados na produção, têm um som abafado e distante, o que enfatiza a atmosfera odiosa e cinzenta do álbum. Não sendo exactamente originais (são bastante na linha do que Nocturno Culto já fazia em 1996), as vocalizações neste primeiro álbum de Judas Iscariot ganham dimensão e destaque muito maior devido à sinceridade por emanada por Akhenaten e pela forma como se encaixam nos riffs arrastados (os vocais resultam melhor nas partes menos rápidas das músicas), criando uma ideia de narração filosófica. A última faixa do álbum, que tem o sugestivo nome de Nietzche, é o melhor exemplo do que acabo de referir, nomeadamente devido à entoação quase profética que os vocais assumem.

Todo o trabalho é bastante homogéneo no seu todo. As variações que referi surgem sobretudo dentro de cada faixa, mas a atmosfera de faixa para faixa é sensivelmente a mesma. Não se esperava outra coisa e é precisamente este envolvimento que o trabalho tem que o torna interessante.
Como já foi amplamente exposto, não se trata de um trabalho original em termos estritamente musicais (embora hoje possa soar ainda menos uma vez que muitas bandas trilharam o mesmo caminho que os antecessores de JI ou do próprio projecto norte-americano) pelo que vale fundamentalmente pela qualidade imprimida ao álbum.
Neste caso em concreto, a mais valia do álbum é conseguir manter a qualidade e interesse por dois motivos: por um lado, há uma envolvência geral muito bem conseguida e que consegue transmitir na perfeição o sentimento niilista que Harris pretende; por outro lado, existem vários momentos (sejam riffs arrepiantes, passagens melódicas de cortar a respiração ou simplesmente instantes de Black Metal executado com o sentimento certo) que por si só se tornam verdadeiros hinos e o melhor é que há muitas alturas em que isso acontece.
Os momentos arrastados e tenebrosos de Damned Below Judas ou Fidelity, os riffs bastante inspirados em Babylon ou no riff principal de The Cold Earth Slept Below e ainda a hipnótica e longa viagem de Nietzsche (tema que de alguma forma se torna no paradigma máximo do trabalho e porventura do próprio projecto), são (por si só) tudo fantásticas demonstrações de como deve ser feito BM, mas quando integrados num álbum com a capacidade de proporcionar um efeito de abstracção exterior para uma maior exploração individualista, tornam-se ainda melhores e transcendem a qualidade intrínseca que cada uma dessas demonstrações teria já por si só.

Conclusão
Quando se fala da cena norueguesa do final dos anos 80 e início dos anos 90, é preciso ter em conta que são muitos os álbuns de referência e ainda mais aqueles álbuns que são esquecidos, apesar de serem de elevado nível. …Again Shall Be está na melhor tradição qualitativa dos álbuns de Black Metal norueguês da altura (apesar da sua abordagem diferente da maioria das bandas). Por ser num estilo que já estava cimentado por Bathory talvez não tenha o crédito que álbuns mais distantes da sonoridade praticada até então e que se tornaram em autênticos marcos do BM moderno. No entanto, isto não invalida que o primeiro álbum de Hades consiga ombrear com algumas das melhores criações saídas na altura por parte de bandas norueguesas… e a “concorrência” é bastante grande.

É admirável a forma como os jovens músicos de Hades se conseguem movimentar nas inúmeras influências que têm, criando um álbum essencial dentro do Viking Metal e paradigmático naquilo que a cena norueguesa tinha de melhor: pintar sonoramente a paisagem e história do país em questão.

PhiLiz
Originalmente escrito em:

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